Escritas

O operário

Francys Charlie
Cheguei em casa demasiado tarde. Outra vez não pude subir ao quarto de meu filho. Quando o fizera pela última vez? Não sei. Bem verdade, havia muito que, por estar ocupado e fatigado, não podia dar-me o prazer de ir contemplar o seu rosto. As minhas pernas, doloridas, não foram capazes de subir as escadas, embora eu tenha me esforçado tentando dar um salto atrás de outro. O corpo, cambaleante, larga em algum momento o corrimão, despenca sobre os degraus e dorme, sempre. Acordei num susto, com baba escorrendo da boca. Havia sonhado novamente com a fábrica. Meu filho, por sua vez, não fora capaz de ficar acordado até tarde.

A vida é a mesma. A fábrica tem me exigido muito, como sempre. Ela é cruel, tão imutável quanto deus. Ou mais. O mercado no entanto cuida de nós, ainda que com sua aura vampiresca e nos roubando a alma com mãos fortes.

Certo dia encontrei um bilhete sobre a mesa. Pude lê-lo antes de dormir. Ou melhor, antes de cair no sono.

"Boa noite, papai", dizia o texto.

Meu coração ardeu, e depois de muito tempo não mais me senti uma máquina.

Era humano e um coração palpitava em meu peito. Ele mesmo, o estrangeiro, o segundo apêndice, que andava calado, mudo, tímido, rebelava-se.

"Passaram-se doze anos!", pensei aos prantos com uma tribulação desvairada, um tremor violento, febril. "Sim, sim. Num breve piscar de olhos. Doze anos! Dezoito horas diárias. Doze anos!"

Perguntei-me, admirando a sua porta, distante, elevada, com quem ele havia aprendido a escrever. Não fora comigo, certamente. Toda sua infância me escapou como água escorrendo entre os dedos. Só ali me espantei. Dei-me conta do que estava a perder e veio-me à memória o que eu tinha em mente ao planejar uma família. Pensei em subir ao seu quarto. Levantei-me, mas minhas costas estalaram. Estava exaurido, doente, sonolento, morto. Não pude vê-lo também. Desfaleci logo.

Caído ali, sonhei com ele pela primeira vez depois de muito tempo. Era todavia uma imagem pálida, informe, vazia, abstrata. "Ama-me?", perguntei-lhe no sonho, mas em seguida me lembrei de que não mais reconhecia a sua voz. Como então poderia responder-me? Falava e eu não o ouvia!

Como era meu filho? Como? Provavelmente possuía o mesmo rosto de outrora, só que um pouco mais amadurecido. Mas... também não o recordo! Que pai horrendo eu sou! Um monstro!

Eu e minha filosofia. Comer, dormir e trabalhar. Mais anos se passam. Voam com asas de aço. Comer, dormir e trabalhar. Mais coisas se perdem. Sofrer e trabalhar, trabalhar e sofrer.

Nada mais resta.

De repente numa noite, pouco depois de chegar em casa, ouvi o som de passos, o barulho da porta rangendo e um grito.

- Um ladrão! - parecemos gritar ao mesmo tempo.

Um jovem estranho apareceu pela porta e nos atracamos. Ambos estávamos assustadíssimos, trêmulos, com os olhos escancarados. Rolamos pelo chão da sala, ele com uma faca na mão. Eu segurei-o pelo pulso, ele esmurrou o meu rosto, rangendo, enforcando-me. Tentei imobilizá-lo. Nossos olhares se encontraram. Ele golpeou-me com o punho cerrado. E, então, urrando como um animal, tomei a faca de sua mão e... e... esfaqueei-o!

No peito, fatalmente.

Só mais tarde, passado o calor do momento, dei-me conta da tolice que havia feito.

Seu rosto, para meu espanto, parecia-se com o meu e sua tristeza refletia a minha.

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