Escritas

Lista de Poemas

A menina

De modo despretensioso
Como eu nunca vira antes
Ela saltou do ônibus
Com seus sapatos elegantes.

Com um sorriso sereno
Atravessou correndo a pista
Observando os outros carros
Que desciam a avenida.
Fez um tímido aceno
E despediu-se do motorista.

Mostrava-se irresoluta.
E como era graciosa!
Arrojando as malas com esforço,
Ventre branco, como trigo, exposto.
E, com suas delicadas mãos,
Parecia apertado o coração,
Tirou o cabelo que lhe ocultava o rosto.

"Está perdida?"
"E você não está?"

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Na madrugada

Encontrei Deus fora da igreja numa dessas madrugadas muito loucas. Assustei-me, dando um grito e um salto, e tentei esconder as minhas garrafas de cerveja atrás das costas. Por fim, curvei-me, reverente, retirando o boné da cabeça.

- Oh, desculpe-me, vossa santidade, estou bêbado.

- Eu sei. Não se culpe, meu filho. Por acaso, não transformei água em vinho?

- O Senhor está mesmo em todo lugar?

- Em todo lugar que não seja igreja - respondeu-me, rindo.

- Sempre desconfiei disso! Pegue uma garrafa.

Ele então pegou a garrafa, segurando-a firmemente, e a virou na boca, dando uma golada inacreditável. - É da boa! - disse, sorvendo o resíduo que ficara nas gengivas.

Gostei dele de cara. E ele gostou de mim, eu acho. Estreitamos as mãos e caímos noite adentro. Era uma sexta-feira. Ou sábado. Ou qualquer outro dia da semana.

Ele tinha uma barba vasta e tatuagens maneiras espalhadas pelos braços. Correntes no pescoço. Uma camisa surrada debaixo de uma jaqueta estilosa.

Descemos algumas ruas estreitas e vazias até chegarmos a uma rua larga, depois do mercadinho do Elias. Passamos pelo coreto a passos lentos e trôpegos, assim como pelos pontos de ônibus da praça, e viramos no trilho que fica atrás da estação, além de um terreno baldio. A seguir, chegamos a uma das poucas ruas asfaltadas do bairro.

Cantamos abraçados, um se apoiando do corpo do outro. A lua e as estrelas brilhavam sobre as nossas cabeças. Chutamos algumas latas de lixo que encontramos pelo caminho, aos risos. De uma dessas latas saltou um gato que, assustado com o pontapé, miou como uma criatura recém saída do inferno, e, agitando-se, arranhou o meu rosto. Deus gargalhou, quase se mijando. Eu, a choramingar, praguejei-o por ter dado garras tão afiadas aos felinos.

- Cale a boca, tome outra cerveja - aconselhou ele, retirando uma garrafa do nada.

- Mágica?

- Não, é cerveja mesmo!

Rimos. Bebemos. Era ela três vezes mais gelada e mais saborosa! Abraçamo-nos outra vez e continuamos andando, com nossas cantorias incessantes e cheias de ânimo. As ruas não acabavam e pude notar que iam ficando cada vez mais iluminadas, pois as lâmpadas se multiplicavam. Podia-se também ouvir um certo burburinho adiante.

Tamanha foi a minha surpresa quando Deus parou diante de um prostíbulo!

- Irá entrar aí? - perguntei, desorientado. O álcool mexia com a minha cabeça.

Ele assentiu.

- Maria Madalena não está aí, Senhor! Morreu há dois mil anos.

- Deixe de ser hipócrita - ele disse, ríspido. - Quando eu afogo a humanidade num dilúvio ou peço para o meu povo tirar a vida de crianças pagãs, você diz que não devo satisfação a ninguém do que faço, mas quando digo que irei comer umas putas, você faz este dramalhão todo?

Engoli a seco, lembrando-me de que a Deus não se contesta; obedece-se. Não querendo parecer moralista, refiz os ares e perguntei se poderia ir junto.

- Há seis anos que eu não peco! - exclamei.

- Seis anos? - perguntou ele com ceticismo. Eu respondi que sim. - Todos têm pecados... - prosseguiu.

- Eu não disse que não tenho pecado, eu disse que não peco há seis anos.

