Lista de Poemas

Pássaro Certeza

Se há um pássaro que não me passa beleza

É o pássaro certeza.

Na música desse zabelê

Não há espaço para o porquê.

Ele parece um pássaro de verdade,

Mas não passa de um bicho falso, sem identidade.

 

O pássaro certeza é tão belo

Quanto os especulações do mercado paralelo.

O pássaro certeza é tão de confiança

Quanto os fios podres de uma trança.

 

O pássaro certeza canta forte, canta alto:

Para que o som possa desenhar o seu retrato,

Para que o vento varra um navio de verdade,

Para que o fogo queime quem não segue sua vontade.

 

O pássaro certeza canta forte, canta alto:

Para defender o passeio de um estrato,

Para transformar os ouvintes em papagaios,

Para que fato, falso e feio se misturem no balaio.

 

O pássaro certeza canta forte, canta alto:

Para vender caro seu produto barato,

Para esconder o seu espírito caricato,

Para servir aos eternos carrapatos,

Para tirar as calças do pacato,

Para deixar o pacato sem teto, sem tato,

Para deixar o negro sem sapato

E para deixar Deus estupefato.

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Onde pôr os pés?

Vejo o meu ganho no prejuízo.

Não me vejo nessa vida sem juízo,

Vejo meu papel esmagado por uma resma.

Vitórias e derrotas não são as mesmas.

 

Estão envenenando a minha horta.

Querem esfaquear a minha aorta.

E não há nada que eu ofereça

Na minha rima sem pé, nem cabeça.

 

A minha letra

É branca e preta,

Sem cor, sem vida,

Sem rosa, sem margarida.

Falo apenas para mim.

Se ao menos eu soubesse latir em latim...

A minha casa de madeira deu cupim

E eu não sei onde pôr os pés no meu jardim.
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A Causa Não Vem ao Caso

A palavra causa foi riscada

Do dicionário da minha jangada.

Na minha embarcação,

Essa palavra não embarca não.

Se eu tiver de conviver com ela, 

Vão querer saber o porquê das mazelas.

 

Tira-me o sono e me consome

A ideia de falar das causas da fome.

Para não correr esse risco,

Risco o causa, ponho um asterisco

Para poder indicar

Por onde podemos navegar.

 

Mergulhar na causa é como usar uma lupa,

Isso pode rasgar o papel da biruta.

Tudo deve seguir a direção do vento.

Quem não seguir a biruta há de ter contratempo,

Há de nadar contra a maré

E nunca chegar aonde quer.

No meu barco tudo deve andar

Por onde sempre andou.

Nada de navegar

Por onde a biruta não apontou.

 

As causas precisam estar fora de pauta.

Se ninguém vê-las, ninguém sente falta.

Vou navegar sem pausa

Pra ninguém navegar pelas causas:

Das vidas apagadas, do passeio das finanças, 

Da fome, das doenças, da falta de balança, 

Do mar carcerário, do racismo dissimulado

E de todas as mazelas desse mar mal apurado.

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O Papel Que Cabia

Ouço muito sobre fome,

Mas não ouço tocar o nome

Das causas que impulsionam essa caravela.

Não sei se vejo um barco a vela ou uma novela.

 

A linguiça não é sadia,

Rasga a noite e engole o dia.

Passa e não passa a coisa fria

Que queima o papel que cabia.

 

O pronto socorro precisa existir,

Mas a vacina contra os males deveria surgir.

Pouco vale quebrar galho

Sem nada fazer lá na raiz. 

A linguiça balança o chocalho

E o clone come, some e soma feliz. 

 

Só remediar não coliga.

Como é que pode atacar a formiga

Sem atacar o formigueiro?

Assim a raposa toma conta do poleiro.

As causas da fome comem

Tudo que falta ao homem.

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O Que Impera no Convento

O que não anda

No destino definido pela máquina que comanda?

No jogo de cartas marcadas,

A voz do povo é programada para não dizer nada.

 

A maquinação é o meio para o passeio do tubarão.

É sem paralelo esse verde-amarelo ser uma casa sem botão.

Pensam nesse habitat como um lugar a ser explorado,

Não como uma nação em um bom estado.

 

Comendo o pão que o diabo amassou,

O povo fica com o que sobrou.

Mocinhos de dentro se juntam aos de fora,

Fazem a festa e vão embora,

E o seu José sobrevive esperando a hora.

A dignidade humana está em chamas,

Os caminhos estão sem luz e cheios de lama.

 

Alguns comemoram a era da informação,

Dizem que estamos tendo uma emancipação.

Mas as minhas retinas não captam isso não.

Eu vejo é muita isca nesta embarcação.

 

Aqui coerência é uma roupa rasgada levada pelo vento.

Conveniência é a moeda que impera no convento.

A luz que ilumina não é a luz do dia.

Iluminação que deixa o barco da emancipação sem poesia.

 

Aqui o ser come nas mãos do ter.

Por quê?

Quem quer saber?

Saber por aqui,

Só sobre o que a máquina definir:

Efeitos do dólar, juros da dívida, risco Brasil... 

Puta que pariu!

Estamos sendo consumidos

Como tudo que é vendido.

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A visita

Sonhei que um ET veio visitar a minha aldeia

Pra tentar compreender os laços da cadeia.

Mas não conseguiu compreender o que tocava.

Decepcionado, desse modo ele falava:

Eu sou um ET,

Eu sou um ET,

Eu sou um ET,

Aqui nessa aldeia eu não sei o que fazer,

Não quero saber dessa aldeia que só vê

O que se mostra nas janelas do poder.

 

Eu queria seguir nesse trem,

Mas não consigo me ver bem,

Em uma aldeia onde quem tem

Tira de quem não tem.

Em meio a tanto grito não contenho a aflição.

Não consigo respirar nesse mar de manipulação,

Que é uma árvore cujo fruto causa dor.

Por que ela é tão usada? Quem é o causador?

Sou uma criança na calçada da estrada que sobrou.

Quanta dor! Quantos espinhos em cada flor!

 

Nessa aldeia o futuro

É uma viagem no escuro.

O presente é indecente.

E o passado é embrulhado.

O modo não indica nada.

O tempo é perdido, sem estrada.

O porquê foi esquecido.

O pensar foi ardilosamente destruído.

Quem é que tem tempo de ver,

Ouvir e sentir com os próprios sentidos?

 

Aqui a paz está perdendo pra guerra.

O ar está mais pesado que a terra.

No que eu posso acreditar nessa aldeia mentiras?

“Me tiras” pra nadar num mar verdadeiro

Onde o valor não se resuma ao dinheiro.

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Fantasma

Passeando em minha aldeia

A minha alma se aperreia,

Ao ver quem mais semeia

Queimar na fogueira santa

Sem direito ao que planta,

Ficar com o que sobrou, 

De um fantasma opressor,

Que esvazia a moradia.

Mas as abelhas me disseram que um dia

A gente entende que o fantasma apronta

E quem não deve é quem paga a conta.

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Sentidos

Agente sente que o fogo é quente

Quando ele está perto da gente.

 

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