Medo de Medir

Eu conheço uns papagaios da minha aldeia

Que falam de boca cheia

Que têm medo que ela

Vire uma Venezuela,

Pedem que Deus acuda

Pra isso aqui não ser uma Cuba.

Mas toda essa ladainha

É pra esconder a casa-grande na casinha,

É para tapar o sol com uma peneira

E passar nota falsa por verdadeira.

 

Esses papagaios que aqui tecem a trança

Têm medo é que a aldeia vire uma França,

Uma Alemanha, uma Inglaterra...

Aqui é terra que tem dono,

Que não é o povo, que vive no abandono

Como eterno colono para a farra que nos ferra.

 

Eles têm medo é dos mares e da claridão

Que não comportam o navio da escravidão.

Têm medo de perder a galinha dos ovos de ouro.

Ouro, maldito ouro

Que do povo suga o sangue e tira o couro.

Têm medo é de que os que aqui estão

Ousem querer ser cidadãos.

 

Medo de medir.

Medo de não poder mentir,

De ver a massa ir e vir,

De ver a massa ver e sentir.

 

Esses moços têm medo

É da divulgação do segredo

Que não é nenhum segredo:

Que a base sustenta o topo da pirâmide

E tem corpo e alma amarrados com arame.

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