Escritas

Suspiro

Luzia Magalhães Cardoso

É o botão de qualquer erva. É a flor que ninguém cheira. 
Murcha, cai e o rio leva.  Frio, a deixa em sua beira. 
Com o vento, voa longe. Solta, cai na ribanceira. 

É o pouso do pardal, sob o sol de todo dia, 
lá no galho da figueira que as trevas anuncia. 
Não há olhos que o notem como tema da poesia. 

É a criança na calçada, encolhida, sem carinho, 
cujas lágrimas caíram apontando como espinhos. 
Dela, passos se aproximam, assombrando seu caminho. 

É o respingo, gota d’água, só mais um na tempestade. 
Pinga quieto e só inquieta quando molha a autoridade. 
É perene, logo seca sem fazer qualquer alarde. 

É da rocha o cascalho que se solta no aloite. 
Rola a estrada, dura e crua, destroçado com o açoite.
Vira pó que some ao tempo, invisível dia e noite.


Luzia M. Cardoso


1 084 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.