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Ás vezes escrevo um pouco

Lista de Poemas

Total de poemas: 56 Página 5 de 6

Brancura as cabelos e mofo nas paredes

Quem sabe essas lembranças irão se pôr com o sol de amanhã
quem sabe essas meias verdades se tornem inteiras de algum modo
e esse chão colha somente as folhas da amizade e perseverança

quem sabe esse tempo dê algo a mais do que somente brancura aos cabelos e mofo nas paredes
quem sabe esse horror tenha seu fim mais breve do que esperado

e eu que tantas vezes me vi calado
esperando o momento de dizer
sempre observando os passantes
observando sem ser observado

nesse momento em que chove
chove? pois não ouço
sim. chove, mas não aqui
mas em algum lugar chove

há sempre sol em algum lugar
sempre chuva em algum lugar
onde, então, há alguém?
onde há pessoas que lembrem?

há, em algum lugar, uma morada
feita de tijolos, um sob o outro
com uma porta grande e pesada
que se encontra muito longe nessa entrada

estrada essa serpenteia pelos vales da alma
e sai na floresta da solidão
uma após a outra, as árvores vão
uma após a outra, nessa ida é tudo vão
tudo é dúvida e desencontro
tudo que construo, logo desmonto

e nessas idas e vindas da alma
estou sempre entre essa e a outra
a sensação de que tudo é falso
por dentro
a vida triste e cruel
por fora

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O mais vazio

O problema é o pedaço que você deixou
dentre eles, o mais vazio
e o tanto que ficou, onde está?
nas águas de um silêncio frio

a sinceridade corrói
aos poucos deixa oco
e o vazio das noites
aos poucos me deixou louco

👁️ 133

É tudo falso

Não me sinto bem hoje
Há uma inquietação sob meus pés
Alguma noção trágica e sem sentido
Resquícios do que não está mais aqui

Sempre me surpreendo assim
Sentindo a presença do que já se foi
Como a dor de um membro já amputado
Como a dor de uma ferida cicatrizada

Sinto uma tristeza intensa
Uma constante falta de sentido nas coisas
Até em mim
Principalmente em mim

Me sobe um calafrio
Algo não está certo
Penso que deveria contar a alguém
Mas todos já sabem

Qual a diferença entre mim e eles?
Eu não consigo ignorar esse círculo vermelho
Que fica no canto das telas
Não consigo ignorar essa sensação
De que tudo é falso
Tudo isso é uma mentira
Não passamos de personagens de uma comédia sem graça

👁️ 135

Novos tempos

Em outros tempos há
Alguma coisa em que eu possa me basear
Uma vocação, um sonho, um amor talvez

Nos tempos daqui a vida está resumida
Em uma singela esperança:
Os novos tempos serão melhores!
Os novos tempos são sempre melhores

E nessas esperanças vazias construímos tudo
Base, paredes e teto
Janelas, portas e portinholas
E se precisarmos de mais um quarto futuramente?
Derruba-se uma parede e levanta-se outra mais pros fundos
Há sempre mais espaço em uma esperança vazia
Leva esses tijolos daqui até lá
É preciso mais cimento daqui uns dias

Só podemos carregar
Que nossos braços suportam
E os alicerces suportam uma certa quantidade de tijolos
Mas nesses novos tempos
Há mais quartos sendo construídos
Todos os dias

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Exatamente nesse momento

É nesse momento
vendo esse verme lhe roendo as entranhas
a poeira social nublando a visão

Sim. É exatamente nesse momento
quando não há ninguém para culpar além de si mesmo
quando você percebe que tinhas esperanças e as jogou fora
teve oportunidades e as deixou passar

é nesse momento
a vulgaridade do cotidiano lhe deixa um gosto ruim na boca
o amargo do café ainda preso nos dentes

toda essa crueldade é real
não pense nem sequer por um momento do contrário

👁️ 130

Apenas mais uma

É uma das partes mais reverenciosas da nossa arte
a inutilidade berra
enquanto a utilidade cala

Até quando as coisas que amamos
precisarão passar por essa rígida seleção
e até quando nosso coração irá suportar
perder todos os dias essa luta
de bater sem parar
num corpo a muito já falecido?

