Escritas

Na madrugada

Francys Charlie
Encontrei Deus fora da igreja numa dessas madrugadas muito loucas. Assustei-me, dando um grito e um salto, e tentei esconder as minhas garrafas de cerveja atrás das costas. Por fim, curvei-me, reverente, retirando o boné da cabeça.

- Oh, desculpe-me, vossa santidade, estou bêbado.

- Eu sei. Não se culpe, meu filho. Por acaso, não transformei água em vinho?

- O Senhor está mesmo em todo lugar?

- Em todo lugar que não seja igreja - respondeu-me, rindo.

- Sempre desconfiei disso! Pegue uma garrafa.

Ele então pegou a garrafa, segurando-a firmemente, e a virou na boca, dando uma golada inacreditável. - É da boa! - disse, sorvendo o resíduo que ficara nas gengivas.

Gostei dele de cara. E ele gostou de mim, eu acho. Estreitamos as mãos e caímos noite adentro. Era uma sexta-feira. Ou sábado. Ou qualquer outro dia da semana.

Ele tinha uma barba vasta e tatuagens maneiras espalhadas pelos braços. Correntes no pescoço. Uma camisa surrada debaixo de uma jaqueta estilosa.

Descemos algumas ruas estreitas e vazias até chegarmos a uma rua larga, depois do mercadinho do Elias. Passamos pelo coreto a passos lentos e trôpegos, assim como pelos pontos de ônibus da praça, e viramos no trilho que fica atrás da estação, além de um terreno baldio. A seguir, chegamos a uma das poucas ruas asfaltadas do bairro.

Cantamos abraçados, um se apoiando do corpo do outro. A lua e as estrelas brilhavam sobre as nossas cabeças. Chutamos algumas latas de lixo que encontramos pelo caminho, aos risos. De uma dessas latas saltou um gato que, assustado com o pontapé, miou como uma criatura recém saída do inferno, e, agitando-se, arranhou o meu rosto. Deus gargalhou, quase se mijando. Eu, a choramingar, praguejei-o por ter dado garras tão afiadas aos felinos.

- Cale a boca, tome outra cerveja - aconselhou ele, retirando uma garrafa do nada.

- Mágica?

- Não, é cerveja mesmo!

Rimos. Bebemos. Era ela três vezes mais gelada e mais saborosa! Abraçamo-nos outra vez e continuamos andando, com nossas cantorias incessantes e cheias de ânimo. As ruas não acabavam e pude notar que iam ficando cada vez mais iluminadas, pois as lâmpadas se multiplicavam. Podia-se também ouvir um certo burburinho adiante.

Tamanha foi a minha surpresa quando Deus parou diante de um prostíbulo!

- Irá entrar aí? - perguntei, desorientado. O álcool mexia com a minha cabeça.

Ele assentiu.

- Maria Madalena não está aí, Senhor! Morreu há dois mil anos.

- Deixe de ser hipócrita - ele disse, ríspido. - Quando eu afogo a humanidade num dilúvio ou peço para o meu povo tirar a vida de crianças pagãs, você diz que não devo satisfação a ninguém do que faço, mas quando digo que irei comer umas putas, você faz este dramalhão todo?

Engoli a seco, lembrando-me de que a Deus não se contesta; obedece-se. Não querendo parecer moralista, refiz os ares e perguntei se poderia ir junto.

- Há seis anos que eu não peco! - exclamei.

- Seis anos? - perguntou ele com ceticismo. Eu respondi que sim. - Todos têm pecados... - prosseguiu.

- Eu não disse que não tenho pecado, eu disse que não peco há seis anos.

- É um homem muito engraçado - ele disse, matreiro. E me deu um tapa nas costas. Piscou um olho, um belíssimo olho. - Ontem abri o mar Vermelho, hoje abrirei algumas pernas! - exclamou, atravessando as cortinas coloridas que ornamentavam a porta do recinto.

Iria segui-lo imediatamente, mas ao voltar o rosto algo que chamou a atenção. Avistei um membro da igrejinha que eu frequentava todos os domingos, do outro lado da rua. Ele adentrava a sua casa pelo portão da frente, com capa longa, chapéu na cabeça. Chegava de uma vigília, depois de feita muita oração e leitura da Bíblia. Inquietei-me. Quis dizer a ele tudo o que se dera naquela madrugada. De como tudo aquilo era incrível. Do quanto Deus era engraçado e do quanto gostava de sair por aí, vadiar, foder mulheres, divertir-se e repetir alguns palavrões, como quase todo mundo normal. Lembrei-me, para meu desgosto, de nosso pastor, que pregava com fervor durante os cultos: "A mamadeira é uma das piores invenções dos últimos tempos. Amamentar é uma função exclusiva da fêmea, da mãe. Não do pai, o macho. A mamadeira, irmãos, desvirtua a sagrada família!"

Ele ficou branco como papel quando eu lhe contei tudo, tintim por tintim. Os lábios trêmulos, os olhos escancarados, enquanto me ouvia.

- Você encontrou Deus? - perguntou, colocando a mão sobre o peito.

- Sim! Sim!

- Não acredito!

- Venha comigo! Irei mostrá-lo!

- Não posso!

- Por que não? Fale homem! Um gato comeu a sua língua? Fale!

Ele bambeou como se fosse cair e tive que o segurar pelos ombros. Ajudei-o a se apoiar no muro. A testa empapada refletia a luz da lua e da lâmpada do poste.

- Que horror! Que horror! - exclamava.

- O que foi?

- Que horror! Que horror!

De cabeça baixa disse, como se lhe faltasse ar puro para respirar:

- Eu não estou, de fato, interessado em quem ele realmente é ou foi, mas na minha idealização, pois ele, suponho, pode ser insuficiente em si mesmo. Não o amo de verdade, acho. Ama-lo-ia se o aceitasse como ele foi, o que não tolero. Uma idolatria, portanto! "Não terás outros deuses diante de mim", diz a Escritura. A religião cristã é o meu único Deus, o Jesus mítico, não o Jesus histórico. Dane-se este!

Ditas estas palavras, desvencilhou-se de mim e correu, subindo apressadamente a escada. E bateu ruidosamente a porta atrás de si, ocultando-se, crendo ser tudo aquilo um sonho. Um pesadelo. Escapara.

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