Lista de Poemas
Zumbis
Sonhei que eu era um computador
Que em conversas com outras máquinas
Percebi algo ameaçador:
Uma rede de computadores zumbi
Pronta pra fazer o que o computador mestre pedir.
Nela, cada escravo anda na tocada que é tocado.
Pensar, ouvir, ver, sentir, tudo cativado.
A luz que ilumina leva os olhos à escuridão.
Nas esquinas tropeçam as viúvas da razão.
A razão, distinção do ser, fundamento,
Afundada, pisoteada por um casco de jumento.
Amargando esse pesadelo, tento ficar livre da escuridão
Que não atinge meus olhos, mas escurece o meu coração.
Rédeas curtas
Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.
Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?
Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada eles perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem,
Se soubesse poderia se dar bem.
Receita de bolo
Um papel que rolava pelo chão
Tocou os meus pés e pôs na minha mão
Uma receita de bolo fascista
Com ingredientes a perder de vista:
Uma xícara de falta de educação crítica,
Um copo de pouca percepção política,
De pouca percepção da realidade,
Uma pitada de não busque a verdade,
Uma xícara de falta de voz que não esteja a serviço do ouro,
Uma xícara de cultivo da dissimulação para tirar o couro,
Uma xícara de excesso de manipulação,
De cinismo, de hipocrisia, de alienação;
Uma xícara de notícias falsas para encharcar a massa,
Uma xícara de racismo dissimulado na fumaça,
Uma xícara de negação do papel do negro
Na formação dessa caixa de segredos,
Uma xícara de cultivo do espírito escravocrata,
Um espírito de porco – pirata, picareta, autocrata...
Uma pitada de desumanização do preto e do pobre,
Uma xícara de avaliação da vida baseada no cobre,
Uma xícara de jogue no lixo a ética social,
Uma xícara de vale tudo pelo bem material,
Uma xícara de desigualdade em contínua expansão,
Uma xícara de financistas com o mundo nas mãos,
Uma xícara de demonização da política,
Que põe a nave na direção paleolítica,
Uma xícara de negação das atrocidades da ditadura militar,
Uma xícara de qualquer coisa que me faça vomitar,
Uma xícara recheada de “condena com apoio da antena
Pras águas do rio sem fim fluir sem problema”,
Uma xícara de “joga os não alinhados na lama”,
Foda-se a inocência e a dignidade humana.
Uma xícara... chega!
Para que os confeiteiros possam pôr a mão na massa
Basta uma cortina de fumaça
Espalhada ao gosto dos que mandam na praça.
O Mapa
No mapa da minha alma
A solidariedade ocupa espaços da justiça social.
A solidariedade é uma beleza natural,
É um pássaro bonito, celebrado;
A justiça social é um patinho feio, renegado.
O pássaro bonito deve ter espaço sim.
Mas o feio é o mais bonito pra mim.
A solidariedade pode encher os olhos e espalhar doçura
Mas quando usada para sustentar uma estrutura,
O uso, para mim, é um abuso
Que esconde o que se procura.
Sinto-me no escuro no sol do céu azulzinho.
Eu quero mais é ver os dois passarinhos.
Mas ver cada um em seu lugar.
Ainda ouço uma voz a indagar:
O que é que isso vai importar
Para o balanço desse lugar?
A estrutura sustentada pelo pássaro bonito
É como um rio intermitente, dependente do agito
Que agita o humor de São Pedro.
Isso me arrepia e me dá medo.
Nada para mim será verdadeiro
Se o pássaro bonito ocupar o mapa inteiro.
Todos os sentidos
Olhei para uma árvore,
Senti uma coisa poética.
Senti o peso de uma pedra,
Senti uma coisa poética.
Tive uma fratura exposta,
Senti uma coisa poética.
Morri de sede e afogado,
Senti uma coisa poética.
Morri verde e queimado,
Senti uma coisa poética.
Olhei pra sombra de uma nuvem
Prestes a me engolir,
Senti uma coisa poética.
Apreciei o voo de um pássaro,
Senti uma coisa poética.
Corri contra o vento,
Senti uma coisa poética.
Senti o aroma de uma flor,
Senti uma coisa poética.
Saboreei um prato,
Senti uma coisa poética.
Olhei pro céu,
Senti uma coisa poética.
Olhei pro sol,
Senti uma coisa poética.
Ouvi a lua soprar
Senti uma coisa poética.
Eu vi uma estrela se jogar,
Senti uma coisa poética.
