Escritas

Lista de Poemas

Tormentos

Essa tristeza que me envolve, taciturna,
que me embriaga com um vinho tão amargo.
E essa água que me afoga e que eu trago,
que me atormenta, me fechando numa urna.
Então, enluto, no meu canto, sou noturna.
Lua minguada, já sem brilho, sem mais nada.
Eu sou a chuva, de uma estrada apavorada,
cujo lamento me arrasta e me enfurna.

Esvaziada, solitária em minha tumba,
vou me enterrando, cegamente, nessa lama.
Eu sou as cinzas que ninguém nunca reclama.
Dança maldita, descompasso nessa rumba.
Sou o inverno do inferno que me bumba,
que me tortura numa rouca solidão.
Louca agonia chega a mim pra dar vazão
a esse pranto que no chão me prende e chumba.

Luzia M. Cardoso
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TEMPO

Às vezes os olhos nos cegam, 
O coração endurece 
Àquele de quem nunca se esquece... 
  
Às vezes falamos tanto 
Que não escutamos o pranto 
Daquele que roga uma prece... 
  
Às vezes atamos mil nós, 
Na malha, ficamos tão sós, 
Que até nossa alma padece... 
  
Mas o tempo do nosso presente 
É tempo que sempre dispara... 
Daquela amizade tão cara, 
Um dia, saudade... 
Um longo silêncio... 
E rogo ao tempo 
Os beijos e o abraço 
Nas asas da prece. 
  
Luzia M. Cardoso
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Saudade

In memoriam à amiga Cláudia Soutinho

Saudade... 
É um elo confuso 
Em tempo difuso 
Entre o antes e o agora 
  
Saudade...  
É o sentido que aflora 
Sem ter dia nem hora 
Sem quê nem porquê 
  
Saudade...  
É a presença distante 
Que nos leva ao instante 
Que queremos reter 
  
Saudade...  
É um ser alado 
Presente do passado 
           Pela a vida afora            
                                      
Luzia M. Cardoso
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Noite


A noite veio muda... E infiltrou-se pelos cantos...
Foi fechando toda trilha que aos sonhos conduzia.
Espalhou uma densa bruma... Escondeu todo encanto...
E secando a esperança, era pranto que colhia.
 
E a noite chegou plena... Tão ciente de seu breu...
Sem dar margens para a lua lá no céu aparecer,
Fez seus raios encolherem quando a aura escureceu,
E matou a poesia que brigava pra viver.

E a noite foi tirana... Não deu brechas pras estrelas.
Comandando um vento frio, apagou a luz das velas.
Dominando a escuridão, exilou pontos de luz.

E a noite veio em ondas... E até hoje nos conduz...
Quando cai, nos prende e arrasta... Leva-nos às profundezas...
Abre em chagas nosso peito, onde brotam as tristezas.



Luzia M. Cardoso
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Invernou-me o coração

Extensa é a rota... Eu rumo só...

Vestes poucas, rotas, vou absorta...

Nesse tempo tonto, tantos nós...

Mesmo qu'invente almas, estão mortas.

Eu sigo, vazia... Todos os dias...

Esgotou-se o aroma primaveril...

As flores murcharam, sem rebeldias,

e o amor d'outrora já está senil.

Os gelos descem dos cumes dos montes,

e o sol, tão distante, não chega em mim.

É ácido o que entra em minhas fontes.

Frágil, a esperança se entrega, enfim.

 

São tão longos os dias desse inverno,

e o frio que sinto parece eterno.

Luzia M. Cardoso

 

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Sujeito Composto

Aponto a ignorância sem sossego,
gritando quando há dígrafo em tropeço.
Os diferentes, eu sempre renego.
Com vocativos, trato os que conheço.

Eu faço dessa regra a minha verdade,
sem ver predicado no complemento.
Nas entrelinhas, fixo minha vaidade,
com hífen entre o sujeito e o que acrescento.

Com letras, eu aumento a minha altura,
valorizando só superlativos,
e a humildade, deixo no provérbio.

Confundo purpurinas com cultura.
Com troças, influencio adjetivos.
Termino num lugar que é advérbio.

Luzia M. Cardoso
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Passageira


Lá vem ele... Vai passando,
vai levando tanta gente... 
Os caminhos desbravando, 
do passado ao presente. 

