Brincar de esconder
Francys Charlie
Mamãe estava estranha quando entrei correndo em seu quarto e a chamei para brincar. Havia uma palidez desesperada estampada em seu rosto, um ar demasiado sombrio em seus olhos, uma tristeza muda a gritar em seus lábios finos. A inocência infantil me cegava. Depois de abraçar seus joelhos e puxar sua saia com veemência, voltei o rosto para uma das paredes e contei até vinte. "... dezoito, dezenove, vinte" Corri os olhos pelo quarto e, imediatamente, encontrei-a atrás da cortina branca que cobria a janela. "Você não sabe se esconder", eu protestei, inflando as bochechas e enrugando o rosto. Ela não me respondeu nada, limitando-se a dar-me dois tapinhas nas costas e a meter o seu cigarro outra vez na boca. Como fumava naquela época! "A sua mamãe não está se sentindo bem", disse tia Hilda, segurando a minha mão e me ajudando a sair pela porta. "Ela precisa descansar", concluiu. Eu estava no quintal quando ouvi o disparo, seguido do voo assustado dos pássaros que se amontoavam no telhado, do choro de minha tia, do som da sirene da ambulância e do carro da polícia. Desde então nunca mais fui capaz de encontrar minha mãe. Ela vencera o jogo e o tem vencido desde então, para meu desapontamento.
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