Escritas

Biografia

Ás vezes escrevo um pouco

Lista de Poemas

Total de poemas: 56 Página 1 de 6

Sobre a pouca vida que tive

a pouca vida que se vive
permito que a lua ilumine
tragédia de infinitas cores
algumas linhas já define

a pouca vida que pude viver
nela estive pouco tempo
o passado surge hoje
me roubando o momento

á pouca vida que chamei vida
não sei se posso assim dizer
as poucas pessoas que ficaram
ficaram sem me ensinar a viver

há pouca vida restante
repousa no vazio da mente
parte procuro discernir
parte está no presente

a pouca vida que está por vir
como um dia todos se vive
algum dia estive na vida?
duvido que em algum deles estive

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Eu carregava o violão

naquela época
tudo parecia mais simples
uma simplicidade frágil

eu carregava o violão
com alguns amigos no parque
e tocava somente as músicas
que conhecia

o ar era limpo
eu gostava de respirar
bem fundo daquele ar

um gole de vinho
e mais uma música
eu até tocava bem

eu carregava o violão
como parte de mim
tocava os acordes
com o vinho ainda descendo

época que nunca mais vai voltar
eu me lembro que eu carregava o violão
tocava as canções
que todos conheciam

ainda me lembro do roçar das cordas
e da vibração das notas
lembro como tudo era mais simples
e que eu não ligava pra nada daquilo

ainda me lembro dessa época
era uma época boa
pois sempre pensava que depois tudo ficaria bem
não pode ser tão ruim quanto
carregar o violão com o vinho de mão em mão
e tocar somente as músicas que eu conheço

eu não sabia
o quanto eu estava errado

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Confissão

uma grande mágoa se arrasta pelos meus dias
há uma falta de convicção em todas as coisas
meu coração sangra por aquilo que já foi
a sensibilidade abandonou as pessoas

me vejo numa rua sem saída
pois não tem fim
um após o outro os caminhos vão
em minha alma se prendeu
um desinteresse por essas coisas
me basta o cotidiano

uma foto para lembrar
do que não existe mais
uma frase a indagar
não sou mais capaz

abandonei as esperanças há muito
sou aquilo que minha vida perdeu
me aprofundo nessas frases
mesmo assim não há nada que diga
que já não foi dito antes

a compreensão me abomina
sinto alguém comigo
lendo enquanto escrevo
não sei por quem ou pelo que
não sinto mero relevo

guarde a boa vontade que tens
me deixe aqui com essa rua sem saída
a todos se destina o merecido
eis o destino que minha alma atraiu
só tenho na mente a cor daquele vestido

essas linhas são uma confissão
por vezes o cansaço me vence
uma nuvem cobre meu horizonte
e o propósito que eu defendia
perdi e não lembro onde

é tudo exatamente a mesma coisa
circulo a esmo essas palavras
tento dizer algo confiável
mas minha mente se confunde
e pensar nisso é desagradável

para que trazer tantas dúvidas
para um pensador cansado?
toda vida possui o mesmo fim
independente do passado

agora permita continuar essa vida
que chamo vida por costume
os dias são muito longos
a perca do significado me define

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Alienados entretidos

seres que rastejam pelas sombras das ruas
um em um milhão é o que resta de esperança
olhares cansados olhando pelas janelas
desaprendendo a viver desde criança

é o vazio desse cotidiano
a fumaça nublando a visão
os prédios impedem de olhar o céu
as aves famintas pelo chão

uma desmedida carência por atenção
os olhos se afogando em tantas imagens
muita informação e pouco saber
anúncios poluindo as paisagens

tragédia dessa gente humana
que vive um eterno sofrimento
vida cruel e sem sentido
na floresta de pedra e cimento

se ao menos houvesse ação
uma revolta contra esse drama
somos alienados entretidos
enquanto nosso sangue derrama
 

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O feitiço perfeito

ela estava em meus braços
e num instante se apagou
se envolvia em meus abraços
lamentei muito quando acabou

essa noite a tristeza me visitou
sua pele morena era macia
em seu disfarce me enganou
tarde demais soube que mentia

os meus sonhos são confusos
sua lentidão me envolve
sei lidar com as dores
mas e quando me comove?

