Lista de Poemas
a palavra na ausência
quando tudo não faz sentido?
de que vale uma memória,
que se alimenta do que é já perdido?
nos mais ínfimos gestos,
reconheço em ti o corpo
do meu amor mais profundo.
e na tua voz,
declamados;
ouço os poemas todos do mundo
mas há tanto que te aguardo ,
na ponta do desespero…
esse limbo, entre o sonho e realidade,
onde em vão que por ti espero!
e a tua ausência
Já se faz maior que tudo
de nada me vale
o efémero que entre nós havia
amo-te num grito mudo
amordaçado…
num absorto lirismo de poesia.
lea maria
a sombra das palavras
já gastas pelo tempo;
esbatem-se nas sombras do que senti.
e na impossível memória
do sentimento,
folheio em parágrafos
o sonho do qual fugi.
sentado…
à espera não sei bem de quê…
olho o caminho…
nada nele se anuncia!
nem quando…
nem como…
porquê...?
que é feito do desejo
que então em mim havia?
passam e não lhes ligo.
ignoro as promessas de novas verdades.
Incomplacentes;
cruas;
aprisionam-me as saudades…
deixo-me ficar!
expectante
no que já tomei como certo.
paradoxo
em que me deixo enredar;
pelo conforto de um coração deserto.
mas algo se move em mim!
há uma inquietude
que me substancia .
não… não é ainda o fim!
surgir-me-ão novas palavras...
esculpirei nelas mais uma poesia!
leal maria (todos os direitos reservados)
sonho amputado
o teu olhar…
já nada sei que lhe dizer!
de peito transbordando de o sonhar,
vejo-o, triste, agora em mim morrer.
sigo o caminho adiante…
para trás,
deixo ficar fragmentos de um emaranhado nó.
e as mãos; suspensas por um instante,
nesse desejo,
que o tempo vai cobrindo com o seu pó...
impacientes; esperam-me outros desejos.
inconsequentes,
na efemeridade dos seus caprichos.
ao longe, vislumbro promessas de novos beijos;
e aos meus instintos,
reconheço-lhes a natureza dos bichos.
sim! um bicho é aquilo que eu sou!
animalesco predador…
tortura-me cada corpo que com o meu não suou;
e só num corpo saciado faço nascer o amor…
nas mãos; trago esculpida a forma imperfeita,
de um prazer que se promete eterno.
e o destino, que aos solavancos se ajeita;
alterna-me entre o paraíso e o inferno.
mas…
na esconsa memória dos muitos que sou,
não esqueço o afecto nos teus gestos dissimulado.
breves momentos que tempo já dissipou;
deixando-me o amargo sabor dum sonho amputado.
leal maria (todos os direitos reservados)
no teu olhar que me interroga
sobre a natureza das coisas onde te perdeste.
olhas…
e vês disforme a sombra que te desenha no chão.
e tens consciência que nela te reconheceste
é numa súplica desesperada,
que procuras agarrar a esperança que há muito te fugiu.
e a vida… em ti já tão baralhada;
nega-te o futuro que a poucos permitiu.
mas recusa essa mortalha de desespero…
vem… segue-me como antes!
que pela vontade vou em busca do que quero;
e a vida,
é-me eterna nos seus breves instantes.
olha mais adiante…
olha p´ra lá daquilo que te querem deixar ver.
cerra os punhos numa demonstração de raiva;
que viver de cócoras é o pior morrer.
quantos semblantes por ti se emudeceram!?
que dores se aumentaram com a tua tristeza!?
nenhumas lágrimas por ti se enterneceram;
e pouco lhes importa a tua sensível natureza .
tira do rosto o que em teu coração se sente!
dissimula no olhar essa ânsia que te consome!
somente nos reconhecerão quando lhes ferrarmos o dente…
nas suas carnes golpeadas é que nos descobrirão o nome!
leal maria (todos os direitos reservados)
o poema naquele entardecer
na memória de que o tempo é feito,
na eternidade de um suave entardecer;
tenho o meu poema perfeito,
nessa tarde em que julguei ver em ti o amor acontecer...
o olhar brilhava-te no corpo irrequieto,
preso por um sorriso;
emoldurando toda essa penumbra de luz que te banhava;
e posso dizer que nessa tarde vislumbrei o paraíso:
porque tive a exacta noção da imensidão do quanto te amava.
amava-te! amo-te! amar-te-ei?!...
que interessa isso para aqui agora!?
