Lista de Poemas
As Placas
Quando eu era criança,
Enquanto os caminhos me puxavam pelas mãos,
Eu ouvia o meu coração,
Que dizia que na vida adulta eu escolheria os meus caminhos.
Aos dezoito eu teria a minha emancipação
E teria o meu mundo em minhas mãos,
Seria dono do meu nariz.
Traçaria o meu caminho.
Eu achava que os adultos precisavam aprender com as crianças.
Talvez precisem um pouquinho.
Eu tinha a solução pra tudo.
Tinha solução pra tudo,
Porque não tinha nada pra solucionar.
Eu pensava que os meus caminhos estavam em minhas mãos.
Eu pensava que ia escolher como e por onde andar.
Como se não existissem as placas para me condicionar:
Aqui é mão, aqui é contramão.
Entre por aqui, por ali não pode não.
Não pare aqui, não estacione ali,
Não ultrapasse tal velocidade.
Atenção: curva perigosa, estreitamento de via,
Cruzamento, passagem de ferrovia...
As placas estão fora e dentro de mim
E não permitem que eu tenha o meu mundo em minhas mãos.
Não sei o peso das placas que indicam a direção.
Mas quem me diz que o resultado da minha caminhada
Depende apenas das forças das minhas pernas
Ignora ou esconde as condições do caminho.
Mata verde
Na festa de Mata Verde, fantasia e realidade se confundem.
Saci-pererê, mula sem cabeça, bicho-papão, papa-figo, lobo mau…
Vão bem de verdade. São bem de verdade.
Eles falam o que querem e falam sério.
Brincadeira é querer amadurecer na festa de Mata Verde.
Querer distinguir o que é fantasia ou realidade é loucura,
É querer sarna pra se coçar,
É querer nadar contra a corrente,
É querer demais.
Ultrapassa os limites da brincadeira,
Que de brincadeira não tem nada.
Na festa de Mata Verde,
Há vantagem em ser criança
Ou brincar de criança.
Na verdade só meia dúzia de crianças se dão bem,
Mas o que importa na Mata é viver verde.
As chaves que abrem as portas e as porteiras
Não se movem de brincadeira,
Movem-se para movimentar:
O Saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho-papão, o papa-figo, o lobo mau e todos que estão na festa.
Movem-se para fazer a festa de quem não está na festa.
Na Mata, matérias verdes apodrecem sem jamais amadurecer.
A festa de Mata Verde é isso.
Não é pra brincar em serviço.
A festa da Mata cultiva profundamente o verde.
O saci-pererê, a mula sem cabeça, o bicho- papão, o papa-figo, o lobo mau…
Botam as crianças pra dançar,
Tiram os pés do chão e a cabeça do lugar.
Nessa festa quem quiser enxergar, ouvir, ou sentir com os próprios sentidos
Vai dar de cara com um vespeiro enlouquecido.
O Portão
Dormi no relento para entrar na escola.
Não foi bem dormir,
Passei a noite em uma rede a céu aberto
Olhando pra lua, pras estrelas e para mim.
Olhava para mim e saía de mim.
Não havia, nem eu queria, um espelho para eu me ver.
Eu me via com sono e com medo de dormir.
Medo de acordar com a chuva.
Medo do sereno não me acordar.
Medo de não acordar cedo,
Quatro da manhã.
Mas quatro da manhã seria suficiente
Ou a escola já estaria cheia?
Passar aquela noite que não passava
Para não passar pelo portão da escola
Era um pesadelo a ser tatuado na minha memória.
Não aguentei ficar na rede até às quatro horas.
Corri pra escola.
Já havia fila.
Meu coração acelerou.
A minha alma desapareceu na escuridão dentro de mim.
Quando o dia clareou passei pelo portão.
Mas passo mal quando vejo alguém dizer,
Com ingenuidade ou de má fé,
Que só não passa pelo portão quem não quer.
Por nada
Uma das minhas travessuras de criança
Era perseguir calangos e preás.
Os dois são inofensivos.
Mas a graça ou a desgraça de ser caçador,
Ou explorador, também me atravessou.
A caça não era para tirar proveito da caça,
Era para a carcaça da alma ou para a alma da carcaça.
Era uma espécie de caça esportiva,
Para saciar o insaciável,
Para contar o que não conta.
Era uma fome sem nome que consome os sentidos
E segue cegamente a brincadeira.
Era tudo por nada.
Perseguindo calangos e preás,
Quando eu pisava num espinho,
Ou tropeçava numa pedra
Culpava quem tentava se salvar.
Petrificava o coração,
Ficava com sangue nos olhos,
Que não demorava a sujar as mãos.
A dor da minha estupidez
Ou a estupidez da minha dor,
O calango ou o preá,
Sem dever, ia pagar.
O Circo
Com vocês Nadine em passos de rumba!
Anunciou o palhaço e o circo aplaudiu.
Nadine flutuava como se estivesse na lua.
Um espectador que estava nas nuvens acenou para ela.
A borboleta pousou ao alcance das mãos do desgraçado.
A atriz pegou o boné do infeliz e usou como quis.
