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Francys Charlie
Estava frio, muito frio, e chuva que caia, respingando ruidosa e ricamente sobre o telhado, ocultava-se em parte na obscuridade. Eu podia ouvi-la, mas não a podia compreender. O que quero dizer com isso? Que esperava que a chuva me dissesse algo, que me oferecesse num sopro ou num sussurro uma iluminação, uma exortação, um conforto talvez. Havia me cansado das vozes humanas.

Tolice, não? Sim, sou tolo, e naquele dia por uma estranha razão era mais.

Em meu quarto, encontrava-me triste, os cotovelos apoiados na janela, a cabeça baixa entregue a pensamentos abstratos. Toda aquela vaga imagem gerava em mim, em meu interior, um amargor que me sufocava, mas sem razão aparente, como uma fobia, um pavor sem consistência, um medo tolo de criança. Abateu-me a vergonha de ter sentido vontade de chorar. Por que sentia vontade de chorar? Por que meus olhos de repente se tornaram úmidos e ameaçaram constranger-me? Uma lágrima quase me escapou e teria despencado se eu não tivesse arregalado os olhos e a esperado secar. Aprisionara-a entre as pestanas como um habilidoso equilibrista.

"Feliz dia dos finados", Carmen havia dito ao atravessar a porta, mas o fez com uma naturalidade assombrosa. Nada mais assombroso, pois como dizia vovó: pior do que a morte do homem inocente é a naturalidade daquele que o mata a marretadas.

A tristeza estava estampada em meu rosto como uma cicatriz, enfeiando-o. Voltá-lo para a porta foi uma insensatez. De qualquer modo, não estava mais sozinho no quarto, e por um minuto a sensação de estar só se desvaneceu completamente.

(Desculpem-me se pareço clichê, mas não confundam uma coisa com outra: estar só e sentir-se só.)

- Que bom que o encontrei! - Carmen disse, sorrindo. E minha alma se permitiu contagiar pelas suas palavras. Abraçamo-nos e eu senti o calor de seu corpo, o seu hálito, a maciez de sua blusa de lã azul. O seu ser me envolvia e nos fundíamos.

- Sinto saudades da mamãe - eu disse a ela, e não pude dizer muita coisa, como queria. Uma imensa bola de ar no peito asfixiou-me. - Desculpe não ter ido com você... - balbuciei. - Será que estamos sozinhos no universo?

De repente senti que a resposta para esta pergunta era "não"; tive a impressão de que havia vidas em outros planetas. Se há, eu não sei. No entanto, cochilei em seus braços e sonhei com seres iluminados de universos paralelos. Eram muitos, bonitos e alegres. Um riu-se por termos nos encontrado, mas depois de um tempo arregalou os seus olhos colossais e perguntou-me: - Será que estamos sozinhos no universo?

Sua pergunta atormentou-me e o meu sorriso se desfez. Senti-me só outra vez. Tinha que fazer uma nova viagem! Abandonei-o, como abandonara minha irmã, como minha mãe me abandonara. "Preciso encontrar Deus", disse a ele, acenando-lhe de um balão, subindo entre as nuvens. Precisava saber.

Encontrei Deus, sim, e divertimo-nos muito. Ele tinha um rosto iluminado, puro, altivo, mas um sorriso doce, infantil. Era uma tarde ensolarada. Passeamos de mãos dadas pelos jardins do paraíso.

Ele estendeu os seus longos braços dizendo:

- Isso é tudo o que existe!

E desta vez me senti só novamente, mas agora com uma solidão muito mais esmagadora do que as que sentira durante os anos anteriores. Certifiquei-me de que aquilo realmente era tudo o que havia, que existia, e de que não havia mais nada.

- Deus, estamos sós - eu disse, e chorei.

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