Escritas

Lista de Poemas

E agora, José? E agora, Maria?

Outro mês acabou,
a doença chegou,
o salário não viram.

O suor vai rolando,
todo sangue jorrando,
os sorrisos sumiram.

Dos que foram pras ruas,
sob sol, sob luas
e de bombas sofreram,

sufocando em fumaça,
com pimenta, nas praças,
vocês já esqueceram?

Deram voto ao inimigo?
Se arriscaram ao perigo?
Eu lhes perguntaria.

Já vem outra eleição,
mais dinheiro pro chão...
Vê, José! Vê, Maria!
Luzia M. Cardoso
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Terra Devoluta

"Todo pé que dá fruta
é o que mais leva pedrada."
(Ditado popular)

Campo fértil, vida dura!
Tanto joio neste chão,
que cresce na podridão,
com o húmus da desventura!
Que praga essa cultura
despejada lá do alto,
por quem fica no Planalto.
Neste campo devoluto,
árvore que aqui dá fruto
sempre é alvo de pedrada.

Luzia M. Cardoso

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E-mail a Manuel Bandeira

Prezado Poeta,

Foram-se decadas...
Hoje, àquele bicho que encontraste
na imundice dos pátios urbanos,
juntaram-se muitos, e muitos mais.
Todos da mesma espécie!
Disputam com ratos,
magras carnes de gatos.
Enroscados qual cachorros,
vivendo de restos.
Numa selva de detritos,
impregnados de lixo,
mosquitos, larvas e baratas...
Tantos bichos esquisitos.
No passado, viste um,
hoje, vemos multidão.
"Por Deus, não são bichos, são humanos!"
Homens, repastos de outros homens,
num triste banquete,
onde os outros, como dantes,
agem como urubus!

Luzia M. Cardoso
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O Capital

Sou papéis, barras de ouro,
sou moedas e ações.
Nos cofres, eu sou tesouro
controlando multidões.

Sou prédios, equipamentos,
máquinas e manuais.
Desprezando os lamentos,
eu não conto os funerais.

Da cabeça e do braço,
sou a força e o tempo
daqueles que acorrento.

Sou o fruto, a terra, o aço...
Giro, sou mercadoria
e respiro mais-valia.

Luzia M. Cardoso
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Marias

Marias de pé,
Raízes no chão,
Marias com fé,
Fermento do pão.

Marias que crescem
Andando ligeiro,
Marias que vivem
Sem ter paradeiro.

Ao dia, Marias
Semeiam a terra.
À noite... Ah, Marias...
A noite as encerra.

Luzia M. Cardoso
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Olhos para Olhar

Teus olhos abertos, marcados, \ envoltos em medo e rancor, 
trancados no vão do passado, \ espiam à fresta da dor... 
  
Teus olhos abertos, sangrados, \ receiam agora enxergar 
um certo olhar sorridente  \ que se arrisca ao teu ponto de olhar. 
  
Teus olhos abertos, nublados, \ não veem que a noite passou, 
não veem o sol no horizonte, \ nem que a fonte de teu pranto secou. 
  
Ah, talvez devesses fechar \ estes teus olhos cansados, 
rasgar o véu acinzentado, \ drenar  todo o amargo do olhar. 
  
Talvez, de olhos fechados, \ não só no ato de amar, 
não só à entrega do sono, \  não só ante a luz solar, 
tu possas os outros enxergar. 
  
Quem sabe, agindo assim, \ enxergues além de ti. 
Quem sabe, de olhos fechados, \ enxergues aquela ternura 
dos olhos que querem te olhar. 
  
Luzia M. Cardoso


Obs: Alterei, aqui, a formatação original do poema para que ele possa ser lido na íntegra, por quem acessar o livro. Cada verso está indicado por \.
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Fome de Sim

Sou a criança que encontras pelas ruas.
Nas noites frias, eu não tenho quem me abrace. 
Fome de pão, aplacam pedras, todas cruas. 
Pela manhã, tu nem me vês, sou ser sem face. 

Quando te encontro, logo vira tua cara. 
Se chego perto, tu escondes teus pertences. 
Minha roupa rota, a pobreza não mascara. 
A dor que cresce nas favelas, tu não sentes. 

Culpa meus pais, mas estou órfão, sem família. 
Lá no abrigo, também tive que brigar. 
Não acreditas, mas preciso de um lar. 

Cuido de mim, de meus irmãos... É sempre assim. 
Não vou à escola, não sei ler, não ouço sim.
Sou uma criança em tantos dias de vigília. 
Luzia M. Cardoso
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Partes de Mim

Parte de mim não mais me pertence,
Ficou na estrada, é pó, é semente.
Parte de mim escorre no olhar,
Vai fundo, fluída, não tenta voltar.

Parte de mim é pura pegada,
Marcada, sangrada, para não se apagar.
Parte de mim é lança afiada,
Quando empunhada, irá penetrar.

Parte de mim é colo, é abraço,
É laço cuidado para não desatar.
Parte de mim é alma lavada...
E, parte a parte, eu deixo brotar.

Luzia M. Cardoso
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Delírios

Se eu ignoro a minha condição,
Antecipo-me aqui, e insisto
Em minha sanidade quando avisto
O meu corpo em pó na imensidão.

Pontos em cor púrpura luminosa
A navegar no espaço sideral
E sem ter condição especial.
Só poeira de alguma nebulosa.

Já vejo o Tempo, velho taciturno,
Aprisionar-me n’alguma ampulheta.
Virei fração... Um sopro de planeta.

De lado a lado, vivo o meu transtorno.
Sou instrumento nas mãos do ancião
Que vira-me em “sim”, revira-me em “não”.

Luzia M. Cardoso
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A Palavra



A palavra fere, abençoa, maldiz, afaga... 
lamenta, pede, ora, xinga, desagrada...
ameaça, protege, difama, elogia ...
É apelo, prece, grito de agonia... 

A palavra é fogo, brasa, sopro, vento... 
É pedra, flecha, folha, flor... 
Jogada ao léu bate, machuca, atormenta...
Abrindo chagas que respingam dor.

Quando cuidada, cresce... Copa vai ao céu...
Resguarda ninhos, folhas pintam o caminho
e suas flores formam o fruto meu e teu.



Luzia M. Cardoso

 
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