Lista de Poemas

A minha xícara de café

Matutando sobre o que é Deus,

Não consegui ir além do eu que é só o meu:

Deus é um ser primitivo de forças infinitas e inexplicáveis.

Não sei como viajar nessa viagem.

 

Matutando sobre o que é poesia

Também me perdi em plena luz do dia,

Parece que é tão inexplicável quanto Deus.

Não! Não é. É exagero meu.

A minha vó está me tachando de ateu,

Herege, arruaceiro, subversivo...

Mas eu quero apenas o que eu vivo

E estar feliz

Por não pôr a venda o meu nariz.

 

Viver para sentir, para imaginar

O belo e o elo entre o duelo

E a harmonia que pode originar

O fazer e o prazer do caramelo

E a percepção do peso do castelo

Sobre o chiado do chinelo.

 

O que é poesia?

O amor, a dor, a tristeza, a alegria?

A escuridão da noite, a luz do dia?

A desconstrução da construção?

O espanto que explode com o trovão?

A senha que assanha a emoção?

O vagalume que pisca por segurança e diversão?

A lata que contém o incontível?

Os olhos que veem o invisível?

É um passeio pelo ar, pelo mar e pelo chão

Que limpa a visão e alegra o coração?

Sei lá o que ela é.

Pode ser a minha xícara de café.

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Jurômetro

Juro que eu não sei pra onde vai o meu suor.

Juro que eu preciso desatar esse nó.

Juro que eu queria uma medida, que diga

Onde passeiam as causas de minha fadiga.

Juro que me vejo menor que uma formiga.

Juro que a neblina é inimiga,

Que não me deixa enxergar o mar que me abriga

E me obriga a suar, suar, suar sem parar

Para encher os rios que só correm para o mar,

Socorrem quem não precisa de socorro

E é pra essa brincadeira que eu corro.

Morro de correr

Para ser sugado pela mão que ninguém vê.

Juro, juro que eu quero um medidor

Que meça a minha dor

Nessa conversa do ameaçador,

Quadro pintado por quem jamais pintou.

Juro que uma medida que meça os juros

Mostrará o que é feito no escuro,

Onde os juros movem-se ao som dos cardeais.

Desconjuro! Juros que não acabam mais.

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O espírito

O espírito dos navios negreiros, da colonização

Dos juros, da inflação,

Das bolsas que me deixam sem chão

E de tantas outras pedras que dificultam a caminhada

É como semente enterrada:

Some pra dar lugar a uma nova,

Na qual a essência se renova.

 

A nova é a velha marca d'água.

O novo é de novo a barca furada.

Tudo muda e nada muda

No som que toca a grave e a aguda.

 

As notas estão nas mãos de Judas,

Que toca uma viola absurda,

Que viola as leis naturais

E torna imortais as linhagens dos feudais.

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Medo de Medir

Eu conheço uns papagaios da minha aldeia

Que falam de boca cheia

Que têm medo que ela

Vire uma Venezuela,

Pedem que Deus acuda

Pra isso aqui não ser uma Cuba.

Mas toda essa ladainha

É pra esconder a casa-grande na casinha,

É para tapar o sol com uma peneira

E passar nota falsa por verdadeira.

 

Esses papagaios que aqui tecem a trança

Têm medo é que a aldeia vire uma França,

Uma Alemanha, uma Inglaterra...

Aqui é terra que tem dono,

Que não é o povo, que vive no abandono

Como eterno colono para a farra que nos ferra.

 

Eles têm medo é dos mares e da claridão

Que não comportam o navio da escravidão.

Têm medo de perder a galinha dos ovos de ouro.

Ouro, maldito ouro

Que do povo suga o sangue e tira o couro.

Têm medo é de que os que aqui estão

Ousem querer ser cidadãos.

 

Medo de medir.

Medo de não poder mentir,

De ver a massa ir e vir,

De ver a massa ver e sentir.

 

Esses moços têm medo

É da divulgação do segredo

Que não é nenhum segredo:

Que a base sustenta o topo da pirâmide

E tem corpo e alma amarrados com arame.

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Laissez-faire

A minha aldeia sempre teve dono.

Mas hoje está de tirar o sono.

Deixe fazer, deixe fazer, deixe fazer…

Fizeram pedra virar urina.

Vendem veneno por vitamina.

O fim é metamorfoseado em um meio.

Fizeram uma mãe que não tem seio.

Estão dirigindo um carro sem freio

Passando por cima de quem não está no passeio.

 

Fazem para desfazer o que não possa valer

Para a mão que ninguém vê, 

Que libera suas feras para saciarem o insaciável.

Inacreditável: tudo está tangenciável,

Não param de alienar o inalienável

E qualquer luz é vista como inflamável.

 

Os cardeais com o diabo nas mãos seguram as rédeas,

O que há para contê-los é uma comédia:

Não segura, não controla, não regula.

Os cardeais pulam e manipulam toda a bula.

Os cardeais estão na direção da idade média.

Não é comédia, é uma tragédia.

 

Nessa festa os filhotes são piores que os pais.

Hoje é pior que ontem, devoram cada vez mais.

A chave da condução está nas mãos de cardeais

Que atropelam a quem não os servem e transportam os seus chacais.

Cada vez mais as almas mais tortas

Tomam conta das chaves das maiores portas.

