Lista de Poemas
Papéis
Que somos animais políticos,
Eu não conheço quem duvide,
Por mais que nos convidem para outra praça.
Disse-me seu Aristides,
Mirando uma cortina de fumaça.
Eu não sei como está a vista de seu Aristides,
Sei que eu não estou enxergando bem o que se passa.
Mas sei que o ar, a água, o alimento, o sol, o sono... não bastam.
E só no mundo da lua
O trem pode ir bem
Com a bandeira do “cada um fique na sua”.
“Somos animais políticos”.
Bom, seu Aristides!
Somos pedestres, condutores, passageiros,
Consumidores, contribuintes, partes e inteiros.
Somos racionais, religiosos, agnósticos, ateus
E todos somos filhos de Deus.
– Mas não devíamos deixar a religião tirar a decisão para dançar!
É melhor que fique cada uma em seu lugar.
Se separarmos os papéis
Podemos saber onde por os pés.
Mas se embaralharmos os papéis, os dois homens,
Que são o mesmo homem,
Somem para dar lugar a um homem:
Corrompido, com os dois atributos corroídos.
Se eu não separar a política da religião,
Irei louvar e lavar as mãos para a razão.
– Não sei se devo dar ouvido ao seu Aristides.
Ouço uma voz:
– Essa discussão não está mais entre nós,
Ela descansa em paz há séculos.
– Será que eu enlouqueci?
Será que uma máquina do tempo me levou?
Estou na idade média?
Estou no mundo da lua?
No trenzinho da sacanagem?
Estou no rebanho do pastor ou do bispo?
Eu me belisco. Não é um pesadelo.
Eu estou nesse novelo.
Não sei em qual mundo eu estou.
Meus olhos estão num papel que o vento estragou.
Demônio dos santos
A verdade é uma moça sem roupa.
Não pode sair à rua.
Mataria de vergonha a família bem vestida,
Que passeia em charretes de rodas de açúcar.
A moça sem roupa causaria alvoroço,
Agitaria os ventos que iriam:
Virar e revirar tapetes, capas, cartolas,
Derramar lágrimas, taças de vinho, vômitos,
Desfazer cortinas de fumaça,
Mostrar o que se passa,
Jogar luz na adega,
Mostrar as mãos dos que dão as cartas.
A moça sem roupa
É o demônio dos santos,
Deixaria a família bem vestida com a cara no chão,
Sem saber onde pôr os pés.
Ela os deixaria sem poder abrir a boca.
A moça sem roupa pode fazer chover
E as rodas da charrete são de açúcar.
As asas da serpente
Em um incêndio, numa floresta,
Uma serpente
Disse pra uma formiga,
Em um formigueiro assanhado:
Nessa atmosfera,
Dois mais dois não é igual a quatro.
Então, eu posso pintar o meu
E dizer que é o seu retrato.
Ananias
Os descendentes do doutor Jerônimo
Estão andando para trás,
Disse-me seu Ananias.
O doutor Jerônimo era mais humano,
Tinha mais coração, mais cabeça;
Não tinha essa fome que come
A humanidade do homem.
Não sei se o seu Ananias sabia bem o que dizia.
Mas eu sei que os filhos do doutor Jerônimo não são flor que se cheire.
E os netos são piores que os filhos.
E os bisnetos são piores que os netos.
A cada geração é mais forte o odor.
Onde vai parar esse trator?
Olhando para a árvore do doutor Jerônimo,
O seu Ananias dizia:
As coisas avançam, mas as pessoas estão ficando para trás.
Às vezes, eu acho que o seu Ananias falava demais.
Mas não há como negar
Que a fome de ter o outro na mão
Coloca uma pedra no lugar do coração
E faz os olhos brilharem cegos de paixão
Pelos ventos da estação.
Nessa atmosfera, cada vez mais,
Tudo está em poucas mãos.
Tudo está nas mãos de poucos
E a maioria sobrevive no sufoco.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Pelos pés que não pisam o chão,
Pela cabeça que não se equilibra no pescoço,
Pelo velho disfarçado de moço.
A fome de ter o outro na mão
Deixa cego de paixão
Por tudo e por nada,
Pelo trânsito fora da estrada,
Pelo trem que atravessa a rodovia,
Pela via que engole a correria
E por que mais seu Ananias?
A vista de um ponto
Uma pedra
Pode ser mil pedras
Em mil pares de olhos.
Uma pedra
Captada pelas minhas retinas
É apenas a minha pedra.
Tudo que eu quero
É que a minha pedra
Pareça, o máximo possível,
Com a pedra.
Verbo
Um dia a ideia de fim
Era para mim um charuto amargo
Que eu não conseguia tragá-lo.
Pensar no fim, logo no começo,
É uma viagem sem endereço,
Não é coisa que se faça.
Por sorte os ventos me levaram a uma praça
E me deram o presente.
Hoje, a ideia de fim
Não altera o meu boletim.
