Direitos nem tão humanos

Sol forte, tempo quente. Parece que o calor aumenta quando não tem gente na rua pra dividir essa quentura comigo. Culpa dessa quarentena. Essa coisa brasileira, que como qualquer outra coisa, tem seu próprio jeito de existir no nosso país. Apesar de eu suspeitar que ela aconteça em outros lugares do mesmo jeito que acontece aqui, vou falar só daquilo que conheço. Já não sei em qual dia estou nesse tal isolamento social, todos os dias parecem o mesmo para mim. Mas eu sei que no começo, ninguém imaginava que iriam morrer tantas pessoas. A ciência previa, mas imaginar uma coisa dessas já dói antes dela acontecer. Essa previsão eu vi na televisão, um jornalista bem vestido falava direto de sua própria casa em rede nacional. Coisas que a tecnologia proporciona, mas nas entregas que continuo fazendo para conseguir colocar comida em casa, o avanço tecnológico não é tão bom assim. Faço tudo na marra, pra lá e pra cá, na cidade inteira. Eu e minha motocicleta. Sei que é um risco que estou correndo, mas se eu não correr com as entregas eu passo fome e ouvi dizer que um estômago bem tratado é essencial para a imunidade das pessoas. Foi o que eu ouvi alguém falar. Então levando o alimento para as pessoas, eu acabo levando o alimento pra minha casa também. Confio que papai e mamãe entendem e agradecem por eu fazê-lo. Eles estão confinados em casa, sem trabalho e recebendo um auxílio do governo, que não é muito, mas ajuda. Foi difícil convencê-los a pedir esse tal dinheiro, são orgulhosos e diziam que não precisavam de caridade, mas acabou que aceitaram a minha ideia, afinal esse dinheiro é só uma pequena retribuição de tudo aquilo que a gente dá de bom e mau grado pro país. Essa ideia eu vi no jornal também, um jornalista na bancada sozinho, falava que todo mundo teria direito a isso e outras coisas durante a tal quarentena. Foi o que eu vi. Mas eu não via nenhum desses direitos, nem antes e nem agora vejo. Cadê? Lembro que uma das coisas era o tal respeito, algo a ver com honra e outras coisas, mas respeito mesmo eu encontro em poucos lugares da cidade. Muita gente nem enxerga, nem fala e nem olha pra mim, já vivi muitas e péssimas aventuras assim. Já me maldisseram por atrasos, erros que não eram meus e aguentei tudo calado. Eu sou assim. Acho que muitos desses direitos aí eu raramente tive, se não me falha a memória. Mas não faz mal, já me acostumei, deve ser mais um daqueles luxos que só ricos têm. E como têm privilégios né? Parece que podem ficar sossegados todos os dias, desde que tudo isso começou, e por não terem problemas com nada acabam por arrumar problemas onde realmente não há nenhum. Eu não entendo, e muita gente boa que conheço também arrumam esses problemas que não existiam, acho que deve ser melhor pra passar e ocupar o tempo em casa. Não tem outra explicação, só consigo imaginar assim, porque não sou muito disso, de pensar, nunca fui. Penso pouco, mas penso: tem gente rica de tudo e tem muita gente com dinheiro que de humano não tem nada, só os tais direitos, porque aqueles direitos que eu vi no jornal eram chamados assim: direitos humanos. Então eu fiquei me perguntando, e não encontrei resposta ainda. Não tenho esses direitos, então humano não sou? Mas mesmo sem isso, eu vivo. E eu confio que a vida vá melhorar. Se não for pra conseguir mais dinheiro, vai ser pra ter mais de tudo aquilo que o dinheiro não compra. É o que eu falo.
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