- É um homem muito engraçado - ele disse, matreiro. E me deu um tapa nas costas. Piscou um olho, um belíssimo olho. - Ontem abri o mar Vermelho, hoje abrirei algumas pernas! - exclamou, atravessando as cortinas coloridas que ornamentavam a porta do recinto.

Iria segui-lo imediatamente, mas ao voltar o rosto algo que chamou a atenção. Avistei um membro da igrejinha que eu frequentava todos os domingos, do outro lado da rua. Ele adentrava a sua casa pelo portão da frente, com capa longa, chapéu na cabeça. Chegava de uma vigília, depois de feita muita oração e leitura da Bíblia. Inquietei-me. Quis dizer a ele tudo o que se dera naquela madrugada. De como tudo aquilo era incrível. Do quanto Deus era engraçado e do quanto gostava de sair por aí, vadiar, foder mulheres, divertir-se e repetir alguns palavrões, como quase todo mundo normal. Lembrei-me, para meu desgosto, de nosso pastor, que pregava com fervor durante os cultos: "A mamadeira é uma das piores invenções dos últimos tempos. Amamentar é uma função exclusiva da fêmea, da mãe. Não do pai, o macho. A mamadeira, irmãos, desvirtua a sagrada família!"

Ele ficou branco como papel quando eu lhe contei tudo, tintim por tintim. Os lábios trêmulos, os olhos escancarados, enquanto me ouvia.

- Você encontrou Deus? - perguntou, colocando a mão sobre o peito.

- Sim! Sim!

- Não acredito!

- Venha comigo! Irei mostrá-lo!

- Não posso!

- Por que não? Fale homem! Um gato comeu a sua língua? Fale!

Ele bambeou como se fosse cair e tive que o segurar pelos ombros. Ajudei-o a se apoiar no muro. A testa empapada refletia a luz da lua e da lâmpada do poste.

- Que horror! Que horror! - exclamava.

- O que foi?

- Que horror! Que horror!

De cabeça baixa disse, como se lhe faltasse ar puro para respirar:

- Eu não estou, de fato, interessado em quem ele realmente é ou foi, mas na minha idealização, pois ele, suponho, pode ser insuficiente em si mesmo. Não o amo de verdade, acho. Ama-lo-ia se o aceitasse como ele foi, o que não tolero. Uma idolatria, portanto! "Não terás outros deuses diante de mim", diz a Escritura. A religião cristã é o meu único Deus, o Jesus mítico, não o Jesus histórico. Dane-se este!

Ditas estas palavras, desvencilhou-se de mim e correu, subindo apressadamente a escada. E bateu ruidosamente a porta atrás de si, ocultando-se, crendo ser tudo aquilo um sonho. Um pesadelo. Escapara.

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A réplica de Narciso

Encontrava-se ainda em seu quarto quando alguém gritou:

- Saias da frente do espelho, Narciso! Um tal sujeito te acusa!

As frases que percorreram o corredor imediatamente se dispersaram e desapareceram nas muitas sombras projetadas pelas paredes que antecediam a porta do quarto do moço. Um silêncio absoluto.

De repente...

- Sei bem - respondeu Narciso, sem lhe voltar o rosto, fitando o próprio reflexo enquanto penteava os cabelos. - Diz ele que me amo mais que ao resto. É de fato um tolo, ignora que sou um artista! Não sou eu a beleza que enxergo, portanto não é a mim que eu amo, mas a outro. Busco a perfeição, como o faz o músico, de igual modo o pintor, o poeta, o dançarino, o orador. Como o fazem também os cientistas, confinados por horas em um laboratório. Falta ainda um pequeno detalhe a este rosto! Por isso me penteio.

Perguntaram-lhe:

- Sentirás saudade de mim?

- Insisto que tal saudade é impossível, um sentimento estúpido. O "eu" é sempre inacessível, e sempre o haverá de ser, ocultando-se sob muitas máscaras, a saber o corpo, a voz, a textura, a cor, o cheiro, a largura, etc. Como poderia sentir saudade daquilo que jamais conheci? Em verdade em verdade te digo que sou incapaz de sentir saudade de ti, do teu "eu", insondável e obscuro. Sinto saudade de teus dedos (por meio dos quais tocavas as minhas mãos), dos teus olhos (por meio dos quais vias o mundo), dos teus lábios (com os quais me beijava com ardor), dos teu pés (cujos calcanhares, graciosos, eram pequenos e rosados). O teu temperamento! A tua moral. A tua memória. Etc., etc. Não posso eu substituir todas estas coisas? Jamais te conheci e jamais sentirei isso por ti.
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Diário de um esquizofrênico - parte 1

Disse-lhe eu naquela manhã:

- Vinde comigo ao bosque cortar lenha, estúpido.