Pelos trilhos, linha reta, 
tem as curvas, tem declives... 
O futuro é a meta 
de quem entra, passa... Vive. 

Tantos túneis e cancelas, 
pontes, rios, precipícios...
E os lenços nas janelas. 

Nos vagões, os sacrifícios, 
à sombra das fracas velas 
de invernos com solstícios. 




Luzia M. Cardoso

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Fim de Estação

Folhas secam e caem dos galhos,\ colorindo o caminho.
O outono, já grisalho,\ esgotado, sai sozinho. (Glosa)

Abre a vida a própria roda.\ Sem paradas, não tem freios.
Corre e escorre, à sua moda.\ Gira, e tudo se acomoda.
Estações vêm sem rodeios,\ abrem e fecham os atalhos,
com ou sem a luz da lua,\ lapidando os cascalhos.
Nas árvores, lá da rua,\ folhas secam e caem dos galhos.\\
Enfeitada, a calçada\ pinta e borda os meus sonhos.

Quebro a máscara, na estrada.\ Vou sem peso, vou sem nada,
só com o manto que disponho,\ e que dele desalinho.
Já não brigo com as sombras \ que retiram, como linho,
do meu corpo, frágeis fibras, \ colorindo o caminho.\\
Uma copa acinzentada \ falou alto, aos meus olhos,

que a noite, atordoada, \ escondeu a madrugada,
nesse corpo que eu encolho,\ ao calor que amealho;
que a brasa que eu queimava \ é o pó onde me espalho.
E, solene, me entregava \ o outono, já grisalho.\\
De repente, de uma estrela \ não mais vi o seu reflexo.

Apagou-se, logo aquela, \ cujo brilho, na janela
dava à vida outro nexo.\ Nem o lago, adivinho,
entendia que o destino \ sussurrava, num cantinho,
que o planeta, matutino,\ esgotado, sai sozinho.

Luzia M. Cardoso
Poema classificado e publicado na coletânea
11º CONCURSO DE POESIAS DA UNIVERSIDADE SÃO JOÃO DEL REI /MG/2011.
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Luzes do Asfalto

Vem do alto o sol nascente descortinando o asfalto.
Lá no céu, o tempo mostra muitas cores, luzes sombras...
E na rota, o andarilho já apalma todo o chão.
Os olhos presos ao chão não enxergam a nascente.
Segue trilhas, andarilho, na tristeza do asfalto...
E na face brotam sombras quando as chagas ficam à mostra.

Mas a dor também se mostra, na sangria desse chão.
Vira esquinas, entre sombras que envenenam a nascente...
E o chicote do asfalto a açoitar o andarilho.
Desce a noite no andarilho... Viva alma não se mostra.
Só, retira do asfalto cada pedra do seu chão.
Vê a morte na nascente quando a luz já chega em sombras.
Todo dia são as sombras que acordam o andarilho,
com a foice na nascente e a tristeza que se mostra...
Pés descalços sangram o chão quando ralam no asfalto...
Não há brechas no asfalto, ele é pleno de sombras.
Sobrevida vira chão quando vira andarilho.
Ninguém o vê, mas se mostra... Suando o pão ao sol nascente.
Cata a dor, pobre andarilho!
Vive em sombras sua nascente que enterramos no asfalto.
Luzia M. Cardoso
Obs: Este poema é uma sextina, com seis versos em cada estrofe.
Contudo, mudei a formatação do poema, fazendo de cada dois versos,
um, para caber integralmente no livro do site.

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Suspiro


É o botão de qualquer erva. É a flor que ninguém cheira. 
Murcha, cai e o rio leva.  Frio, a deixa em sua beira. 
Com o vento, voa longe. Solta, cai na ribanceira. 

É o pouso do pardal, sob o sol de todo dia, 
lá no galho da figueira que as trevas anuncia. 
Não há olhos que o notem como tema da poesia. 

É a criança na calçada, encolhida, sem carinho, 
cujas lágrimas caíram apontando como espinhos. 
Dela, passos se aproximam, assombrando seu caminho. 

É o respingo, gota d’água, só mais um na tempestade. 
Pinga quieto e só inquieta quando molha a autoridade. 
É perene, logo seca sem fazer qualquer alarde. 

É da rocha o cascalho que se solta no aloite. 
Rola a estrada, dura e crua, destroçado com o açoite.
Vira pó que some ao tempo, invisível dia e noite.


Luzia M. Cardoso


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