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Viola

A viola dos cardeais

Viola as leis naturais,

Toca do jeito que quer,

Diz como deve ser o café

Mas se ele ficar amargo,

Jamais assume o encargo.

 

A viola dos cardeais

Faz tudo e nada faz,

Toca tudo e nada toca,

Dita o ritmo e faz da nota

A mão invisível de um deus 

Que só existe para os seus,

Mas se vende como única saída

Para qualquer sentido da avenida.

 

A viola dos cardeais

É só uma e é demais,

Fingindo tocar pra Deus 

Faz o show pro satanás.

É de cair o queixo!

Como é podre todo o eixo

Que sustenta a encenação

Que indica um caminho livre que leva a prisão. 

 

O espetáculo sustenta o palco

E esmaga o estrato

Que não está no contrato.

O contrato é elaborado pela nata.

Quem faz tudo só se mata.

Quem faz tudo, nada faz

Na farra dos cardeais.  

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Encomenda

Onde eu pinto o meu e digo que é o seu retrato

Dois mais dois não é igual a quatro.

As operações dessa matemática

Desdobram-se numa sacola elástica.

 

Tudo cabe na sacola que enrola.

Tudo cola na vida que vigora

No barzinho da dona Aurora.

Os valores vivem de esmola.

Deita e rola o menino dono da bola,

Joga falso e fato num balaio

E a distinção depende de um ensaio.

 

O fato está fora da barriga.

O falso está em tudo, está na briga.

O fato virou comida.

A ração expulsa a razão da avenida.

A vergonha está em seu fim de vida

No barzinho da dona Aurora.

O fato está à venda.

Na prateleira, o fato atende à encomenda.

A barriga está rasgada, as vísceras estão expostas.

O ar está cheirando mal no barzinho da dona Aurora.

 

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Vale do ouro

Vale o valor que vale na arapuca armada.

No vale tudo, que não vale nada,

Vale tudo a favor da peça encenada.

O vale tudo deixa a água enlameada.

Na arapuca armada tudo é quase nada se não valer o valor que vale.

As águas arrastam muita coisa para o vale.

O vale leva tudo para um fosso infecto.

O valor deixa desvalido o intelecto.

O valor vai invalidando todos os valores.

O valor define o toque, o trote e os sabores.

O valor dá as cartas e descarta qualquer valor

Que não seja o corrente que acorrenta e causa dor.

O valor afaga e afoga, não entrega e cobra

A quem não deve e serve a quem manobra.

O valor leva lava para queimar os valores.

Na terra arrasada o valor passeia em tratores.

No vale do ouro os valores são um jardim,

Sem flores, sem árvores e entregue aos cupins.

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Limites

“É preciso haver limites pra criança”.

– Sempre ouvi isso com a esperança

De que também haja limites para outras criaturas,

Porque sem eles alvorece a loucura

E o tempo para em uma noite escura

E deixa as almas à mercê da ditadura

Que dita uma construção sem fundação

E um caminho livre que leva à prisão.

 

A falta de limites limita a visão

E ao invés de lavar, leva almas para contramão.

Contra os sentidos ou andando para trás,

Os cavaleiros tiram de quem não tem para dar a quem tem mais.

 

Que vergonha que me dá

Em ver a cerca do Ademar

Caminhar daqui pra lá

Engolindo as terras do Gilmar.

 

Sem limites, as cercas não param de andar

E a virtude não para de se afundar.

As cercas engolem terras, almas, vidas,

Enchem de veneno as comidas,

Deixam corpos e almas adoecidos

E o barco que nos trouxe até aqui é esquecido.

As cercas transformam sujeito em objeto

E ditam os traços do projeto.

 

As cercas estão enfraquecendo a iluminação.

As cercas estão festejando a escuridão.

As cercas estão sem limite

E em um rumo de verdade arremessam dinamites.

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Alta nobreza

É inadmissível que haja boa escola

Pra filhos de preto e pobre.

Já pensou se esse povo sobe

E deixa de aceitar a degola.

Dar escola boa pra essa gente

É como dar asas para serpente.

Se criarem asas vão sair dos trilhos

Vão querer o lugar dos nossos filhos

Nas faculdades de medicina, direito, engenharia,

Só em pensar já morro de agonia.

 

O lugar deles é: construindo nossas casas,

Lavando o nosso chão e sendo escadas,

Tapetes pra gente pisar

E impedi-los de sair do lugar.

 

É óbvio que é inadmissível que o Estado

Ofereça ensino qualificado

Para os filhos dos nossos empregados.

Temos que garantir eternamente esse legado!

O lugar deles é nos servindo

E não nos incomodando, competindo.

Qualquer governo que se assanhe nessa direção

Deve ser derrubado, esmagado, jogado no chão.

Somos descendentes de senhores escravizadores.

Nossos ascendentes não aceitariam tais horrores.

Honremos suas memórias!

Nada de eles terem glórias!

Nada de preto e pobre serem vistos como gente!

O nosso passeio tem que seguir em frente.

 

Temos que mantê-los na rédea olhando para o chão,

Sem dar a menor chance de apurar a visão.

Eles não podem acreditar que podem,

E sim que se saírem dos trilhos eles explodem. 

Eles não podem captar os horizontes.

É assim que o hoje e o amanhã é e será ontem.

Pois não basta que eu tenha tudo o que eu quero,

Não quero que os de baixo venham para o bolero.

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