Ele assentiu e partimos no mesmo instante.

Não sabia ele que aquela era uma viagem sem volta para um de nós. Era meu empregado havia muitos anos e, enfadado com todas as diversões de outrora, buscava eu um novo meio de entreter-me com o meu "cavalo". Censuram-me por chamá-lo de meu cavalo? Pois bem, chamava-o assim e ele me atendia. Culpem-no.

Como divertia-me com ele? Certa vez deixei, propositadamente, um velho vaso na beira da estante, antes que ele entrasse para limpar a sala de visitas, como fazia com frequência. Encontrava-me, atento, com uma das orelhas colada à parede quando o silêncio foi interrompido pelo som da porcelana partindo e dos cacos que quicavam no chão.

- O que foi isso? - perguntei do outro lado da parede.

Isaque emudeceu.

- Quebraste algo? Meu vaso caríssimo?

Adentrei a sala com passos rápidos e constatei o ocorrido com alegria. Isaque pálido como um fantasma. Dei-lhe naquela noite trinta chicotadas. Daria ainda mais se os meus braços não tivessem começado a doer e o frio não me afligisse nem a escuridão da noite me impedisse de enxergar. Conservei-o amarrado ao tronco, com a carne viva exposta, até na manhã seguinte.

Uma vez no bosque, eu poupava energia. Usá-la-ia para materializar o meu desejo torpe, o meu pecado irresistível. Isaque esforçava-se, gastando a sua energia, e tornando-se cada vez mais indefeso. Era impressionante a quantidade de madeira que ele juntara aos seus pés. Apesar de ser bem mais jovem e possuir um porte avantajado, já apresentava sinais de grande desgaste. Ofegava, inclinando a cabeça e flexionando os joelhos.

- Ainda não está bom, senhor? - perguntou-me depois de algumas horas.

- Não. Mais, mais!

Há maior prazer em preparar-se para a festa do que na própria festa em si, costumam dizer, de modo que já não me recordo qual, e devo confessar que concordo com esse provérbio, embora o meu caso seja bem particular e sua aplicabilidade, excêntrica, para não dizer outra coisa. Como rejubilava-me em planejar a sua tragédia! Não, senhores, jamais fui um homem misericordioso. Se pensavam assim, por eu ser silencioso e polido, enganaram-se todos, redondamente. Decidia-me eu o que faria, inquieto em meu interior inacessível, como uma criança incapaz de se decidir por qual lado do doce deve lhe aplicar a primeira mordida. "Não, ei-lo de atingir um pouco acima, aqui", pensava, descansando o machado e secando a testa umedecida. "Agora não, deixa-lo-ei pensar que está tudo em paz". Sentia prazer em seu sorriso. Muito. "Que belos dentes haverei de quebrar!". Divertia-me muito, confesso, e não poucas vezes ele me surpreendia afundado em pensamentos, rindo pelos cantos.

- Lindo o canto dos pássaros, não acha? - perguntei-lhe, ofegante, com um sorriso largo no rosto e uma gentileza impressionante.

- Sim, senhor. Tens toda a razão - respondeu depois de se virar para mim.

- Penses, cavalo, que um dia esta terra, fria e que hoje nos dá o que comer, irá nos engolir como uma corsa sedenta, com grandes goles, logo depois que nossos parentes e amigos nos jogarem fora, como lixo, inutilizáveis. Deste dia em diante, abandonados em nossa solidão eterna, não poderemos mais ouvir o canto alegre de pássaro algum nem mesmo o mais alto berro feito pelo mais aflito dos peitos.

Pareceu-me ele, por um instante, muito impressionado com as minhas palavras, algo que me deu enorme prazer. Assustava-o sempre dizendo coisas do tipo. Ria-me desta facilidade.

Que vontade tive de o acertar bem no meio da testa! Aquela testa estúpida, disforme! Bastar-me-ia um golpe com o machado e eu esmagaria o seu crânio! Dividi-lo-ia ao meio se usasse o lado da lâmina. Sequer veria o golpe! Mas não, não o fiz imediatamente, senhores, sou um homem controlado. Enganam-se de novo.

