Lista de Poemas
Nenhuma frase é eterna
Me perdi
em algum ponto me perdi, fiquei para trás
cruzo com meu olhar em alguma foto antiga,
talvez um traço quase apagado de uma lembrança
a lembrança rasga, tritura
perdi minha exclamação
em algum lugar dessa escritura
não me venha com frases feitas
nem com sonhos baixos
nenhuma frase é eterna
e nenhum sonho será alcançado
Rua sem fim
Ó fria neblina que desce
ocultando a visão
crês que não desejo,
que te amaldiçõo. Não!
aprecio tua presença
tudo parece distante
como se a casa vizinha
estivesse mais adiante
refletes minha alma
dentro de mim é assim
nada perto para ver
nessa rua sem fim
Desacostumado
aconteceu agora pouco
ainda não acredito
uma palpitação longa
sem nenhum motivo
vi-me sob a luz
de uma imensa alegria
tal qual nunca tive
em toda minha vida
estranho sentimento
segue meu cotidiano
me desacostumei
talvez seja um engano
onde em mim há tal felicidade?
uma dentre centenas escondidas
permeia becos escuros da alma
por perder-se acabou sendo minha
não é meu destino encontrá-la
perdão, peço, se dentro de mim
encontrei o que em mim se perdeu
os cacos estavam soltos pelo chão
reuni-os um a um
não para remontar
nem para vitimizar
sequer justificar
acho irônico e um pouco dramático
olhá-los à meia luz dessas tardes
os pedaços deixados aqui dentro
reunidos por todas as partes
cada um conta uma história
através deles me vejo
não pedi para ser assim
nunca foi esse meu desejo
naquelas ruas andava sem rumo
mesmo sabendo onde devia ir
todos os dias voltava pra casa
mas sempre tive vontade de partir
mais dia menos dia parti
atravessei todos os muros
sonhando visitei meus mundos
e todos eles eram escuros
fui perseguido e assassinado
morto e crucificado
me ofereceram a liberdade
mas sabia que não era verdade
muitas dúvidas rondam esse ser
que insiste dizer não pertencer
a sociedade é cega e covarde
e infectou toda a humanidade
onde estão os versos dos velhos
e as cartas de amor das viúvas?
onde estão as palavras que não escrevi
e os amores que nunca senti?
27
Jimi Hendrix afogado no próprio vômito
Janis Joplin numa overdose de heroína
Kurt Cobain pelo cano de uma espingarda
Amy Winehouse por excesso de álcool
e há outros
hoje também estou com 27
e mais do que nunca penso
que se fodam quem diz
27 é o auge da vida
tenho 27 e já estou cansado
27 e já sinto dor nas costas
na cabeça
e na alma
entendo siceramente tais ídolos
que querendo ou não
encerraram a vida aos 27
hoje também estou com 27
e ás vezes ao acordar
e levantar da cama
pensando na longa estrada por vir
e nos fantasmas que estão a me seguir
poderia eu, querendo ou não
encerrar de vez com essa solidão
pensando nas muitas noites sem dormir
e nas lágrimas que ainda verei cair
poderia com poucos motivos assim
encerrar essa trilha sem fim
lembrando dos amores perdidos
e na constante falha desses sentidos
será que com o pouco que me resta
veria um pouco de luz saindo dessa fresta?
lamentando profundamente por esses atores
que enchem suas próprias vidas de dissabores
eles também podem, querendo ou não
acabar com essa imensa encenação
ouvindo as palavras que nunca falei
e as verdades que nunca confessei
seria por corajem ou por medo
livrar-me do peso desse segredo?
pensando nos poemas que li
e nas alegrias que nunca vivi
poderia eu, senhor coração
tirar-te dessa dolorosa ilusão?
Mundo esquecido pelos homens
E sobre aquele sorriso?
Prefiro falar sobre aqueles olhos
Eu costumava me perder neles
Eu costumava me ver neles
Porque é isso mesmo
E mais nada
Só me perco quando vejo eu mesmo
Vagando sem destino nesse mundo esquecido pelos homens
Quanto mais tento me descobrir
Mais me perco
Quando mais me aproximo de quem sou
Menos eu me vejo
Quem supostamente criou-me ideal?
Só sei que as ideias me corroem
Em qual esquina tornei-me mal?
Só sei que minhas vestes aderiram ao corpo
De tanto usar essa máscara
Ela grudou-se na cara
Quem saberás o que é falso ou real?
E quanto a diferença entre bem e mal?
A realidade indiscutível é essa
Ninguém sabe o que quer
Ninguém sabe quem é
Descrença ou fé
Ninguém me parece saber onde vai
E menos ainda de onde veio
De tanto preencher se esvai
Que matéria fina tenho eu direito?
Minhas partes
Meus pertences estão aqui agora
Mas ainda me falta algo
Algumas partes minhas
Que ainda não encontrei
Sei onde procurar
Mas não ouso
Nem se eu puder achar
Espero encontrar por aqui
Mesmo sabendo
Pode demorar um pouco
Minhas partes estão por aí
Busco elas sem buscar
Procuro sabendo que não vou achar
Por vezes uma parte se perde
Faço por bem deixá-la onde está
Em sua maioria se vão
Traços de um tempo
Resquícios de uma união
Que se perdeu no momento
Respirar
se nada disse
foi por nada ter a dizer
se deixei espaços em branco
é por assim ter que ser
a obra respira
cruza as ondas
do mar
as ondas são seu respirar
como o coração que bate
momento sim e momento não
como um sino que entoa
hora sim e hora não
também minha vida oscila
nessa oscilação desvia
desses tais desvios
parte é real e parte é mentira
Algo de novo
nada de novo nesses dias
uma chuva no meio da semana
um feriado na próxima
nada de novo durante esses dias
talvez leia um capítulo a mais
tome mais uma xícara de café
nada de realmente novo nesses dias
hoje acordei sentindo um vazio no peito
nada diferente de ontem
ou de qualquer outro dia antes desse
nada de surpreendente nesses dias
ontem lembrei de uma saudade escondida
mas hoje esqueci dela de novo
há algo que me surpreende nesse dias
uma centelha a mais de esperança
onde não deveria haver
e uma risada forçada
não havendo porque
me conte se há algo de realmente novo em seus dias
pois nos meus
não tenho
Não sinto na pele o roçar da roupa
Agora me parece tudo diferente
Tudo diferente realmente
O sol que antes me aquecia
Agora me arde os olhos
O frio da manhã que rejuvenescia
Hoje me faz cobrir com as mãos os ombros
O café quente que antes reanimava
Hoje já parece amargo na boca
Meu ânimo de antes foi embora
Não sinto na pele o roçar da roupa
De antes, foram muitos
De agora, já são poucos
Das estrelas que eu contava, poucas restam
Da lua que eu admirava
Ainda sobra um fio de prata
Que não lembro mais
Céu azul
uma fada
uma libélula
um querubim em sua musicalidade
um sopro
um encanto
uma palavra dita com suavidade
um traço a percorrer nesse céu azul
curvas vermelhas e um canto a sorrir
relvas negras desenhadas com sutileza
cachoeira castanha sem água para cair
ri como uma criança a brincar na areia
dum mar de ondas que nunca se acalmam
ao longe vês montanhas a se elevar
e imagina histórias que nunca lhe contaram
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