Lista de Poemas

Capricho da Saudade

A saudade mostra seus caprichos a mim,
quando passo por aquele banco que era só seu,
onde você ficava por horas e horas
com seus pensamentos livres,
livres até de si mesmo,
livres de uma grande parte de seu passado.
Mas, ainda que desconhecesse
quem eram as pessoas que por ali passavam,
a sua presença tinha a força
para alterar a história de quem ainda te encontrasse,
para moldar também quem eu sou
e aquilo que ainda serei, e que agora,
conhecedor do íntimo dos corações, você sabe,
dono de um conhecimento infinito e secreto,
repousa junto a quem destinou sua fé.
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Sina

Inerte, com as vistas fixadas no espelho
Me busco
E o coração?
Sangue que corre, pulsação que dói
Vai em busca de quem ama
Mas quem ama?
A ilusão do amante, ama outrem
E o amor caminha assim, desencontrado
Assim como avança a humanidade
Num emaranhado de intrigas e decepções
E nesse escarcéu, eu continuo buscando
De corpo, mente e coração
Pelo corpo, mente e coração
E será que alguém busca o mesmo que eu?
Não sei
Mas a pessoa me pede
Não sei bem quem
Mas pede, sim
Eu ouço
Então, eu decido
Me arrisco e me movo
E corro.
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Amo-te a plenos pulmões

Ó minha bela amada! Como sou feliz por ter-te, vivo em constante gozo. Quando a tristeza me invade, basta que tua presença em pensamento a espante. Desconheço a razão e a origem de tanto amor, pois mãos humanas são incapazes de criar tamanha grandeza. Sua magnificência é nítida, meus olhos lhe percorrem à procura de imperfeições e sinto que nunca as encontrarei. Porque amas este ser errante que lhe escreve? Teu amor me faz elevar-te ao posto de sobre-humano, teu amor caridoso. Por mais que tentes me explicar, meu entendimento é limitado e se recusa a escutar sua modéstia dizendo-me que te mereço. Ó fruto divino de beleza singular, não me mires com estes olhos piedosos.

Antes a rejeição do que a agonia de não merecer-te, pobre jovem sou! Indigno de sentir o pulsar de teu coração, vago por bosques e praças à procura de consolo. Como indigente, me encaixo despercebido nessa sociedade apressada. Mas não por ti! Mulher que sondas o íntimo de meu coração, sabes bem que só tu podes me conduzir ao renascimento. Mas será possível te tocar e permanecer alva a alma? Compreendes meus devaneios. Quando poderei vê-la novamente? Fale! Não se esconda.

Deixe que eu lhe encontre em meio a esse caos de superficialidade. Não tenho receios em mergulhar em teus abraços e me envolver em meio a teus cabelos. O que pode ser maior que esse amor? Deixo de pensar em ti e o ar já me falta. Sinto em mim o amor que sempre quis, preso por uma decisão que tu haverás de fazer. Não há saída! Ou me amas ou me condenas...
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De novo sob o Sol

Não há nada de novo sob o sol
Tudo acontece quando há luar
A vida percorre o mesmo caminho
O que, pra sempre, há de trilhar

Ó grande Deus, que dos céus está a observar
Dê alento a essa pobre alma, pobre homem
Por que incertezas, dúvidas que consomem?
Por que há tanto, tantas coisas a desejar?

Desde criança, o desconforto é sentimento frequente
Lhe clamava, certo de que ouvira minhas preces
Mas, surdo, não lhe escuto, a solidão cresce
Me invade, sem permissão, um embate iminente

Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma?
Por que me transformo, a fim de me perder?
Transforma-me, de novo, me dê uma boa forma
Por que não escuto vossa resposta? Quero crer!

Creio, mas ainda não escuto, ânsia minha
Por que andas tão escondido dos meus sentidos?
Busco...
Procuro...
Penso...
Caminho diariamente, escuto a voz da rainha
Olhai as flores, maltratadas por nossos queridos

Não há lugar melhor, que flores no jardim
Não há vaso ou ornamento que valha vossa morte
Sim, deves habitar entre todos, até o fim
Sim, deves carregá-los, dê a eles o bom suporte

Mas como?
Escuto, enfim, os meus caminhos hei de mudar
A minha esperança se renova sob a luz do sol
Nada acontece nos momentos em que há luar
Com relutância, as minhas vontades hei de dobrar.
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Vida, vida

Ao teu alcance, fixei morada
Fria, solitária e inerte
Tal como a rua, sobre a qual eu corro
Para poder chegar ao teu encontro.

