Lista de Poemas
(sem titulo)
apenas lhe dá corpo um frio agreste.
e eu, amortalhado na sua escuridão,
penso em ti…
sob o lúgubre velar de um cipreste.
indiferente ao que no meu coração se sente,
o mundo,
vai-se alimentando dos nocturnos e ténues ruídos
que o anunciam cheio de vida...
mas há em mim, algo que presente,
que tudo são ferozes rugidos
antes de os silêncios
emprenharem a minha alma perdida.
e um límpido céu, pontilhado de estrelas,
fazendo jus à beleza da cósmica imensidão;
esmaga-me,
na luminosidade dessa miríade de velas…
é então que somente sinto,
o que foi um gentil toque da tua mão…
e o mundo, esse, mantém-se indiferente ao sentir do meu coração!
a noite, como um frágil paraíso aberto,
ao ver-me assim… vulnerável…
de sonhos tão deserto…
manda-me seguir em frente,
que é mais que tempo,
de dar fim ao que em mim há muito se sente.
obedeço e vou…
é tempo de deixar descansar o que na memória me ficou!
leal maria
vejo-me ali
vejo a passagem do tempo nele reflectido.
estou quase velho;
e tanta coisa em mim não faz ainda sentido!
lentamente,
fragmentam-se os meus sonhos;
emaranhando-me numa desesperada urgência…
e no meio desses caos medonhos,
para os sonhar já me vai faltando a ciência.
correm-me os dias numa aparente calma;
comprazo-me nas quimeras que logrei alcançar.
mas esta placidez não me sossega a alma,
na ausência do teu corpo que me falta ainda abraçar.
em breves e fugidios instantes,
deixo-me regressar aos meus pretéritos amores.
e desses sentires que em mim havia antes,
reconheço-lhes no presente as mesmas dores.
em tudo aquilo que procurei,
persegui o divino da impossibilidade.
mas os altos muros em que me cerceei,
aprisionaram-me numa eterna saudade.
olhei-me na vida através desse ancestral espelho,
em que se reflectiu o brilho do teu olhar
e não! não me senti velho;
nessa fugaz ilusão em que me permiti amar.
pouco importa agora como me vejo!
sinto-te apagar os passos que em ti caminhei.
com isso desvanece-se também o meu desejo;
e chegará o dia em que será recordação o que tanto amei.
ficarão somente as palavras,
para as reler quando ocupado em outras lavras.
não saberei que sentido lhes dar então.
sepultada que estará,
a prometida carícia na minha mão…
esposa
Senti na noite a tua mão/
Tacteei a sua pele macia/
Afagou-me o coração/
Acariciou-me alma vadia/
Agarrei-me a ela com força/
E em ela me ancorei/
Para que marear não possa/
Com a vontade que se me faz lei/
Navega meu sentido à deriva/
Não usando sextante ou astrolábio/
Quedo em perdição da vida/
Amarra-se no fogo do teu lábio/
Meu azimute quando ausente/
Porto onde me abrigar possa/
Amor meu sempre presente/
Aconchego… nupcial esposa/
leal maria
Eu; o princio do verbo que criastes
rio algum do mundo de mim derivar
nenhuma nascente em mim nascer
somente que esse mundo em mim vinha desaguar
e o espírito inquieto do argonauta se recolher
e com todas as perguntas que há a fazer
achei-me sem nenhuma resposta na bagagem
até as mais enraizadas ideias me começaram a morrer
e a verdade adiei-a para um ponto incerto da viagem
mas pediram-me verdades absolutas
quiseram-me saber o nome de ser Deus
e eu mais não fiz que lhes dar fratricidas lutas
ocultando-lhes que correm para o definitivo adeus
e da frágil argamassa com que os disse ter feito
fiz templos onde ordenei que me adorassem
marquei-os com diversos sinais no peito
e acentuei-lhes as diferenças para que se guerreassem
obedientes; assim fizeram como lhes ordenei
tragaram-se numa sanguinária autofagia
numa semântica enviesada que tomaram como lei
sacrificaram-me corpos despedaçados declamando poesia
mas eu nada lhes aceitei
fiquei ali inerte, como sempre o tinha feito
com as suas gorduras nem um grama engordei
e o meu frio mármore manteve-se perfeito
pouco me interessa que definhem iludidos
não me comovo com as suas lágrimas de dor
em nada me perturba esses inocentes perdidos
quando me imploram misericórdia com todo o ardor
em todo caso de nada lhes poderia valer
neste pedestal onde impassível os observo
outros me fizeram deus para melhor vos conter
nada pode alterar a fria natureza em que me conservo
mas… engano meu
sinto-me… sinto-me um deus que ensandeceu
aborrece-me esta plêiade obtusa de sacerdotes
ogres de barriga inchada com o que é meu
peço-vos que os façais combustível dos vossos archotes
vede a imensa má seara que pela terra semearam
estragada é a semente das suas retóricas arcaica e serôdias
porque foi em vão aquilo que com a fé buscaram
e o banquete prometido é um pão de duras côdeas
recuso desde já os nomes que me deram
nem Jeová; nem Alá; ou outro que me queiram dar
que nessa imagem em que me fizeram
criaram-vos como rebanho mansamente a pastar
está na hora de emancipar-vos do pastor
é tempo de fazer do tempo uma renovada descoberta
que o que importa no fundo é o amor
de quem em cada manhã vê o divino que desperta
e eu, que nada lhes aceitei
continuarei aqui inerte, como sempre o tenho feito
com as suas gorduras nem um grama engordarei
e o meu frio mármore manter-se-á perfeito…
leal maria (todos os direitos reservados)
continuam a voar os pássaros no meu país sonhado
ei-lo
o último poema.
