Lista de Poemas

Decisão pulmonar

Coragem.
Inspiro coragem


                                       Para deixar
                                      Você ir.

Depois,
Expiro


                                      Como um
                                      Covarde.
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Feito Frase

O fusco do lusco-fusco
ofusca a face fútil 
da fera afunilada.

Feito força fraca,
feito faca forte,
feito fúria fagocitada.

Feito feito afeiçoado,
feito fino feixe,
feito fim fadado.

Feito enfado,
feito ficha,
feito finado.

Fato desfeito.

Fita?

Fado.
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Antonio

Vento que outrora semeou a vida.
Outro vento, sopro do morro santo.
Brecha que antecipou sua partida
Antes do ano entoar o último canto.
Imagens batidas de uma criança:
Xícaras, gaita, resmungo e cuidado.
Imagens de um homem e sua herança:
Nostalgia, afeto e amor imaculado.
Honestamente, vejo-te no vento
Olhando seu neto, um pouco enfadado.
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Como parar?

Seu rosto é a seda
que se estende, irretocável,
sobre o lusco-fusco
das montanhas azuis.

Meu rosto é espinha
e tristeza.

Seu corpo é Vênus
para além de Milo, calipígea,
mármore bronzeado
pelo atravessar do coração.

Meu corpo é gordura
empilhada.

-

Em gargalhadas e sorrisos,
esqueço que existo
e sinto-me feliz 
ao seu lado.

Entre olhares e silêncio,
desperto de súbito
e concebo, enfim,
nosso retrato:

és uma Helena,
e eu, um Nosferatu.
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O apelo

Atentam contra o próprio argumento
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.

De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?

Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?

Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?

Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?

Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, 
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.

Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! 
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.

Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.

Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.

Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?

Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?

Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
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Transmutação

Minha cabeça dói.
A vontade
transformou-se
em hemorragia.

Não há remédio.
A alegria
transformou-se
em letargia.
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Momento derradeiro

Com qual crueldade expiramos,
puxando o ar inalcançável,
segurando o intangível
e adentrando o impensável.

Gritamos ao corpo rígido,
mas ele nada responde,
tampouco esconde o medo
que o pensar corresponde.

Ó, fagulha sacra do oblívio,
arranca-me a anestesia,
deixai-me sentir o existir
e negociamos a anistia.

Não me lance à escuridão,
nas estrelas da eternidade,
no entredevorar-se do nada
sob o signo da saudade.

Minha mente embrumada
tateia a chave da memória,
não há lembrança que escape
do decompor-se da história. 

Não há mais nada, nem eu.
O estrebuchar orgânico
da engrenagem solta
em uma máquina sem mecânico.

Acabou-se a luz e o expediente,
fim do ciclo de produção,
transformou-se em mero reagente
de outra simples combustão.
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Quantitavivo

Dura vida.
A vida dura.
A vi durar.
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Sambo do dramático

Quando me olham
e me percebem
eu acendo as velas,
afasto a escuridão.

Caminho, leve,
Pois existo além
da minha própria
contravenção

em resistir,
em respirar,
em desejar
que alguém

descubra em minha imagem
uma vantagem qualquer,
um motivo simplório,
para manter-me ao lado,
vir ao meu velório.

E a insegurança
repousa aqui:
na alma de um
desajustado.

Não vou chorar,
pode ir,
já estou muito bem
acostumado.
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Hic et nunc

Meu coração tem percebido
a intrepidez deste covarde
que o empurra para o abismo
da própria negligência.

Minhas veias calibradas
pela pulsão da morte líquida:
hidráulico abandono de tudo
por uma esperança quase sólida.

Desmancha-se, sólida esperança.
Do pó que é feito sua materialidade
surgirão novas evidências
que justifiquem o ataque cardíaco.

Meus olhos quase fechados.
Tantas coisas que nunca olhei,
cego pela irrascibilidade comum
de quem se enlevou por um amor
inexistente.

Parei meu coração, voluntariamente.
A estupidez fulminou-me os sentidos.
Todos se voltaram para o hic et nunc
e ignoraram o corpo estirado no tempo.
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