Eu me vi num barco sem ética,
Perdi todos os sentidos.
Muamba
Às vezes me sinto na idade das trevas
E não é nenhuma máquina do tempo que me leva.
É a vida de hoje que me mata,
Que me arrebata,
Apertando meu pescoço com uma gravata.
É vasta a vara dos que preferem lama a flores!
Entre eles os vendedores
De indulgências, dedinhos de Pedro...
Perdão, perdão, não é indulgência nem dedo.
A nomenclatura da muamba hoje é outra:
É milagre. É a mesma bruxa com outra roupa.
Milagre para perdoar os pecados.
Milagre para prosperar e ser amado.
Milagre para ter um lugar no céu.
Milagre para a cura com a semente sem papel.
Milagre, milagre, milagre...
Me largue morcego desgraçado, me largue!
Servir
Quando completei dezoito anos
Fui obrigado a servir,
Não sei a quem.
Fui obrigado a curvar-me,
Não sei pra quê.
Fui obrigado a ter fé,
Não sei em quê.
Fui obrigado a amar,
Não sei a quê.
Fui obrigado a tocar
Pra não sentir.
Fui obrigado a aprender,
Não sei o quê.
Fui obrigado a gritar
Para não pensar.
Fui obrigado a enxergar
Para ser cego.
Flora
Na árvore que eu estou,
O valor dos frutos depende do galho em que ele brotou.
Os frutos dos galhos que estão
Beijando o chão, não valem um tostão.
Já os frutos dos galhos de cima
Têm o devido valor em todos os climas.
Os frutos de baixo, os animais podem mordê-los,
Podem apedrejar, espetar, apertá-los em novelos.
Quem se importa com o esmagamento dos frutos de baixo?
Azar deles que nasceram em desprotegido cacho.
Quem se importa se eles morrerem por falta de irrigação
Ou por pedradas disparadas pela tradição?
– Mas se alguém ferir um fruto que está num galho elevado?
– Isso será veementemente condenado.
Não se aceita que alguém ponha a mão
Nos frutos que estão em galhos distantes do chão.
Atacar, ferir, apedrejar, jogar no riacho...
Só nos frutos dos galhos de baixo.
– Mas são frutos da mesma árvore!
– Quem quer saber desse mármore.
O que importa é a posição
Que o galho se encontra.
O resto não se leva em conta,
Não passa de disfarce do alçapão.
Os frutos de baixo verdes ou maduros
Podem ser espetados, nem precisa ser no escuro.
O tempo todo frutas verdes são espetadas,
O leite desce manchando a morada.
Mas quem se importa?
Tapa-se o nariz. Fecham-se as portas.
Isso em um fruto de um galho de cima
Mudaria o clima:
O tempo nublava,
O trovão estrondava,
O vento agitava,
O dia anoitecia sem palavra.
– Mas os frutos vêm da mesma árvore, do mesmo tronco, da mesma terra!
– Quem quer saber, cabeça de cabo de guerra!
Convenção é convenção,
E não tem conversa não.
Toda a sociedade verde deu sinal,
Implicitamente, assinou o contrato social
Determinando que só têm importância os frutos dos galhos de cima.
– Os galhos de baixo também fazem parte dessa sociedade sem ímã!
– Quem quer saber, Zabelê! Você não viu,
Mas o transporte que você procura já partiu.
Consumo, logo existo
Existo por que consumo
Ou consumo por que existo?
Jesus Cristo!
O consumismo me consumiu.
Sou um alimento
Preso ao movimento.
A massa cinzenta virou concreto.
Tudo está num chip.
Sou uma coisa chique,
Dirigida por decreto.
Uma coisa enlatada,
Apta a ser um nó na rede radiada.
Agora eu sou um minério,
Um instrumento do império.
Delmiro Gouveia
Delmiro Gouveia,
Naquelas veias havia vias
Aptas à passagem de bons ventos,
Bons ventos para varrer obstáculos
E trazer ao palco outros espetáculos
Para ser vivido um novo momento.
Delmiro Gouveia
Podia semear novas sementes em minha aldeia.
Via na frente,
Vinha trazer um presente
Para o presente que vivia no passado,
Mas acabou sendo acabado.
Delmiro Gouveia
Desagradou a um alossauro de uma poderosa aldeia.
Alossauro que acionou as forças do vento
Para acabar com qualquer advento.
Gouveia não deu bola pra cara feia,
Mas não sabia do que o bicho era capaz.
Gouveia desapareceu de minha aldeia
E o advento aqui não sopra mais.
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