o sentir expirado num derradeiro fonema
ei-lo que se vai
arrancado de mim com violência
que um tão forte sentir não sai
com delicada ciência
soçobrei
de tão fatigado que estou
sinto estilhaçado tudo o que me restou
que assim seja
apesar do muito que ainda me sobeja
é tempo de dizer que tudo acabou
sigo em frente
deixando-te para trás
e a recordação que o teu olhar me traz
mas não tenho paz
não tenho…
sigo o rumo do meu país
aquele com que tenho sonhado
ainda que saiba que ele nascer não quis
de tanto o sonhar o tenho amado
já não o habitarás
como eu o tinha determinado
e por mim não chamarás
nos dias de tanta luz clareados
nele, os pássaros voarão
livres, no céu azul
e nessa imensidão
será verão
estio de norte a sul
tu não estarás lá
não te estenderei a minha mão
o meu desejo não te alcançará
porque esse país existe no meu coração
e de ti, só as memórias o habitarão
sinto-me dormente
estranhamente contente
pelos grilhões que acabo de quebrar
ainda que te continue a sonhar
eternamente…
ali o futuro à espera
que fazer-mos então?
para trás, ficaram corpos derrubados;
frios; tatuando um infértil chão.
olho e vejo tantas mãos estendidas
e adivinho-lhes no tremer
a natureza das causas perdidas
diluídas num tempo que estamos a perder
almas nossas, que insaciadas,
encontram numa frase de despedida;
a esperança já tão arrastada,
pelos íngremes sentidos que é a vida…
não sei agora qual o nosso lugar!
que coordenada somos para quem espera?
há muito perdemos a inocência no olhar…
e pouco podemos valer a quem desespera!
mas aqui chegados, que fazer-mos então?
damos então tudo por acabado,
ou semeamos outras ilusões no coração?
o horizonte que hoje vislumbramos,
é o mesmo que no passado se vislumbrou.
e ao aqui chegarmos,
parece que ele ainda mais se afastou.
de que vale sentarmo-nos
e esperar que venham ter connosco as coisas do mundo?
a espera não faz mais que devorarmo-nos,
e sempre se vive no ir às coisas e ao seu profundo.
esqueça-mos as retóricas que nos venderam!
são meros ornatos tingidos a sangue vermelho.
mais não fizeram do que asfaltar os caminhos com os que pereceram;
porque vorazes, têm horror a que se morra de velho.
cerquemos esses cães de dentes arreganhados!
não nos iludamos com a sua ferocidade…
nas suas patranhas serão desmascarados;
e então prevalecerá a nossa verdade!
chegados então aqui, que fazer-mos então?
couraça com o contraditório as tuas ideias;
cinge um gládio de bom aço na tua mão.
