Momento derradeiro

Com qual crueldade expiramos,
puxando o ar inalcançável,
segurando o intangível
e adentrando o impensável.

Gritamos ao corpo rígido,
mas ele nada responde,
tampouco esconde o medo
que o pensar corresponde.

Ó, fagulha sacra do oblívio,
arranca-me a anestesia,
deixai-me sentir o existir
e negociamos a anistia.

Não me lance à escuridão,
nas estrelas da eternidade,
no entredevorar-se do nada
sob o signo da saudade.

Minha mente embrumada
tateia a chave da memória,
não há lembrança que escape
do decompor-se da história. 

Não há mais nada, nem eu.
O estrebuchar orgânico
da engrenagem solta
em uma máquina sem mecânico.

Acabou-se a luz e o expediente,
fim do ciclo de produção,
transformou-se em mero reagente
de outra simples combustão.
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