Às vezes, acho que tudo não passa de pó,
Outras vezes penso em algo melhor.
Quando falo sobre o que vem ou não depois do “fim”,
A minha esposa aponta para o jardim,
Para as plantas que vão e voltam.
Eu não acredito nem duvido
Desse, nem de outros sentidos.
Só não creio
Que esse relâmpago passeio,
Que não dura nem um século,
Possa prender alguém pra sempre em algum lugar.
Eterna mente.
Outras digitais
Renato trabalhava na cidade
E morava na roça onde comprava fiado na mercearia de Lúcio.
Em uma dessas crises econômicas,
Os que dão as cartas apertaram o cinto.
Foram arrochos e mais arrochos.
A chave de fenda do poder apertou como se quisesse tirar leite de pedra
Para garantir o queijo dos que têm a bolsa nas mãos:
Especuladores, grandes acionistas e outros “artistas”.
Como sempre acontece,
Quando a mão invisível cresce
O desemprego estremece.
A maré braba atingiu muita gente.
Renato foi um dos derrubados por essa onda.
Ele honrava os compromissos religiosamente
E se orgulhava de ser um sujeito decente.
Mas a maré braba demorou passar
E ele começou a se afundar.
Até que chegou o dia que ele foi à mercearia
E a escuridão o arrebatou em plena luz do dia.
Lúcio já estava sufocado com tantos fiados.
Lúcio perdeu a linha,
Arrodeado de clientes, bradou:
Não vendo mais fiado a você, já me deve demais.
O comum naquele meio era fazer esse comunicado em particular.
Renato baixou a cabeça, procurou terra no chão e não encontrou.
O homem mudou de cor,
Dos olhos saíam faíscas.
Cego como estava,
Privado dos sentidos,
Renato foi em casa, pegou o revólver,
Voltou à mercearia e deixou órfão os três filhinhos de Lúcio.
Foi o dedo do Renato que puxou o gatilho,
Mas outros dedos estavam ali.
Futuros roubados
Os meninos que vendem frutas,
Às margens da rodovia,
Não podem ir à escola,
Porque têm que ajudar os pais
A pagar os juros do cartão.
Os meninos acordam antes de o sol sair.
Às vezes ainda são iluminados pelo brilho da lua.
Quase sempre são banhados pelo sereno matinal.
O orvalho nos capins não enche os olhos,
Encharca os pés.
O show dos pássaros passa despercebido,
Não é música para aqueles ouvidos.
As árvores bailando com o sopro do vento,
A aurora matinal e toda a festa
Não fascina aquelas almas.
Quem sente dor, não se derrete com uma flor.
A falta de botas e casacos afeta os sentidos.
No sentido do sítio, vão eles
Levados pelos juros do cartão,
Pelas mãos de santo Onofre
E pelas vidas trancafiadas em um cofre.
Nesse quadro mal desenhado,
Os meninos que oferecem frutas doces
Amargam um presente
Que sinaliza um futuro pesado
Nas balanças dos que recebem os juros dos cartões.
A liberdade da estátua
Indo e vindo do batente,
Levado por um trem movido à gente,
Sou diariamente
Arrastado pela frente
Da estátua da liberdade.
Encaro a estátua,
Olho para aquele braço erguido
E sinto os sentidos adormecidos.
Naquele braço erguido
Não vejo um aceno, um cumprimento;
Vejo uma demarcação, uma invasão,
Um descobrimento.
Eu me vejo naquela mão
Que é uma sonda em meu torrão.
Miro a estátua,
Sinto a pressão alta.
A coroa na cabeça da estátua me remete ao passado.
Sinto o meu suor sugado.
Os olhos da estátua parecem piscar para mim,
A imagem é de coisa ruim.
Parecem piscar para mim,
Mas não dizem oi; dizem: livre você nunca foi.
Você trabalha para um fim
E não passa de um meio.
Saio de mim,
Não me vejo no espelho.
Vou e volto do batente espremido
E com um gosto amargo nos sentidos.
Atravessa
Um menino atravessava a rodovia,
Vindo da roça pra casa
Com duas sacas de batata no lombo do cavalo.
Um carro parou e o motorista o chamou:
– Menino, quer vender essas batatas?
– Vendo.
Ele disse o preço, o comprador aceitou
E mandou colocar na carroceria do carro.
O menino pediu o pagamento.
– Bote aí e vem pegar o dinheiro.
– Me dê logo o dinheiro.
O sujeito insistiu, mas quando viu que não daria certo,
Mudou de plano:
– Vou pegar o seu dinheiro.
Pôs a mão em algum lugar,
Puxou um revólver...
O menino voou pela ribanceira,
Deixou para trás o cavalo, o calçado,
A batata, a balança e o sono de criança.
O comprador levou a batata e amassou a lata da balança.
Como um indivíduo é capaz de fazer isso com uma criança?
Eu não sei!
Ou talvez eu saiba,
Porque no fundo, no fundo,
Isso não é coisa de outro mundo.
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