- Um pintassilgo! - disse ele.

- O quê? - perguntei. Distraído, encontrava-me imerso em meus pensamentos.

- Há um pintassilgo entre eles. São raros por aqui - disse, apontando para uma árvore localizada um pouco além.

Dei de ombros.

- Por que me chamaste de demônio na semana passada? - perguntei-lhe enquanto me impacientava.

Seu rosto jovial ganhou um ar de seriedade. Ele fitou-me e respondeu:

- Jamais o chamei de demônio, senhor!

- Talvez tenha sido apenas um sonho - respondi, confuso.

- Provavelmente, senhor.

No entanto, algo ainda me perturbava, invadia-me a alma e a estrangulava. A dor de cabeça ia aumentando e eu podia sentir as minhas têmporas, encharcadas de suor, palpitando e palpitando.

- Achas que estou ficando louco, cavalo?

- Não, senhor - disse. - "Doente" é a palavra mais apropriada. Estás doente. Bem se vê que emagreceste muito nos últimos meses.

- Dizem que estou ficando louco, cavalo. Sabes disso? Todos dizem isso. Todos!

Ele calou-se. Todo o meu corpo se tornou trêmulo. Minha respiração foi aos poucos se tornando mais pesada. De repente um sorriso desvairado se formou em meu rosto.

- Sabes por que o chamei para cá? - prossegui, sentindo uma forte febre atacar-me. - Pretendia matá-lo. Com uma machadada na cabeça! Não estou louco? Diga-me, diga-me! Não estão eles certos? Não estou realmente louco?

Isaque teve um sobressalto e deu dois passos para trás. Tornou-se incrivelmente pálido. Havia medo em seus olhos; arregalaram-se diante da lâmina que brilhava ao sol. A palidez estúpida. Os lábios, trêmulos.

- Acreditas neles! - disse-lhe eu num grito, um uivo, sentindo um forte sentimento dominar-me. E então...

Atingi-o! Bastou um golpe certeiro no alto da cabeça para vê-lo despencar como um saco de batatas! Tremia como um verme no sol! O sangue era santo! Santo! Atingi-o de novo e de novo, e de novo. Rá-rá-rá!

Cheguei em casa quando o céu já escurecia, com tons vermelhos no horizonte, totalmente esgotado. As lamparinas estavam acesas e Sofia esperava-me na varanda, aflita. Agarrou-me pela camisa e perguntou assim que entrei pelo portão:

- Onde está o Isaque?

Usava ela a camisola de sempre e se preparava para deitar.

- E que tenho eu com isso? Sou, por acaso, o protetor dele? - perguntei me esquivando.

Entramos na sala. Ela, a minha segunda sombra.

- Ouvi dizer que vocês saíram juntos hoje cedo.

Eu esbocei um sorriso cínico.

Um pensamento incômodo passou pela sua mente feminina e tornou-se a personificação do terror.

- Tu não fizeste nada com ele, fizeste?

- E o que eu faria com ele? É um inútil! Ninguém sentiria falta.

- E este sangue na sua camisa? - balbuciou.

Baixei os olhos e avistei a mancha infame sobre o peito. Não a notara antes. Então um calafrio me percorreu a espinha.

- Um porco selvagem - eu principiei a dizer, mas minha voz foi se tornando chorosa; a garganta travou e entreguei-me a incontidos soluços. - Eu o matei! - exclamei, caindo de joelhos e tocando o chão com o rosto. - Eu o matei! Isaque está enterrado no bosque agora!

- Oh, meu Deus! - exclamou ela, como se fosse desmaiar.

A seguir eu lhe contei tudo o que acontecera naquela manhã. Ela, no princípio, repelia-me, afastava-se num impulso covarde. Odiava-me? Com o tempo, abraçou-me, alterando entre um silêncio angustiante e impropérios misturados a palavras de consolo. "Afinal, tu não tens limites?", perguntava-me enquanto abraçava o meu pescoço. Quase chegava a me esganar.

- Não hei de me entregar à polícia - eu disse, quando começava a sentir envergonhado por ter me sentido culpado em um breve momento de fraqueza. - Jamais! Sou um homem doente! Não possuo culpa alguma! Qualquer pessoa que não tolere a estupidez o teria matado. Demorei para fazê-lo! Eis tudo!