se o tempo da memória é tão eterno que o não contei;
e não se rege pela simples e corriqueira hora…
só sei que tenho o meu poema perfeito,
e habitas-me em permanência o peito
regendo-me os sonhos com a força das tuas marés…
aaah poetas tanta palavra e
que calmo e sereno desaguasse num meu desejo
metáfora de cristalino fio
para descrever a vontade que teria de um beijo
como queria eu falar-vos em palavras desconexas
sem um sentido aparente
para que em vossas almas convexas
espremêsseis o que no meu coração se sente
quem me dera na palavra a fluidez
sem que houvesse de recorrer ao ritmo da rima
e nela esconder-vos a minha acidez
resguardando-me de perder a vossa estima
aaah…. o bom que seria
por certo teria a vossa sincera admiração
ouviria cantar loas à minha poesia
e então sentir-me-ia como se tivesse o mundo na mão
quem me dera o tão difícil talento
daqueles que provocam só de mencionar o sexo
deixaria que reconhecêsseis em mim um advento
mestre a debitar frases sem nexo
mas pobre de mim
que não sei dissimular a minha falta de arte
tudo o que digo é… enfim
um mundo que construi nos muitos em que o meu “eu” se reparte
falta-me a vossa tendência para o subliminar
não sei criar assim tetas tão difíceis de espremer
tenho embaraço em juntar-me ao vosso colectivo masturbar
porque necessito dar alguma clareza ao meu querer
por certo tereis do vosso lado a razão
e será só aparente a imperceptibilidade do vosso vocabulário
longe de mim dizer-vos caligrafistas de torta mão
cruzes credo que não quero ser tão arbitrário
o vácuo que em vós vislumbro é somente mau feitio meu
muito haverá nas entrelinhas do vosso escrever
não me ligueis que eu sou o tipo que a má sorte não abateu
e prometo que me vou esforçar para não vos mandar foder
leal maria (todos os direitos reservados)
as palavras sem destino
nos poemas que vejo sobre ti a pairar?
porque foi a procura tão em vão
se é ainda tanto o meu amar?!
Porque teimas em ver os desertos
nos gestos contidos da minha mão?
se para ti tenho os braços tão abertos
e bate forte o amor no meu coração!
Ouço gritos num canto chamamento
em ritual de posse e de se dar.
orfandade do ambíguo sentimento
que é um permanentemente buscar.
A melodia que nos iluminava os dias
num desejo de a terra abraçar
eram um sentir a tecer-nos poesias
despertadas em parto do teu olhar.
Que faço eu agora com as palavras ditas?
a que porto as hei-de fazer aportar?
vão solitárias e tão sem rumo as desditas
que outro destino não têm que o naufragar…
…e só tu, meu amor
só tu as poderás salvar!
leal maria (todos os direitos reservados)
o silêncio que me marcam as palavras…
o silêncio mastiga-me a palavra…
e tu, na ombreira dessa porta,
adias a partida…
olhas-me…
no teu olhar, vejo uma ensurdecedora cacofonia;
que num libelo acusatório,
de dedo apontado ao mais fundo de mim;
culpa-me da natureza que o tempo tem.
Mas meu bem…
que interessa a culpa, agora que chegamos ao fim?
não vemos tudo à nossa volta ruir!?
vai então!
senão… terei que ser eu a fugir!
e isso, seria revelar-te o que há muito em mim procuras.
verias que foram reais todas as minhas ternuras.
já não irias seguir esse caminho.
e eu… eu quero ficar sozinho!
quero sentir-me abandonado…
que o tempo é chegado!
a solidão chama-me pelo nome…
e há em mim tanta coisa que se some!
de ti, já só quero a memória esbatida pelo tempo.
um vago sabor do antigo sentimento…
a amargar-me os lábios.
que a vida me seja uma constante procura de sentido.
como um procurar de respostas junto de velhos sábios.
mas sempre, sempre; dar-me como perdido...
leal maria (todos os direitos reservados)
lealparaquedista@sapo.pt
voo de um pássaro errante
germina em mim uma vontade de parar
um gélido abraço
obstinada recusa em continuar a sonhar
soberano imponente
este silêncio… entre nós
oculta num segredo tudo aquilo que se sente
ocupa a ausência da tua voz
e reconheço-me indiferente
esconjurei já todas as saudades
solitário no meio de tanta gente
alienei tudo o que foram as minhas verdades
nada mais me resta então
que o simples fruir da passagem dos dias
renego como infértil o chão
onde em vão semeei poesias
foi um vento que passou
voo de um pássaro errante
sonho que sonhar em mim se ousou
como novos mundos desejou o infante
no imenso e profundo universo
cabe bem mais um rumo perdido
que se ausente o amor do meu verso
renegarei alguma vez o ter sentido
quero o vazio… tudo é espaço
a ausência reina-me sem oposição
caminhos que não calcorreará mais o meu passo
poemas que os vindouros não me celebrarão
nada mais me resta que o nada
substanciando-me de coisa nenhuma os dias
minha nação soçobrada
por ser esconsa a mão que lhe forjou as geografias
leal maria (todos os direitos reservados)
o irregular bambolear do meu amor
no irregular bambolear do seu caminhar
na graça sinuosa
duma anca que se quer prenunciar
onde nada é fingido
e só obedece á mecânica da articulação
numa natural beleza de me tirar o juízo
e encher o coração
e é com disfarçada emoção
que a vejo assim verdadeira
como se num constante renovar
fosse a vez primeira
olhando-lhe o juvenil seio
entre a promessa e a realidade
e dele afastando meu olhar
num pudor de virgindade
emolduram-lhe os belos olhos
umas elípticas pestanas
e fazem meu coração ateu
oferecer a um Deus hossanas
mas… ò desgraça!
não é toda essa beleza que me a faz amar
É tudo… tudo…
este meu tirânico desejo que não sei explicar
sei que virá o dia
em que findará esta minha ilusão
mas o que amei
me perdurará perpétuo no coração
lá ficando a um canto o que foi sentido
feito em saudades
onde o ridículo das palavras ditas
não perderá as suas intrínsecas verdades
leal maria
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