Lista de Poemas
O cacique
A minha aldeia não é a minha aldeia.
Levada pela maré da lua cheia, ela me odeia.
Na minha aldeia a teia está se quebrando.
As partes estão voando.
Os fios não estão aguentando
A convulsão que o tornado vai causando.
A minha aldeia está de cara feia.
E eu não vejo luz nem de uma candeia.
A frágil alma da aldeia se derrete igual sorvete
E o cacique não tem cacife pra cacique – cacete!
O caro pajé, vendo o que quer,
Vende caro o combo da fé.
Fiéis ao papel, os figurantes
Não figuram em nenhuma figura.
Que loucura, a essa altura,
Os flagras ainda não são flagrantes.
Seu Guerra
Seu Guerra é um fazendeiro que se diz de paz, apesar do nome.
De paz, mas mata os trabalhadores de fome.
Seu Guerra diz que ama a sua terra,
Mas as suas serras derrubam sonhos, esperanças,
Árvores e desejos de mudanças.
Nas terras de seu Guerra não se cultiva flores.
A terra de seu Guerra é para os pés de senhores
Que se banham de perfumes para mascarar odores.
Ela é o corpo de um escravo cravado pelo lucro
Que não cava o chão, mas pega os frutos.
A terra de seu Guerra é a serra, é o corpo e é o ouro
Que da massa tira o couro.
A terra de seu Guerra
É uma guerra embutida na paz,
É um faz de conta que faz,
É uma conta que não conta nada mais
Além do que interessa ao contador,
É um rio que sufoca o nadador,
É a frente que fica para trás pisoteada pelos animais
Que não precisam nadar
Porque nada falta aonde o bando chegar.
Nas terras de seu Guerra há vidas e vidas.
Os que moram fora da avenida,
Nem sequer são peixes menores, são nelores
A serem tangidos conforme o querer
De quem dita como e onde o vivente vai viver.
Nas terras de seu Guerra o bezerro berra e a mãe não vê.
A velha arte
A mentira sempre foi uma arte
Para alguns que tocam o intocável.
Tocam... fazem a festa os artistas.
Nessa pista, dança quem lá não está.
Esses artistas tocam o intocável.
A mentira nunca teve as pernas curtas
E desfruta de crescentes esconderijos.
A mentira sempre foi mais rápida que a verdade,
Sempre foi mais engraçada,
Mais solta, mais carismática, mais animada, mais viajada…
Os ventos, que sopram as birutas e indicam a direção,
A ela sempre estenderam as mãos.
Sempre a embarcaram em charretes, trens,
Ônibus, carros, navios…
E a ela deram asas para voar.
A mentira sempre desfilou nas vias de comunicação.
Os veículos levam a mentira
Sempre bem vestida, sorridente, bem penteada
Ou bem séria, inspirando e expirando verdades,
Transpirando verdades por todos os poros.
A mentira sempre foi indispensável no tráfego
Das principais vias.
Hoje com a informação na velocidade da luz,
Os grandes dessa arte espalham a palavra com o sinal da cruz.
É a festa das notícias falsas
Ou das falsas notícias
E com os valores nas mãos do valor que vale,
O seu fulano leva a razão para o baile.
É a festa das notícias falsas.
Falso e fato estão na briga.
Os fatos estão fora da barriga.
As vísceras estão expostas.
O ar está cheirando a bosta.
Abrindo Brechas
Há uma terra,
Onde quem defende o ouro nunca erra.
Já os que defendem o sangue
Por pouco são chamados de gangue.
Diz uma voz em mim,
Que não é bem assim.
A ideia de dois pesos e duas medidas
Não cabe nem num copo de bebidas.
Nos que defendem o ouro não há uma coisa feia
Que não esteja nos que defendem o que passa pelas veias.
Tanto um como o outro
Dão guarida para o porco.
Eu sei que os rastros do porco podem estar nos dois lados,
Mas mesmo parecendo misturado
Posso distinguir, pois ambos são inclinados
E dos ângulos não resultam os mesmos resultados.
A ideia de farinha do mesmo saco
Serve aos que deixam o povo no buraco
E põem o ouro no casaco,
Como fazem os donos de uma colmeia.