eis minha perdição
o feitiço perfeito
a batalha do cotiano é intensa
e isso continua quando me deito

as lembranças do dia me tranquilizam
vivo sempre nesse tormento
minhas dores me apresentam
será assim até o fim do meu tempo

mas meus sonhos infiéis
invadem minhas noites
e sem eu querer me libertam
e me livram desses açoites

uma ilusão incrível se constrói
um berço para repousar
uma linda mulher que me ouve
e muito tempo para amar

tal cela em que fui preso
possui barras de ouro
luto para sair
não quero esse tesouro

mas como ignorar meus desejos
como partir quando aqui jaz
todos esses anos transformados
numa eterna e linda paz

ai de mim que anseio
pelo leve roçar da grama
em meus pés enquanto caminho
indo mais profundo nessa trama

pobre alma que há aqui dentro
os sonhos me mostram o que não posso ter
acordo com lágrimas no rosto
vi mais do que podia ver

assim apresento minha condenação
estou acostumado com a escuridão
mas não sei lidar com essa indecisão
não se perdoa quem não sabe o que é perdão

ela entrou no quarto
e arrumou as cobertas
do jeito que eu gosto
despiu-se e deitou em meu peito
me pedindo um pouco de atenção
vi em seus olhos o sumo da paixão
seus cabelos me remetem a girassóis
que se elevam quando é verão

acordei em um sobressalto
maldita felicidade
que me invadiu as noites
menos mal sonhar com a dor
do que com o amor

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Rua sem fim

Ó fria neblina que desce
ocultando a visão
crês que não desejo,
que te amaldiçõo. Não!

aprecio tua presença
tudo parece distante
como se a casa vizinha
estivesse mais adiante

refletes minha alma
dentro de mim é assim
nada perto para ver
nessa rua sem fim

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Nenhuma frase é eterna

Me perdi
em algum ponto me perdi, fiquei para trás
cruzo com meu olhar em alguma foto antiga, 
talvez um traço quase apagado de uma lembrança
a lembrança rasga, tritura
perdi minha exclamação
em algum lugar dessa escritura

não me venha com frases feitas
nem com sonhos baixos
nenhuma frase é eterna
e nenhum sonho será alcançado

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Desacostumado

aconteceu agora pouco
ainda não acredito
uma palpitação longa
sem nenhum motivo

vi-me sob a luz
de uma imensa alegria
tal qual nunca tive
em toda minha vida

estranho sentimento
segue meu cotidiano
me desacostumei
talvez seja um engano

onde em mim há tal felicidade?
uma dentre centenas escondidas
permeia becos escuros da alma
por perder-se acabou sendo minha

não é meu destino encontrá-la
perdão, peço, se dentro de mim
encontrei o que em mim se perdeu
os cacos estavam soltos pelo chão

reuni-os um a um
não para remontar
nem para vitimizar
sequer justificar

acho irônico e um pouco dramático
olhá-los à meia luz dessas tardes
os pedaços deixados aqui dentro
reunidos por todas as partes

cada um conta uma história
através deles me vejo 
não pedi para ser assim
nunca foi esse meu desejo

naquelas ruas andava sem rumo
mesmo sabendo onde devia ir
todos os dias voltava pra casa
mas sempre tive vontade de partir

mais dia menos dia parti
atravessei todos os muros
sonhando visitei meus mundos
e todos eles eram escuros

fui perseguido e assassinado
morto e crucificado
me ofereceram a liberdade 
mas sabia que não era verdade

muitas dúvidas rondam esse ser
que insiste dizer não pertencer
a sociedade é cega e covarde
e infectou toda a humanidade

onde estão os versos dos velhos
e as cartas de amor das viúvas?
onde estão as palavras que não escrevi
e os amores que nunca senti?

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Meu único pesar

olhando de longe
não me parece certo
mas eu estou aqui

não posso me entregar
parecer um ser comum
longe e distante 
no mesmo instante
meu único pesar
nesse palácio triunfante
é não poder ser completo
um ser negro e frio
sem espinha para calafrios
sem coração para bombear
o que não há em minhas veias

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Mundo esquecido pelos homens

E sobre aquele sorriso?
Prefiro falar sobre aqueles olhos
Eu costumava me perder neles
Eu costumava me ver neles
Porque é isso mesmo
E mais nada

Só me perco quando vejo eu mesmo
Vagando sem destino nesse mundo esquecido pelos homens
Quanto mais tento me descobrir
Mais me perco
Quando mais me aproximo de quem sou
Menos eu me vejo

Quem supostamente criou-me ideal?
Só sei que as ideias me corroem
Em qual esquina tornei-me mal?
Só sei que minhas vestes aderiram ao corpo

De tanto usar essa máscara
Ela grudou-se na cara
Quem saberás o que é falso ou real?
E quanto a diferença entre bem e mal?

A realidade indiscutível é essa
Ninguém sabe o que quer
Ninguém sabe quem é
Descrença ou fé

Ninguém me parece saber onde vai
E menos ainda de onde veio
De tanto preencher se esvai
Que matéria fina tenho eu direito?

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