O circo pegou fogo.
O palhaço surfava nas chamas
Acesas por Nadine
E alimentadas pelos artistas da plateia.
Ao ser visto por Nadine
O meu indicador se moveu por conta própria.
A borboleta flutuou na minha alma
E sugou todos os meus sentidos.
As chamas que iluminavam o circo baixaram
Em uma vela na palma da minha mão.
A minha alma não sabia aonde ir.
Por alguns segundos
Colocaram o mundo no mudo.
Nas faces havia disfarces e sorrisinhos venenosos,
Que na minha ausência virariam gargalhadas intermináveis.
Pensei em ir embora,
Mas imaginei o palhaço usando o meu nome
Para conversar com o lugar vazio.
Na plateia todos se conheciam.
Fácil, fácil, o meu nome iria parar na boca do palhaço,
Que atuaria comigo sem a minha presença.
Imaginei piadas
E uma onda de gargalhadas como uma ola nas arquibancadas.
Uma onda de gargalhadas agitando o circo
Como se fossem redemoinhos endiabrados.
A voz dos meus avós ecoou nas paredes da memória:
Meu querido,
Se na sua presença pegam leve com você,
Na sua ausência você será o alvo preferido.
Minhas orelhas não iriam esquentar, iriam incendiar.
Essa arte sempre desfilou no circo e fora dele.
Nadine nem parecia que tinha sido convidada
E abandonada no salão.
Tirou de letra e o show continuou.
O circo sempre continua no circo e fora dele.
O circo continua com ou sem pão
O circo toma conta de tudo
E cumpre a sua missão.
O Cavalo do Zezé
As abelhas pegaram o cavalo do Zezé.
O cavalo corria sem parar,
O enxame não o deixava respirar.
O cavalo corria em círculo,
Preso pelas cercas intransponíveis que estavam dentro de si.
A do cercadinho era dois fios de arames velhos,
Só um pouquinho da força do cavalo
Seria suficiente para derrubá-los.
Quanto mais corria, mais visitava a colmeia.
Transportava, cada vez mais, mais abelhas.
Correu, correu, correu...
Tropeçou, caiu e lá ficou.
Não foram as abelhas que venceram o cavalo.
Se fosse um cavalo selvagem
A história seria outra.
Mas o domesticado...
O domesticado é tudo e não é ninguém
Mais que escravo e refém.
O Bêbado
Eu vi um bêbado ser um brinquedo
Para crianças de várias idades.
As crianças cutucavam o bêbado
Com a cumplicidade dos pais e dos demais adultos.
Os pais diziam:
– Meninos parem com isso!
Mas ficavam mordendo os lábios,
Para não rirem na frente dos meninos.
Os travessos percebiam e o espetáculo continuava.
O “parem com isso” era um faz de conta,
Parecia certas lutas contra a fome, a destruição do meio ambiente...
Parecia com o papel de quem faz que não vê o rolo compressor
Que esmaga crianças, mulheres, idosos e a construção da humanidade.
O bêbado era um brinquedo.
Os travessos davam petelecos nas orelhas,
Puxavam os cabelos, chutavam as pernas
Atormentavam o bêbado,
Que em vão procurava humanidade na Humanidade:
– Vocês não estão vendo isso não!
O bêbado não fazia mal a ninguém.
Se segurava em uma garrafa de cachaça
E depois cantarolava meia hora e apagava.
Meia hora de “lata d'água na cabeça” e outras parecidas.
Nenhuma música inadequada para aqueles ouvidos.
Nenhuma palavra obscena, nenhuma ameaça.
Nada, nada, nada...
Sem forças para ficar de pé,
Não correria nem de um leão faminto.
Inofensivo, indefeso, desamparado...
Não tinha ninguém por ele.
Tudo que tinha era a música e o álcool.
O prazer de ver o outro tropeçar, cair, meter os pés pelas mãos,
Não nos larga depois que os tropeções de um circense ou de um parente não têm mais graça.
Largamos as fraldas, a farda da alfabetização,
Os dentes de leite, as bonecas, os brinquedos
E um punhado de segredos,
Mas a diversão com o tropeção do outro não.
E o bêbado sendo levado pelo vento,
Se segurando nas paredes,
Colocando as mãos no chão, era uma diversão.
Mas isso ainda era pouco
Para as inesgotáveis necessidades que nos consomem.
Sonho Eletrocutado
Nunca fui um sonhador, mas sonhei ser jogador.
Na frente da minha casa ou na estrada empoeirada,
Por onde passavam mais animais que gente
E o carro que passava era o de boi,
Eu mostrava intimidade com a pelota.
Todo dia à tardinha,
Depois da escola e da labuta,
Com aquela energia que só as crianças têm,
Eu bailava com a bola até o sol ir embora.
Aos dez anos eu jogava com as crianças,
Aos doze, com os adultos;
Aos quinze...
Um raio eletrocutou o meu sonho.
O gato e o pássaro
Outro dia, parei minha caminhada matinal
Para ver um gato se aproximar de um pássaro.