Desvencilhei-me dela e fui deitar-me. Ela foi se deitar logo depois, sem me dizer nada. Todavia eu não conseguia me desligar. Em minha mente os pensamentos turbilhonavam. Com os sentidos aguçados, era impossível dormir. Eu havia matado um homem e me sentia muito bem por isso. Ultrapassara a barreira que me igualava a um homem qualquer. Que bela machadada havia lhe dado!

Estendi o braço, depois de me virar sobre a cama, e coloquei as mãos sobre os seios de Sofia. Pude sentir o seu corpo tremer. Ela deu um grito abafado e se afastou. Aproximei-me, desta vez encaixando o meu corpo no seu. Como era maravilhoso o perfume que ele exalava! Sofia tentou se desprender dos meus braços, mas não tinha forças para me resistir.

- Largue-me! - exigiu, com voz embargada.

Sacolejava-se muito e tive que a imobilizar.

- Depois - eu disse, apertando-a com mais força ainda contra o meu corpo. Minha virilha fazia uma forte pressão sobre as suas nádegas e ela podia sentir o meu membro rígido, pulsante. - Eu irei sodomizar-te primeiro.

- Eu não quero - ela lamentou-se, como se apelasse para a minha consciência ou para a Providência. - Estás me machucando.

Na verdade, quanto menos ela quisesse, mais eu iria querer, e quanto mais ela lutasse, maior seria o meu prazer em tentar forçar o coito. Queria machucá-por dentro, não com socos nem tapas, mas com aquele pedaço de carne que ganhava corpo dentro de minha calça e que, tornando-se independente, pedia para sair e explorar seu orifício. Imóvel, Sofia olhava para os meus braços, aos soluços, e mais lhe pareciam correntes de aço em redor de sua bela silhueta. Bem verdade, parecia resignar-se.

- Irá doer, mas será rápido - eu disse, serpenteando as mãos sobre o seu ventre e invadindo com os dedos os tufos negros de seu vasto pentelho. - Prometo.

Coloquei-o para fora e a cabeça lisa refletia a luz fraca que entrava pelas frestas da janela. Puxei a sua calcinha e a minha presa gritou, remexendo-se. Era forte! Esperei alguns segundos e tentei puxar a peça de novo. Desta vez a consegui segurar com firmeza e tentei fazer com que deslizasse pelas suas coxas grossas, mas Sofia encolheu as pernas e tentava conservá-la consigo. Como aquilo me excitava! Eu segurava tão firmemente a calcinha que a poderia rasgar, se quisesse, apenas com dois ou três puxões. Era bastante flexível e eu estava disposto a estourar ou a relaxar o elástico.

- Lutes, sim! - eu disse. - É mais gostoso.

Bastar-me-ia uma fresta, por onde eu poderia abrir passagem para o meu pênis. Consegui passar um braço por dentro do seu, enquanto as mãos abriam suficientemente suas pernas. As forças de Sofia acabavam e aquela ela uma posição incontornável. Então meu membro começou a roçar a sua coxa. Sofia apertava uma coxa contra a outra e eu forçava caminho, abrindo suas pernas com as mãos e descendo um pouco mais a calcinha.

- Irás fazer tudo com as pernas abertas - eu disse, julgando ser este um princípio natural e inalienável.

Introduzi o membro e ela gemeu de dor. Empurrei-o no estreito trilho enrugado e ele se deixou deslizar. Uma vez, e outra. E mais uma ainda. Aprofundei-me e tornei-me mais violento, sentindo a sua carne quente, que se dilatava e abria passagem, a acolher-me. As estocadas mais lentas deram lugar a estocadas mais constantes e firmes, e o meu saco escrotal passou a "estapear" as suas nádegas. O som excitava, parecia aqueles tapinhas que se dá nas bochechas. Sofia franzia as sobrancelhas e mordia os lábios, murmurando. Subitamente, eu me tornara um epilético.

Dormi logo.

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Contato

Estava frio, muito frio, e chuva que caia, respingando ruidosa e ricamente sobre o telhado, ocultava-se em parte na obscuridade. Eu podia ouvi-la, mas não a podia compreender. O que quero dizer com isso? Que esperava que a chuva me dissesse algo, que me oferecesse num sopro ou num sussurro uma iluminação, uma exortação, um conforto talvez. Havia me cansado das vozes humanas.