que a palavra será o azeite das nossas candeias;
e o futuro será perseguido até cair-mos pelo chão…
leal maria
gosto
Gosto do sorriso daquela criança
Da brincadeira que lhe faz a felicidade
Tudo o que nela encerra esperança
E da memória que me traz à saudade
Gosto daquela miríade de águas
Convocadas à assembleia das chuvas
Recordações de pretéritos dias em mágoas
Atenuados por néctar extraído de uvas
Gosto da abafadiça quentura do estio
De animais que preguiçam dolentemente
Um intenso dia vivido de fio a pavio
Uma amizade que se sente intensamente
Gosto daquele velho cansado
Banhado no suor do esforço
Esquecido já do quanto foi odiado
Por amar de menos cheio de remorso
Gosto do esforçado trabalhador
Que esforçado no trabalho labuta
Pondo em tudo o que faz tal ardor
Como se estivesse em permanente luta
Gosto do doloroso grito da mulher
Que sofrida faz uma criança nascer
Tomando-a como aquilo que mais quer
Em desejos de a fazer crescer
Gosto da lágrima que saudosa cai
Por alguém que se despediu da vida
Perene recordação de quem se vai
Companhia para sempre perdida
Gosto daquele sincero abraço
Dado com um semblante feliz
Ofertando-me o seu regaço
Embrulhado num intenso brilho de petiz
Gosto de ti; meu amor sonhado
Quando o meu olhar se cruza com o teu
Ideia maior que tanto tenho amado
Bárbaro desejo que o sonho me prometeu
leal maria (todos os direitos reservados)
lealparaquedista@sapo.pt
arco-íris de néon
fisionomias da memória
os rostos
que perante mim vão desfilando
(há-os para todos os gostos)
cada qual
com as singularidades com que a minha má memória os foi dotando
ser-me-iam anónimos e impessoais
nada tendo diferente dos demais
não fora dar-se o caso
de serem a cronologia dos meus afectos
uma medida de tempo que criei para espíritos como o meu
um tudo nada circunspectos
fantasmas que habitam sonhos que o tempo quase desvaneceu
a nenhum posso chamar
porque a todos esqueci o nome
somente me perdurou aquela sufocante ansiedade
em que tudo à nossa volta se some
e de livre vontade
abdicamos da liberdade
deixamo-nos imolar num fogo que violentamente nos consome
pergunto-me por vezes
o que aconteceu ao corpo que a cada rosto sustinha
que destino lhe cabe cumprir
(e esta é uma pergunta muito minha)
quando à memória convocada é somente o rosto a surgir
amputado abaixo do pescoço
ao rosto
facilmente se lhe apreende a mais íntima fisionomia
saboreamo-lo como delicado mosto
reconhecemos-lhe sem esforço a forte possibilidade de poesia
mas é somente agora
extemporaneamente
que tenho essa suficiente sensibilidade
e urge ir-me embora
que saudade sentida tão intensamente
abala até as fundações da mais convicta probidade
leal maria
no arame
sobre tantos precipícios suspensos,
no periclitante equilíbrio da indecisão…
amorfos…
vejo amigos, vós, que sois imensos;
confiar o destino em alheia mão!
nascestes com a vida já hipotecada!
outros têm-vos como sua propriedade!
e tudo fazem
para que a vossa voz se mantenha calada,
não vá a algazarra
despertar-vos para dignidade.
e é com espalhafatosos laços,
ornamentando-vos as belas indumentárias;
que vaidosos, vos deixais amordaçar.
mal sabeis que cavais a cova,
onde lentamente vos estão a enterrar.
de sorrisos forçados nos rostos,
habitando-vos um imenso vazio.
viveis os dias engolindo desgostos
com a felicidade
constantemente inalcançável por um fio.
e mesmo assim resignais-vos à vossa sorte.
sempre à espera do Homem providencial.
como se fosse possível adiar a morte;
e ficar a salvo de tudo quanto é mal.
em corpos de sinuosas geografias,
vendem-vos enlatada, a realização pessoal.
obrigando-vos a deixar para trás ancestrais poesias,
numa permuta sempre desigual…
alguém vos toca no ombro esquerdo
e olhais nessa direcção.
alguém faz o mesmo no ombro direito
e dai-lhes também a mão.
mas eis que outros vêm também
reclamar-vos para o centro.
e vós, não lhes tributais o merecido desdém;
não vá algum ter miraculoso unguento.
é nessa improfícua esperança,
que bailais o bailinho dos cordeiros amansados.
à espera da quimera que, garantiram-vos, se alcança,
no altar onde a esses Deuses sois sacrificados.
e das suas retóricas sem substância,
fazeis o filosófico credo
com que alimentais os vossos filhos.
prometendo-lhes,
ser deles o futuro que vislumbram à distância;
abstendo-os de escolher outros trilhos.
arre! arre… que sois bestas de carga!
cuspis nos corpos que se deceparam para vos fazer!
porque adocicais os lábios com bebida tão amarga,
quando o futuro está no que a vossa vontade quiser!?
é tempo de lhes mostrar qual é o caminho!
as escolhas serão tomadas por todos nós!
ninguém reinará sozinho;
que para isso se sacrificaram os nossos avós!
mas… a escolha é vossa!
tendes a opção de olhar em frente ou viver vergados.
mas se vos resignares a viver nesta permanente fossa,
mereceis esse semblante de permanente derrotados!
leal maria (todos os direitos reservados)
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