Ao alcance de seus lábios, fixei morada
Flexível, estreita e retilínea
Tal como a prancha, da qual me jogo
Para cair nas águas da sua boca.

Ao alcance de seus braços, fixei morada
Entrelaçada, forte e resistente
Tal como a corda, com a qual me balanço
Para alcançar o aperto dos seus abraços.

Ao alcance de suas mãos, fixei morada
Pomposa, macia e principesca
Tal como o sofá, em que nos deitamos
Onde meu corpo suplica por seus afagos.

Ao alcance de sua cintura, fixei morada
Redonda, saliente e sagrada
Tal como a barriga, donde vem a vida
Em que um filho, também, fixou sua própria morada.
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Direitos nem tão humanos

Sol forte, tempo quente. Parece que o calor aumenta quando não tem gente na rua pra dividir essa quentura comigo. Culpa dessa quarentena. Essa coisa brasileira, que como qualquer outra coisa, tem seu próprio jeito de existir no nosso país. Apesar de eu suspeitar que ela aconteça em outros lugares do mesmo jeito que acontece aqui, vou falar só daquilo que conheço. Já não sei em qual dia estou nesse tal isolamento social, todos os dias parecem o mesmo para mim. Mas eu sei que no começo, ninguém imaginava que iriam morrer tantas pessoas. A ciência previa, mas imaginar uma coisa dessas já dói antes dela acontecer. Essa previsão eu vi na televisão, um jornalista bem vestido falava direto de sua própria casa em rede nacional. Coisas que a tecnologia proporciona, mas nas entregas que continuo fazendo para conseguir colocar comida em casa, o avanço tecnológico não é tão bom assim. Faço tudo na marra, pra lá e pra cá, na cidade inteira. Eu e minha motocicleta. Sei que é um risco que estou correndo, mas se eu não correr com as entregas eu passo fome e ouvi dizer que um estômago bem tratado é essencial para a imunidade das pessoas. Foi o que eu ouvi alguém falar. Então levando o alimento para as pessoas, eu acabo levando o alimento pra minha casa também. Confio que papai e mamãe entendem e agradecem por eu fazê-lo. Eles estão confinados em casa, sem trabalho e recebendo um auxílio do governo, que não é muito, mas ajuda. Foi difícil convencê-los a pedir esse tal dinheiro, são orgulhosos e diziam que não precisavam de caridade, mas acabou que aceitaram a minha ideia, afinal esse dinheiro é só uma pequena retribuição de tudo aquilo que a gente dá de bom e mau grado pro país. Essa ideia eu vi no jornal também, um jornalista na bancada sozinho, falava que todo mundo teria direito a isso e outras coisas durante a tal quarentena. Foi o que eu vi. Mas eu não via nenhum desses direitos, nem antes e nem agora vejo. Cadê? Lembro que uma das coisas era o tal respeito, algo a ver com honra e outras coisas, mas respeito mesmo eu encontro em poucos lugares da cidade. Muita gente nem enxerga, nem fala e nem olha pra mim, já vivi muitas e péssimas aventuras assim. Já me maldisseram por atrasos, erros que não eram meus e aguentei tudo calado. Eu sou assim. Acho que muitos desses direitos aí eu raramente tive, se não me falha a memória. Mas não faz mal, já me acostumei, deve ser mais um daqueles luxos que só ricos têm. E como têm privilégios né? Parece que podem ficar sossegados todos os dias, desde que tudo isso começou, e por não terem problemas com nada acabam por arrumar problemas onde realmente não há nenhum. Eu não entendo, e muita gente boa que conheço também arrumam esses problemas que não existiam, acho que deve ser melhor pra passar e ocupar o tempo em casa. Não tem outra explicação, só consigo imaginar assim, porque não sou muito disso, de pensar, nunca fui. Penso pouco, mas penso: tem gente rica de tudo e tem muita gente com dinheiro que de humano não tem nada, só os tais direitos, porque aqueles direitos que eu vi no jornal eram chamados assim: direitos humanos. Então eu fiquei me perguntando, e não encontrei resposta ainda. Não tenho esses direitos, então humano não sou? Mas mesmo sem isso, eu vivo. E eu confio que a vida vá melhorar. Se não for pra conseguir mais dinheiro, vai ser pra ter mais de tudo aquilo que o dinheiro não compra. É o que eu falo.
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A água que vem de ti