Tolice, não? Sim, sou tolo, e naquele dia por uma estranha razão era mais.

Em meu quarto, encontrava-me triste, os cotovelos apoiados na janela, a cabeça baixa entregue a pensamentos abstratos. Toda aquela vaga imagem gerava em mim, em meu interior, um amargor que me sufocava, mas sem razão aparente, como uma fobia, um pavor sem consistência, um medo tolo de criança. Abateu-me a vergonha de ter sentido vontade de chorar. Por que sentia vontade de chorar? Por que meus olhos de repente se tornaram úmidos e ameaçaram constranger-me? Uma lágrima quase me escapou e teria despencado se eu não tivesse arregalado os olhos e a esperado secar. Aprisionara-a entre as pestanas como um habilidoso equilibrista.

"Feliz dia dos finados", Carmen havia dito ao atravessar a porta, mas o fez com uma naturalidade assombrosa. Nada mais assombroso, pois como dizia vovó: pior do que a morte do homem inocente é a naturalidade daquele que o mata a marretadas.

A tristeza estava estampada em meu rosto como uma cicatriz, enfeiando-o. Voltá-lo para a porta foi uma insensatez. De qualquer modo, não estava mais sozinho no quarto, e por um minuto a sensação de estar só se desvaneceu completamente.

(Desculpem-me se pareço clichê, mas não confundam uma coisa com outra: estar só e sentir-se só.)

- Que bom que o encontrei! - Carmen disse, sorrindo. E minha alma se permitiu contagiar pelas suas palavras. Abraçamo-nos e eu senti o calor de seu corpo, o seu hálito, a maciez de sua blusa de lã azul. O seu ser me envolvia e nos fundíamos.

- Sinto saudades da mamãe - eu disse a ela, e não pude dizer muita coisa, como queria. Uma imensa bola de ar no peito asfixiou-me. - Desculpe não ter ido com você... - balbuciei. - Será que estamos sozinhos no universo?

De repente senti que a resposta para esta pergunta era "não"; tive a impressão de que havia vidas em outros planetas. Se há, eu não sei. No entanto, cochilei em seus braços e sonhei com seres iluminados de universos paralelos. Eram muitos, bonitos e alegres. Um riu-se por termos nos encontrado, mas depois de um tempo arregalou os seus olhos colossais e perguntou-me: - Será que estamos sozinhos no universo?

Sua pergunta atormentou-me e o meu sorriso se desfez. Senti-me só outra vez. Tinha que fazer uma nova viagem! Abandonei-o, como abandonara minha irmã, como minha mãe me abandonara. "Preciso encontrar Deus", disse a ele, acenando-lhe de um balão, subindo entre as nuvens. Precisava saber.

Encontrei Deus, sim, e divertimo-nos muito. Ele tinha um rosto iluminado, puro, altivo, mas um sorriso doce, infantil. Era uma tarde ensolarada. Passeamos de mãos dadas pelos jardins do paraíso.

Ele estendeu os seus longos braços dizendo:

- Isso é tudo o que existe!

E desta vez me senti só novamente, mas agora com uma solidão muito mais esmagadora do que as que sentira durante os anos anteriores. Certifiquei-me de que aquilo realmente era tudo o que havia, que existia, e de que não havia mais nada.

- Deus, estamos sós - eu disse, e chorei.

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O operário

Cheguei em casa demasiado tarde. Outra vez não pude subir ao quarto de meu filho. Quando o fizera pela última vez? Não sei. Bem verdade, havia muito que, por estar ocupado e fatigado, não podia dar-me o prazer de ir contemplar o seu rosto. As minhas pernas, doloridas, não foram capazes de subir as escadas, embora eu tenha me esforçado tentando dar um salto atrás de outro. O corpo, cambaleante, larga em algum momento o corrimão, despenca sobre os degraus e dorme, sempre. Acordei num susto, com baba escorrendo da boca. Havia sonhado novamente com a fábrica. Meu filho, por sua vez, não fora capaz de ficar acordado até tarde.

A vida é a mesma. A fábrica tem me exigido muito, como sempre. Ela é cruel, tão imutável quanto deus. Ou mais. O mercado no entanto cuida de nós, ainda que com sua aura vampiresca e nos roubando a alma com mãos fortes.

