O apelo

Atentam contra o próprio argumento
aqueles que dizem que Deus
intensifica-se na imagem da tragédia.

De um avião que sobrevoa para o abismo
há de se esperar que os ateus
estejam rezando para qualquer divindade, não é?

Primeiro: podes atestar que essa divindade
é a mesma do Santo Evangelho?
Não existe metafísica para além do cimo abraâmico?

Segundo: tu, cristão, se comprazes em saber
que tua fé é um frágil reflexo pueril
de uma criança que teme a exequibilidade do absurdo?

Terceiro: te deleitas no sofrimento de outrem?
Sabes o que significa amar o próximo
ou segues à Jesus por medo, como um cão aturdido?

Julgas com a certeza de um Rei entre Reis.
Amaldiçoas com o ímpeto de um profeta iluminado.
Pecas com a presunção de que fazes parte dos escolhidos.
Trazes o pior dos vivos e maldizes os mortos, 
desejando-lhes uma inexistência dolorosa, ardendo no mármore
dos prazeres ocultos das cabeças oprimidas e delirantes.

Excitas-te com a imagem do inferno?
Abusaste das existências mais pudicas deste planeta,
mas a saliva lhe verte os lábios quando gritas: - ímpio! 
Recortastes os versículos que convém ao teu jogo,
mas ignoras, com determinação, a máxima de Apocalipse.

Abutres. Se há uma lógica perfeitamente alinhada
e explicável neste mundo absurdo,
é a lógica dos abutres da teo-agonia falsamente teológica.

Não servem de exemplo para nada. Mas julgam.
Não sacrificam nem a borda da unha. Mas julgam.
Não leem integralmente um único livro sagrado. Mas julgam.

Te alegras com a morte de um ateu?
Excita-te com a imagem de um homem honesto, mas descrente,
sendo massacrado pela vileza dos demônios de fogo?

Para você, caro argumentador, não existe a possibilidade
de haver um céu conforme as Escrituras.
Teu paraíso é o sofrimento alheio. Onde haverá isso na Morada do Senhor?

Reflita, pelo amor ao teu dogma.
Pelo amor de Deus.
179 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.