Por que gosto de estar contigo?
Vez ou outra, me pego a pensar
Sobre essa coisa de ficarmos juntos
De elevar a minha temperatura com a sua
Sem me importar com o clima, por si, ardente
E, no calor do cerrado mineiro
Fui lá eu tomar um banho de sol hoje
Na piscina, te vi no reflexo da água
Me virei, mas você não estava ali
Ao retornar, observei a dança
Dos cabelos dos meus braços
Submersos na água, se expressavam
Conforme as ondas que os atingiam
Assim também me enxerguei, contigo
Na sua presença, dançando e falando
Na liberdade que só experimento
Quando estamos eu e você
No nosso mundo particular
E lá, somente lá, posso me expressar
Da maneira em que meu corpo
Se manifestaria na água, submerso
Na liberdade característica
De um universo aquático
Sem o peso e as pressões que
A atmosfera terrestre exerce sobre nós
E nessa liberdade, é onde eu prefiro
Viver
Mas ao alcançar as bordas com minhas mãos
Imaginei você indo embora de tudo
Minha vida, história e presença
E a água que vinha de ti para mim
A mesma donde eu buscava a liberdade
Essa água que antes eu tirava a vida
Agora queria a minha morte.
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Morte! Fim?

A morte se revela como ceifadora de vontades
Combate aos sonhos de meus queridos
Em sua sina, prevalece a crueldade
Neste tempo fugaz, não há ninguém que escape.

Pensamentos fúteis, pensamentos humanos
Imaginam que o fim se anuncia
Após longos vividos anos
Deitado em caixa, sem qualquer companhia.

Para quem tem fé e acredita
A morte perde relevância
Ela ataca, mas à nada finda
Seus planos, a alegria em vossas vidas.

Perdem relações, irmãos e amigos
A morte, sim, acontece
Mas à própria vida, não traz perigos
Até que a dor da perda cesse.

Sim, a dor é inevitável e a morte é certa
No espírito fere, o coração desfalece
Sua esperança o ressuscita, pois é garantido
Que além, há outra vida.
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Tempo da vida

O tempo voa, e assim não se vê
O tempo matado, a oportunidade perdida
O tempo não para, para todos e também para você
O tempo não passa com a grandeza da vida.

Ah! O tempo, como condição climática
Às vezes passa, às vezes para
Tudo depende da chuva apática
Que no interior do meu coração, dispara.

A meu ver, ao ver alheio, ao ver de terceiros
O tempo, e seu tempo são relativos
A ciência o diz, com seus cálculos certeiros
O tempo não é esse, captado por subjetivos.
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Cotidiano

Dia normal: aos meus olhos o nascer do sol esplandece
Então, a consciência se inquieta - apela, entremeio a teus fulgores
Terás de saber encontrar, àquilo o que pede em prece
No mundo procurar, entre todos meios e amores.

Se em meu torno, em teu meio ninguém me percebe
O que faço? Farei, a ver se eles a mim concedem
Do teu reino, em angústia sofre a pobre plebe
Terei de tentar, assim verei que ao meu singelo jeito eles cedem.

Enquanto solitário, prossigo no mundo com meus pensamentos
Há aqueles que me conhecem e me alegram
São chamados amigos, com seus respectivos temperamentos
Não me fazem companhia e nem por mim amor alegam.

Como bonecos, a viver sem objetivo ou meta
Às suas vidas nada almejam, mas assim mesmo
Fracassam, sem forças, a decadência indiscreta
Carência de maturidade, juventude ao esmo.

Peço que cresçam, larguem vícios e mereçam
Serem chamados filhos de Deus. Olhem, que grandeza!
Como no Éden, paraíso o qual não se esqueçam
Para estarmos juntos, em meio à grande beleza.
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