Certo dia encontrei um bilhete sobre a mesa. Pude lê-lo antes de dormir. Ou melhor, antes de cair no sono.

"Boa noite, papai", dizia o texto.

Meu coração ardeu, e depois de muito tempo não mais me senti uma máquina.

Era humano e um coração palpitava em meu peito. Ele mesmo, o estrangeiro, o segundo apêndice, que andava calado, mudo, tímido, rebelava-se.

"Passaram-se doze anos!", pensei aos prantos com uma tribulação desvairada, um tremor violento, febril. "Sim, sim. Num breve piscar de olhos. Doze anos! Dezoito horas diárias. Doze anos!"

Perguntei-me, admirando a sua porta, distante, elevada, com quem ele havia aprendido a escrever. Não fora comigo, certamente. Toda sua infância me escapou como água escorrendo entre os dedos. Só ali me espantei. Dei-me conta do que estava a perder e veio-me à memória o que eu tinha em mente ao planejar uma família. Pensei em subir ao seu quarto. Levantei-me, mas minhas costas estalaram. Estava exaurido, doente, sonolento, morto. Não pude vê-lo também. Desfaleci logo.

Caído ali, sonhei com ele pela primeira vez depois de muito tempo. Era todavia uma imagem pálida, informe, vazia, abstrata. "Ama-me?", perguntei-lhe no sonho, mas em seguida me lembrei de que não mais reconhecia a sua voz. Como então poderia responder-me? Falava e eu não o ouvia!

Como era meu filho? Como? Provavelmente possuía o mesmo rosto de outrora, só que um pouco mais amadurecido. Mas... também não o recordo! Que pai horrendo eu sou! Um monstro!

Eu e minha filosofia. Comer, dormir e trabalhar. Mais anos se passam. Voam com asas de aço. Comer, dormir e trabalhar. Mais coisas se perdem. Sofrer e trabalhar, trabalhar e sofrer.

Nada mais resta.

De repente numa noite, pouco depois de chegar em casa, ouvi o som de passos, o barulho da porta rangendo e um grito.

- Um ladrão! - parecemos gritar ao mesmo tempo.

Um jovem estranho apareceu pela porta e nos atracamos. Ambos estávamos assustadíssimos, trêmulos, com os olhos escancarados. Rolamos pelo chão da sala, ele com uma faca na mão. Eu segurei-o pelo pulso, ele esmurrou o meu rosto, rangendo, enforcando-me. Tentei imobilizá-lo. Nossos olhares se encontraram. Ele golpeou-me com o punho cerrado. E, então, urrando como um animal, tomei a faca de sua mão e... e... esfaqueei-o!

No peito, fatalmente.

Só mais tarde, passado o calor do momento, dei-me conta da tolice que havia feito.

Seu rosto, para meu espanto, parecia-se com o meu e sua tristeza refletia a minha.

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Bárbara

Enfim anoitecera. As luzes coloridas dos prédios, que aos poucos iam diminuindo durando o percurso, pareciam se despedir de nós. As lâmpadas dos postes passavam agora como estrelas cadentes, rasantes. Horizontalmente. Rendi-me ao silêncio noturno e diminui de forma significativa o volume do rádio. Quase inaudível. Ciente de que a temperatura também caíra, estiquei o braço e fechei as janelas.

Bárbara fizera-se quieta e só quando eu olhava para ela, ela me olhava de volta. Sua cara era de sono, com as longas pestanas, pesadas e hesitantes, movimentando-se para cima e para baixo tal qual uma gangorra. De quando em quando arregalava os olhos e sorria esticando exageradamente os lábios. Só depois, quando tentei comentar com ela sobre uma capivara desjeitosa que imprudentemente atravessara a estrada, dei-me conta de que a moça cochilara durante o trajeto.

Por fim, tombou. Resignada, sua cabeça descansava em meu ombro; o cabelo longo, macio e perfumado. Uma cena das mais lindas que se pode imaginar. Não sei o que me deliciava mais. Se os seus olhos mortais, o corte generoso e desguarnecido do decote, o ar quente e calmo a sair de suas narinas ou a proximidade de sua boca rosada, entreaberta e acessível...