O gato além de colocar o mundo no mudo
Ainda se movia como se não existisse movimento.
E o pássaro parecia que estava em outro mundo.
Mas eu já tinha visto um pássaro brincar com a morte.
Em uma outra manhã eu vi um pássaro
Voar da grade de uma quadra de esporte
Para pousar em uma árvore.
Mas não foi um voo qualquer.
No chão, entre um ponto e outro,
Havia um gato.
Se o pássaro fosse um jato
(Daqueles que deixam uma linha no céu),
O voo não deixaria uma linha no ar,
Deixaria um arco.
Um arco sorrindo para o céu.
O pássaro que estava no alto,
passou a centímetros da boca do gato,
Parecia que iria beliscá-lo.
O pássaro saiu sorrindo
E o gato ficou digerindo a gozação.
Mas a ideia de uma brincadeira perigosa
Foi embora.
O pássaro estava com a cara no chão
Procurando comida.
O pássaro da quadra de esporte era senhor da situação.
Já o pássaro com a cara no chão
Não estava a par do alçapão.
Ele lutava pela comida.
Quem luta para não morrer de fome
Não pode enxergar bem o mundo ao seu redor.
A angústia tomou conta de mim.
O gato tinha uma casa, tinha o que comer
Não precisava pegar aquele pobre passarinho.
Mas aquele gato tinha o instinto dos donos,
Não precisava ter necessidade para devorar uma vida.
Decidi intervir.
Mal me movi, ouvi uma voz.
Olhei para trás,
Duas criaturas me chamaram.
Tinham feito uma aposta.
Eu não poderia intervir.
Os dois estavam ansiosos.
Um torcendo para o bicho pegar
E o outro querendo ganhar a aposta.
Tentei convencê-los a desistir dela.
Foi em vão.
Fui ao fundo dos olhos das criaturas
E não vi resquícios de compaixão.
Uma vida estava prestes a ser devorada.
O devorador e os apostadores estavam em fina sintonia.
Todos querendo ganhar.
A vida em jogo.
Eu por covardia ou prudência,
Limitei-me a dizer que ia torcer para o pássaro voar.
Um deles sorriu.
Mas mal acabei de falar,
O outro riu,
Riu melhor, gargalhou, ganhou a aposta.
Pássaros
Nos dias da minha infância,
Eu subia o morro do caju para subir nos cajueiros
E olhar pro céu por cima dos coqueiros.
Rompia a copa do cajueiro,
Olhava para os horizontes
E via o mundo todo.
O mundo era aquilo,
Era o que os meus olhos conseguiam ver.
Nos caminhos da minha infância,
Eu via o verde nas minhas mãos
E nuvens de algodão
Que realçavam as alegrias do céu azul
Daquele mundo que existia em mim.
Quando o sol ia embora,
Vinha a lua com um sorriso sem fim,
Meus olhos viajavam
Apreciando a lua e as estrelas,
Que desfilavam para mim.
Para os meus olhos
Não eram as nuvens que davam a sensação
De ver a lua e as estrelas em movimentação.
A inexistência de luz artificial
Iluminava a minha existência.
Essa luz esconderia a maioria das estrelas,
Enfraqueceria o elo
E deixaria a lua com um sorriso amarelo.
Hoje quando vejo o céu ameaçado por nuvens sombrias
Busco o céu da minha infância
Para seguir no meu caminho,
Apreciando o sol que dá bom dia,
Os pássaros que cantam com alegria
E as árvores que bailam com o sopro do vento.
Fujo pra respirar aquele ar,
Corro para abraçar
O lago que me fazia saltitar.
Fecho os olhos para ver
As pedras que eu jogava,
Que faziam salto triplo na superfície da água.
Meus pés saíam do chão
E as minhas mãos socavam o ar.
No céu com a lua e as estrelas
O silêncio falava,
Os vagalumes iluminavam
E as pedras voltavam
A me transformar em um pássaro saltitante.
Agora não era a pedra na água,
Era a pedra na pedra.
Se a pedra para a água era magrinha e espalhada.
A pedra para pedra
Era cheinha e bem pesada.
No cenário da noite
As pedras que eu jogava em pedras gigantes
Soltavam faíscas fascinantes.
Nos caminhos da minha infância
Eu corria olhando pro chão e o chão olhava pra mim
E passava sob os meus pés como se fosse uma esteira ergométrica.
Outras vezes eu olhava pro chão,
Mas não era para vê-lo ou ser visto.
Agora o chão era uma espécie de telão.
Isso em plena luz do dia
Com o céu azul e o sol no meio do céu.
Nesse cenário qual projetor conseguiria pôr uma imagem no chão
E nela pôr a minha atenção?
Não, não, não!
Naquele campo que era o meu mundo
Ou no meu mundo que estava em campo
O chão era um telão para as sombras das nuvens.
Delas e atrás delas eu corria
E nelas eu via as graças do meu dia.
Hoje em dia, as crianças do meu lugar
Não estão no meu lugar,
Estão lá, mas não estão lá.
Estão no celular.
Não são livres para brincar, imaginar e enxergar.
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