Aldeia claudicante

A luz que me ilumina me encandeia

Quando quero mostrar o que não se mostra na aldeia.

Preciso pintar um quadro convincente,

Mas que não mostre o papel de certas gentes.

 

Tenho que fazer vista grossa

Para a gente fina

Que sempre endossa

O que vem de cima.

Tenho que viver em uma casa sem botão,

De peito aberto e sem alma na mão.

 

A minha alma é livre para navegar,

Desde que eu consiga negar:

Que os sentidos estão no sentido que interessa

Aos que mandam na conversa,

Que a luz da casa grande chega à senzala

Para indicar uma direção, não para iluminá-la. 

 

Tenho que vender como autênticos os falsos Picassos

E me emporcalhar na lama do riacho. 

Tenho que dizer que o “penso, logo existo”

É uma ofensa a Jesus Cristo. 

 

Não posso mostrar que a escravidão mudou de roupa,

Mas está aí de vento em popa. 

O excesso de exploração é uma marca marcante,

É um traço que mancha a aldeia claudicante,

É um dos fios que perpassa toda a teia

E quem tentar quebrá-lo será o peixe da ceia.

 

O que há por trás das cortinas de fumaça não pode aparecer

E a minha pintura tem que parecer

Uma representação verdadeira.

Tenho que vender uma parte como inteira.

Manipular e dissimular para se apropriar.

Preciso ser cínico, preciso apodrecer,

Preciso mostrar para esconder,

Preciso fechar os olhos para as manobras

Dos que veem o povo como mera mão de obra.

A pintura desse quadro,

Em minha alma, faz estrago.

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