- Acorde, acorde - sussurrei, ajeitando com uma das mãos uma mecha de cabelo que lhe cobria a testa arredondada. - Ah, Bárbara! - murmurei, tocando-lhe levemente o delicado queixo, antes de baixar-me e beijá-la. Receoso, só a despertei depois de tê-la beijado.

Não senti remorso algum por ter feito tal coisa, supondo que talvez houvesse me aproveitado em um momento de fragilidade sua. Não era o beijo de um amante, por mais que eu desejasse sê-lo, mas um beijo carinhoso e cheio de ternura, como o dado por uma mãe em seu filho ainda pequeno, cautelosamente agarrado ao peito. Se ela, em algum momento, desde o dia em que nos conhecemos, tivesse tido vontade de me beijar, não com o beijo que eu lhe havia dado, mas com um beijo apaixonado, romanesco, já teria me beijado e eu não o recusaria. O que eu posso dizer? A Bárbara era assim. Impulsiva e inocente. Beijava do nada, sem hesitação e sem avisar. Definitivamente nunca desejara me beijar com aquele tipo de beijo.

O "beijo", se posso chamá-lo assim, porquanto fora apenas um toque breve e comedido dos lábios, uma troca de espíritos, teve um efeito contrário ao que eu esperava. Senti-me traído pelos meus sentimentos, pois eram confusos, sem limites definidos. A imprecisão alimentou a chama da tristeza.

- O que foi? Já chegamos? - perguntou ela ao despertar, esticando os braços, após um bocejo incontido.

- Ainda não. Falta pouco. Desculpe tê-la acordado.

Em meio a toda aquela incerteza, a capivara, outrora uma imprescindível fonte de entretenimento, perdera completamente a importância; tornara-se irrelevante.

Bárbara não era nenhuma espécie de Capitu, dotada de toda dissimulação. Era simples de se ler, bastava olhar para ela e pronto. Bingo. Quando estava feliz sorria, quando estava triste chorava, quando sentia vergonha corava. Bastava uma hora de conversa atenta para poder compreendê-la totalmente, sem receio de ser surpreendido futuramente. Também não era nenhuma garotinha ruiva, inalcançável, tal qual a de Charles Schulz. Eu a tinha ao lado o tempo todo e podia tocá-la sempre que quisesse.

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Antes da escuridão

Tudo é alvo antes da escuridão,
quando o tempo enfim bate à porta,
quando nada mais importa,
quando quem nos abraça é a solidão.

Tudo é rubro antes da escuridão,
quando a bala atinge o peito,
quando o médico diz não ter mais jeito,
quando Deus não ouve a oração.

Tudo é tristeza e tédio.
Mais tristeza e mais tédio.
Tudo é cinza.

Tudo é frieza e médio.
Tudo, tudo é arredio.
Toda alma é ranzinza.
Oh, arrepio!

Lá vem ela, a morte,
posso ouvi-la subir as escadas.
Maldita porta, por que estás sempre aberta?
Terror, és tu que despertas!
Ah, coração! por que te afliges?
Criaste neste mundo raízes?

Oh, tudo é dor!
tudo é...
sem cor.

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Brincar de esconder

Mamãe estava estranha quando entrei correndo em seu quarto e a chamei para brincar. Havia uma palidez desesperada estampada em seu rosto, um ar demasiado sombrio em seus olhos, uma tristeza muda a gritar em seus lábios finos. A inocência infantil me cegava. Depois de abraçar seus joelhos e puxar sua saia com veemência, voltei o rosto para uma das paredes e contei até vinte. "... dezoito, dezenove, vinte" Corri os olhos pelo quarto e, imediatamente, encontrei-a atrás da cortina branca que cobria a janela. "Você não sabe se esconder", eu protestei, inflando as bochechas e enrugando o rosto. Ela não me respondeu nada, limitando-se a dar-me dois tapinhas nas costas e a meter o seu cigarro outra vez na boca. Como fumava naquela época! "A sua mamãe não está se sentindo bem", disse tia Hilda, segurando a minha mão e me ajudando a sair pela porta. "Ela precisa descansar", concluiu. Eu estava no quintal quando ouvi o disparo, seguido do voo assustado dos pássaros que se amontoavam no telhado, do choro de minha tia, do som da sirene da ambulância e do carro da polícia. Desde então nunca mais fui capaz de encontrar minha mãe. Ela vencera o jogo e o tem vencido desde então, para meu desapontamento.

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