Lista de Poemas
TEMPO
Tormentos
que me embriaga com um vinho tão amargo.
E essa água que me afoga e que eu trago,
que me atormenta, me fechando numa urna.
Então, enluto, no meu canto, sou noturna.
Lua minguada, já sem brilho, sem mais nada.
Eu sou a chuva, de uma estrada apavorada,
cujo lamento me arrasta e me enfurna.
Esvaziada, solitária em minha tumba,
vou me enterrando, cegamente, nessa lama.
Eu sou as cinzas que ninguém nunca reclama.
Dança maldita, descompasso nessa rumba.
Sou o inverno do inferno que me bumba,
que me tortura numa rouca solidão.
Louca agonia chega a mim pra dar vazão
a esse pranto que no chão me prende e chumba.
Luzia M. Cardoso
Saudade
Noite
Foi fechando toda trilha que aos sonhos conduzia.
Espalhou uma densa bruma... Escondeu todo encanto...
E secando a esperança, era pranto que colhia.
E a noite chegou plena... Tão ciente de seu breu...
Sem dar margens para a lua lá no céu aparecer,
Fez seus raios encolherem quando a aura escureceu,
E matou a poesia que brigava pra viver.
E a noite foi tirana... Não deu brechas pras estrelas.
Comandando um vento frio, apagou a luz das velas.
Dominando a escuridão, exilou pontos de luz.
E a noite veio em ondas... E até hoje nos conduz...
Quando cai, nos prende e arrasta... Leva-nos às profundezas...
Abre em chagas nosso peito, onde brotam as tristezas.
Invernou-me o coração
Extensa é a rota... Eu rumo só...
Vestes poucas, rotas, vou absorta...
Nesse tempo tonto, tantos nós...
Mesmo qu'invente almas, estão mortas.
Eu sigo, vazia... Todos os dias...
Esgotou-se o aroma primaveril...
As flores murcharam, sem rebeldias,
e o amor d'outrora já está senil.
Os gelos descem dos cumes dos montes,
e o sol, tão distante, não chega em mim.
É ácido o que entra em minhas fontes.
Frágil, a esperança se entrega, enfim.
São tão longos os dias desse inverno,
e o frio que sinto parece eterno.
Luzia M. Cardoso
Fim de Estação
Corre e escorre, à sua moda.\ Gira, e tudo se acomoda.
Estações vêm sem rodeios,\ abrem e fecham os atalhos,
com ou sem a luz da lua,\ lapidando os cascalhos.
Nas árvores, lá da rua,\ folhas secam e caem dos galhos.\\
Enfeitada, a calçada\ pinta e borda os meus sonhos.
Quebro a máscara, na estrada.\ Vou sem peso, vou sem nada,
só com o manto que disponho,\ e que dele desalinho.
Já não brigo com as sombras \ que retiram, como linho,
do meu corpo, frágeis fibras, \ colorindo o caminho.\\
Uma copa acinzentada \ falou alto, aos meus olhos,
que a noite, atordoada, \ escondeu a madrugada,
nesse corpo que eu encolho,\ ao calor que amealho;
que a brasa que eu queimava \ é o pó onde me espalho.
E, solene, me entregava \ o outono, já grisalho.\\
De repente, de uma estrela \ não mais vi o seu reflexo.
Apagou-se, logo aquela, \ cujo brilho, na janela
dava à vida outro nexo.\ Nem o lago, adivinho,
entendia que o destino \ sussurrava, num cantinho,
que o planeta, matutino,\ esgotado, sai sozinho.
Luzia M. Cardoso
Poema classificado e publicado na coletânea
11º CONCURSO DE POESIAS DA UNIVERSIDADE SÃO JOÃO DEL REI /MG/2011.
Sujeito Composto
Suspiro
Luzes do Asfalto
Contudo, mudei a formatação do poema, fazendo de cada dois versos,
um, para caber integralmente no livro do site.
Passageira
Os caminhos desbravando,
do passado ao presente.
Pelos trilhos, linha reta,
tem as curvas, tem declives...
O futuro é a meta
de quem entra, passa... Vive.
Tantos túneis e cancelas,
pontes, rios, precipícios...
E os lenços nas janelas.
Nos vagões, os sacrifícios,
à sombra das fracas velas
de invernos com solstícios.
Luzia M. Cardoso
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Sou nascida e criada no Rio de Janeiro e a poesia entrou em minha vida, assim, meio como quem não quer nada e foi ocupando o espaço... Criando raízes...
Com formação na área de ciências sociais aplicadas, o sangue e o suor que lavam as vias de nossa República teimam em pular para os meus olhos, entrando pelas vísceras e descendo pelos meus versos...
Mas não sou poeta... Talvez nem mesmo aprendiz... Sinto apenas pulsar, insistentemente, a voz anônima e rouca da multidão... Não me contenho... E grito.
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