A abelha morre de trabalhar,
Mas não pode saborear
E a ela resta se arrastar feito uma centopeia.
O fato de não haver ninguém santo, nem perfeito,
Não valida o julgamento com defeito.
Não desejo lançar na fogueira
Os que tentam esconder o sol com uma peneira.
Mas eu sei que o jogo sujo
Abre brechas para os ratos, as baratas, os escorpiões, os caramujos;
Para os ovos da serpente,
Para os olhos dos abutres...
O jogo sujo
Abre brechas para um mar de absurdos.
Novos velhos
O atual sistema feudalista lista o que quer,
Despista o que é e descarta o que não quer.
Ouço a mão do sistema,
Dos novos suseranos, velhos fulanos, eternos esquemas
Para sugar a massa e deixar a carcaça fora do desenho.
Suserano, senhor feudal, senhor de engenho...
Nomes que não mais comem.
Mas a fome que eles representam
Apresenta agora outras nomenclaturas,
Que significam a mesma voracidade das velhas criaturas.
Voracidade que ganha asas por meio de novos instrumentos
Para não só fazer sofrer, mas também aceitar os sofrimentos.
As correntes que prendem os escravos de hoje
São invisíveis.
Os escravos nem sabem que são escravos.
O acorrentado se sente preso,
Mas não sabe a quê.
Pode pensar que seja ao que não tem,
Ou a todo mundo ou a ninguém.
O acorrentado se sente preso.
A prisão é invisível,
Mas se sente o peso.
A dor é sentida.
As correntes são invisíveis.
Traficantes de escravos,
Senhores de engenho, feudais, suseranos atuais,
São todos invisíveis.
Mas a dor é sentida.
O açoite e o chicote também são invisíveis.
Mas a dor é sentida!
O ferro, em brasa, rompendo a pele
Para identificar o proprietário
É invisível.
Mas a dor é sentida!
O chiado e a fumaça do ferro
Que identifica o proprietário
São invisíveis.
Mas a dor é sentida!
A dor é sentida, a dor é sentida...
Morcego
Vejo o capitalismo como o efeito estufa,
Tem que ser com ele, mas o excesso nos desfaz.
Não dá pra suportar os morcegos neoliberais.
Nem dá pra engolir a conversa do javali,
Que trata o povo como o vendedor de caldo trata a cana.
O povo é apenas uma escada pra subida do bacana.
A distância entre o bacana e o bagaço de cana não para de aumentar.
E certos moços têm coragem de falar que sugar é sustentar.
Tapam o sol com uma peneira, falam sério de brincadeira,
Deixam a massa amassada, sugada, jogada na esteira.
Se as coisas vão de vento em popa,
Eles vão enchendo a boca.
Quando a escassez aperta o cerco
Apertam ainda mais os que vivem no aperto.
Olhando os horizontes, vejo o hoje pior que o ontem.
Sinto os ventos me puxando para trás,
Soprados pelos toques da viola dos neoliberais,
Que toca no ritmo que quiser.
Faz a festa e bate o pé
E por mais que toque errado
Jamais o pinho é culpado.
Tempo sombrio
Sonhei que eu estava em um tempo sombrio.
Som, brio, alma, visão, paladar, olfato, tato, todos os sentidos
Sendo atingidos pelo vácuo que se abriu.
Dele emergiu um espírito de porco,
Muito cínico e muito louco,
Que queria afastar de mim o pensar.
Tirando-me o pensar, em mim nada vai restar!
Ele é céu, o sol, o ar da minha vida,
Sem ele ela é um cisco atingido numa corrida,
Irei bater a cabeça na parede da memória,
Serei livre como um pássaro numa gaiola.
Se eu não puder bater asas, contemplar, perceber,
Cantar e contar o amanhecer e o que eu ver
Sem dúvida, irei perder o que herdei
E não saberei por onde andar nem aonde andei.
Sem a barca do pensar
Serei arrastado pelas águas que correm para o mar.
Se suprimirem de mim essa dama,
Em mim só restará lama.
Que pesadelo pensar
Que a barca do pensar vai afundar.
