Desacostumado
aconteceu agora pouco
ainda não acredito
uma palpitação longa
sem nenhum motivo
vi-me sob a luz
de uma imensa alegria
tal qual nunca tive
em toda minha vida
estranho sentimento
segue meu cotidiano
me desacostumei
talvez seja um engano
onde em mim há tal felicidade?
uma dentre centenas escondidas
permeia becos escuros da alma
por perder-se acabou sendo minha
não é meu destino encontrá-la
perdão, peço, se dentro de mim
encontrei o que em mim se perdeu
os cacos estavam soltos pelo chão
reuni-os um a um
não para remontar
nem para vitimizar
sequer justificar
acho irônico e um pouco dramático
olhá-los à meia luz dessas tardes
os pedaços deixados aqui dentro
reunidos por todas as partes
cada um conta uma história
através deles me vejo
não pedi para ser assim
nunca foi esse meu desejo
naquelas ruas andava sem rumo
mesmo sabendo onde devia ir
todos os dias voltava pra casa
mas sempre tive vontade de partir
mais dia menos dia parti
atravessei todos os muros
sonhando visitei meus mundos
e todos eles eram escuros
fui perseguido e assassinado
morto e crucificado
me ofereceram a liberdade
mas sabia que não era verdade
muitas dúvidas rondam esse ser
que insiste dizer não pertencer
a sociedade é cega e covarde
e infectou toda a humanidade
onde estão os versos dos velhos
e as cartas de amor das viúvas?
onde estão as palavras que não escrevi
e os amores que nunca senti?
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