Lista de Poemas
As manchas
ela não é simpática
ela é um pouco estranha
desvia dos assuntos
não gosta que lhe neguem algo
mas vejo o porque
o rosto dela tem manchas
consigo ver
manchas da mágoa
e da solidão
manchas das agressões
sinto um abandono
vejo nos gestos
nos olhares
no sorriso forçado
nas palavras irônicas
há pessoas neste mundo
que de tanto lutarem com a vida
acabaram se transformando
no que de pior há nela
uma pessoa sensível e alegre
em vestes de alguém cruel e estúpido
Homem menino
como suportar essa realidade?
minha alma toca e fere
como revelar a verdade?
essa sinceridade é falsa
sou um homem crescido
mas um menino ainda vive em mim
os pesadelos da infância
criaram asas e voaram para o futuro
no caminho em frente vejo essas inconstâncias
quisera poder beber da mesma fonte até morrer
do outro lado de onde estou há espadas e lanças
esqueçam a guerra e deixem essa paz viver
Linha das 8h
Há algo de belo no transporte matinal
As paisagens passam por mim como se eu estivesse voando
As pessoas concentradas em viver suas vidas
O vão entre uma casa e outra
Ás vezes parece significar alguma coisa
Os faróis dos carros brilhando
Sobre as construções há sempre um silêncio
O destino é uma ilusão
Mas os lugares que passam durante o trajeto são reais
Mais reais do que eu ou os meus sonhos
O céu vibra com os objetivos inalcançados e com os desejos reprimidos
Meu unguento
Nunca em minha vida vou poder reparar
essa dor que sua ausência me trás
eis-me aqui a chorar
dessas angústias nunca vou me curar
meus sentidos estão sempre a clamar
meu unguento era o seu olhar
me rasga a pele a realidade em que estou
um mundo áspero e cruel me restou
longe vejo a nascente que me renovou
perdi-me da luz e a escuridão me acometeu
ó sombra que me assiste, você me prometeu
mas dessa guerra fui o único que sobreviveu
Não sou
eu não sou as roupas que uso
nem os pés que me sustentam
não sou esse olhar cansado
nem esses braços
que somente a muito custo se movimentam
não sou a labuta diária
não sou o imóvel em que vivo
nem o carro que dirijo
nem esses pensamentos impuros
que me fazem desde sempre um fugitivo
não sou um homem
mulher tampouco
minhas ideias desconhecem definições
de tanto expandir deixei de ser quem sou
meu coração desconhece essas sensações
na busca sou aquele que nunca se encontrou
percorro em mim essa estrada
permeando por esses becos
há em algum lugar uma morada
feita somente de desejos
sou as pedras que piso por onde passo
sou o único astro que há nesse espaço
sou todas as mentiras que me contam
sou os pesadelos que me assombram
sou pegadas na areia de minha praia
sou quem a mim mesmo maltrata
sou o canto, a poesia e a dança
desepero, medo e esperança
sou os livros que nunca se abriram
os corações que nunca amaram
destinos que nunca se cumpriram
e as sementes que nunca brotaram
Relendo
me encontro relendo esses escritos
tento encontrar algo que eu tinha
uma chama que há muito procuro
estou cansando dessa ladainha
foi dito para sempre
avivar essa chama
que teima em arder
nesta famosa trama
que drama
estou velho e frio
tenho de meu somente
esta chama
que insisto em reacender
estou aqui no quarto
somente ideias ao redor
e os gatos, que são mais úteis do que eu
eles não querem saber de minha busca
respeito a indiferença deles
permita-me acender novamente
ela se apagou na última estrofe
meu combustível não alimenta como antes
acendeu
mas está menor e mais fria
até quando serei obrigado a reacender
essa vida que aos poucos me escapa
aceitando partes cada vez menores em troca
prefiro vivê-la intensamente
enquanto se acaba
A Solidão
Disseram em minha presença certa vez
uma frase escrita por alguém sábio
a solidão não é somente estar só
é estar com pessoas que apesar da presença
não se fazem presentes
é falar com todos e ter todos a lhe ouvir
sem ter ali quem compreenda realmente
é ter muitos em sua companhia
no entanto ninguém que desperte algum interesse
não há como eu passar a ser solitário, pois sempre fui
não me isolo propositalmente
já estou isolado há muito tempo
não há como eu sair daqui
já estou do lado de fora
Sussura!
Sussura meu bem, sussurra!
Mas lembre-se
Não há razão para amar
Nosso amor é uma imensa ida
Sem ter pra onde voltar
Sussurra meu amor!
Naveguei por anos e anos
Você é meu mais saudoso porto
Meu barco balança nas ondas da ausência
Me jogue nessas ondas quando eu estiver morto
Renascer, reviver, refazer
Quero adentrar profundamente em mim
navegar no rio que corre em minhas veias
enterrar em meu ser eu mesmo
Quero renascer sendo eu novamente
para refazer a vida do início
do início não sinto dor
sinto saudade somente
Pudesse eu refazer certas coisas
reviver certos dias
as escolhas das quais me arrependo
fazer ser em mim quem não sou
Minha alma sonha com ela mesma
escrevo para quem sabe poder me encontrar
estou perdido faz um tempo
e em todo esse tempo em que me procuro
não há sequer um momento que eu não lamente
Lamento por essa hipocrisia
não somente estive sempre aqui
como sempre soube onde ir
minha consciência condena essa heresia
O chão vibra sob nossos pés
os ventos trazem tudo novamente
as pessoas se vão
mas as memórias não
Removível
Me sinto frágil, fino
substituível
removível
me sinto efêmero
talvez isso passe
um inútil a menos
talvez demore, talvez seja rápido
não preciso de um nome, me chame de fraco
sou o menor da manada
sou muitos e isso é nada
como saber o meu valor
se nunca tive algo valioso?
como saber a verdade
se só mentiras eu ouço?
minha vida se resume a falhas
a momentos momentâneos
conquistas pequenas e mudas
e posses mundanas
Comentários (0)
NoComments