Acordei embaraçado como se tivesse levado um sacode.
Era o som do alarme repetindo: acorde, acorde...
A indústria da seca
Na minha aldeia
A coisa está feia por falta de água,
Da água que não falta nesse chão.
Aqui a caminhada deixa o povo na mão
De quem pinta e borda, deita e rola
Em cima do povo, que assim precisa de esmola.
Esse alçapão parece de espuma de sabão,
Mas é duro como pedra
E dura tanto que me quebra.
Se cavar o chão a água vem pra mão,
Com a água na mão vem o pão,
Com o pão vai o problema,
Vem a solução para quem sofre.
Mas solucionar não é a melhor opção
Na visão de quem tem um cofre.
Até entendo que o dono de funerária fique alegre com a morte,
O mecânico com o motorista em má sorte,
O médico com o paciente...
Mas a indústria da seca é diferente.
Ela deixa o homem sem pernas
Para que a festa da casa grande seja eterna.
Ela não apenas lucra com a desgraça alheia.
Ela impede que o homem se desamarre da correia.
Quando o povo está a morrer de fome e de sede,
Certos socorristas formam uma rede
Que fica com o que vem da distribuição:
O cabresto, o curral, o mercado, a eleição...
A seca seca a esperança,
Que murcha e estrebucha
Cercada pelos que não querem mudança.
A fome que consome
Serve de instrumento
Para o lobisomem fazer o nome.
O mordomo
Toda a culpa é do mordomo.
Essa ladainha me dá sono,
Mas meus olhos não estão fechados,
E veem nos horizontes um quadro mal pintado.
Está difícil dormir com esse barulho.
Nessa terra aterrada
Ninguém tem culpa de nada
Toda a culpa é do Estado e do entulho.
Estado, sociedade e mercado.
O jogo não era tão desequilibrado.
Agora passeiam as cartas marcadas
Jogadas para tudo e para nada.
Nos novos tempos, os velhos moços
Colocam o mundo no bolso
E por baixo dos panos
Arrastam tudo e causam danos.
Marcada à parte, a arte de regular está sendo desregulada.
E no caminho do deus dinheiro
Não surge um camelo pra limitar a caminhada.
Quem vai dizer que a eco “non” mia mais alto?
Ela corrompe, envenena e toma de assalto.
Tornando natural o que não é natural,
Ela vai promovendo na pirâmide social
Uma diferença abissal.
A eco não prioriza a bio.
Dela só escapa o que ela não viu.
Ela é mecânica, robotizada,
Sem alma, sem nada
Que possa compreender a vida,
Por isso queima tudo para se manter aquecida.
Ela não ecoa para o meu mundo.
A eco ecoa para o touro pisar fundo.
Empatia
Sonhei que eu era uma criança
Sendo queimada viva na Faixa de Gaza.
Eu gritava, pedia socorro...
Para recebê-lo estirava a mão,
Mas as línguas de fogo apagaram a minha respiração.
Vi meu corpo lambido
E me vi com asas para voar.
Vi a face dos disfarces.
Senti as chamas na minha alma,
Tão ardentes quanto as que lamberam o meu corpo.
As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus filmes.
Nos últimos minutos subiam as letrinhas.
Queimaram os créditos, os agradecimentos, as festinhas...
As chamas antes de me queimarem,
Queimaram meus aniversários,
Meus desenhos animados,
Minhas musiquinhas pra eu dormir...
Queimaram a festa de formatura da alfabetização.
Queimaram os abraços dos meus pais, dos meus avós,
Da minha irmã de três anos que corria até o portão para me abraçar quando eu chegava da escola.
Queimaram meu sorriso com uma janelinha na boca,
Que eu o apreciava nos olhos de minha mãe.
Queimaram minha cavalgada nas costas do meu pai.
Queimaram as cenas nas quais eu voava dos braços para os braços do meu pai.
Queimaram os sonhos meus e de meus coleguinhas,
Sonhávamos em ser escritor, professor, ator, cantor, jogador de futebol...
Sonhávamos com a lua, com as estrelas, com a praia em um dia de sol...
Sonhávamos...
Comentários (0)
NoComments
Português
English
Español