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Antigamente eu era eterno

No meu ser há um paraíso
Forjado a punho somente
Martelo e cinzel
De meu próprio inimigo

No meu ser há um abismo
Cavado com angústias
E quase no fundo me vejo
Eternamente
Subindo
 

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Alguém

Alguém que te faça sonhar
Alguém que te faça refletir
Alguém com quem chorar
Alguém com quem sorrir

Pela vida inteira ei de esperar
Por alguém que me faça repousar
Em teu seio eu vou me deitar
Ouvir por dentro a sua vida pulsar

Vê essas estrelhas de tão fino brilho?
Essas colinas decorando o caminho?
Esse mar infinito como o meu amor?
Essas cores aguardando o sol se por?

Nada se compara à tua perfeição
Traços bordados e cosidos
Pelo mais habilidoso artesão
Nunca em minha existência
Senti assim uma ausência

Título do mais belo livro
Palavra escrita com afinco
Uma mensagem em cada entrelinha
Este poema para chamá-la de minha

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A escuridão me atacou

Hoje a escuridão me atacou
Refletiu-me a luz da lua
Em sua presença me desfaço
Como se minha alma já fosse sua

Quanto mais luzes acendo aqui embaixo
Menos eu vejo as lá de cima
Tanto me acostumei com a noite
Ajo como se ela já fosse minha

Procurei luas no meu horizonte
Somente estrelas vieram até mim
Foi assim no início
E será assim até o fim

O problema é essa intensidade no ar
Ventos que levam o que não consigo ver
As estrelas me mostram meu futuro
Mas estou longe demais para ver

Hoje a solidão me achou
Não sei se é certo ou errado
Sei que minha vida é bobagem, é nada
Perto desse céu estrelado

Pontos brilhantes ao longe
Derramam em mim seu olhar
Olham minha amada também
Aquela que nunca deixei de amar

O que mais vou querer?
A mesma lua que me cuida, a cuida também
O mesmo sol que me aquece, aquece ela também

O cotidiano é duro e pegajoso
Meu único consolo é o luar
Minhas mãos frias tremem
Quando lembro daquele olhar

Imensidão castanha onde me perdi
Jamais vou me encontrar
Para que objetivos na vida?
Para que sonhos a alcançar?
Minha vida está em suas mãos
Meu sonho é ao seu lado ficar

Sonho esse
Somente sonho será
Sonhos são ilusões lindas
Nunca acontecerá

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Das folhas à raiz

há lembranças, memórias
opiniões perigosas
que melhor ficam
aprisionadas
túmulo das ideias
nunca reveladas

há no solo de terra escura
entre as folhas algumas gravuras
os traços mudam com os ventos
eterno epitáfio desses sentimentos

bem no fundo do baú há uma carta lacrada
palavras que não posso dizer em voz alta
contam da minha alma o que se perdeu
frases tão confusas quanto eu

contorno as palavras para poder dizer
aquilo que não deixo ninguém ver
escondo nos versos sem sentido
a dor que guardarei sempre comigo

as várias facetas da obra são necessárias
o mundo inteiro é pura interpretação
dentro da pele escondo muitas marcas
usada para revestir o próprio artesão

nunca ninguém entendeu
morrerei uma incógnita
dentre todas as geleiras
fui sempre a mais sólida

não se preocupe
nem peça perdão
pois nem mesmo eu 
entendi de antemão

além fui há muito
nada tenho de meu
minha alma é escura
no coração somente breu

meu chão vibra com essas ideias
me fortalece e me mantém vivo
sou assim das folhas à raiz
mesmo que não faça nenhum sentido

👁️ 171