Escritas

Lista de Poemas

Louco Normal



Aos poucos

vou deixando meu psiquiatra louco,

pela loucura dele, que ele mesmo trata;

pela loucura que vê que não tem cura,

e que muitos param no hospício;

pelo ofício ou mesmo pelo vício,

trata isso como virtude.

Ser louco ou não é coisa sã;

para vã filosofia, nada é em vão.

Importante é a loucura que cada qual assume,

e hoje para ser assim, enfim, a de ter atitude.

Eu, que tentei ser, mais do que pude,

um louco racional,

vi que a loucura de ser louco tanto ilude,

que não passei de um louco normal.
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Persona



Por achar que existe uma multidão em nós,

fico comigo a sós,

e essa multidão invade minha solidão.

Para não me sentir, totalmente, solitário,

encontro vários de mim,

e comigo estou eu: que sou meu maior adversário. Vejo vários assim,

com o mesmo perfil,

que são frutos mil,

que são meus próprios frutos.

Quando, simplesmente, me despacho,

num outro me acho.

Procuro um substituto

que fará parte de mim no futuro.

Mas, de todos que sou,

vejo que junto,

também, estou fazendo parte desse mesmo produto.

De todos, no fundo,

sou eu, somente, todo assunto,

sou eu, somente, todo mundo;

ou, mesmo, um indigente

no meio de tanta gente; enfim, absoluto.

Mesmo eu sendo um,

num todo, existe, ainda, algum.

Sem todos, sinto um Deus que se torna ateu;

de todos, dá nenhum,

pois de todos, sou mais eu.
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Cadáver



Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.

Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.

Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;

inverto as coisas de modo certo.

Fumo o cigarro apagado;

fumo o cigarro como se não tivesse fumado.

Vivo o futuro, pensando no passado;

durmo com a insônia na cabeça.

Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;

mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;

pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.

Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;

penso conforme esqueço.

Sou assim: a vida vai passando

e eu cultivando somente aquilo que colhi;

no mesmo compasso vou mudando os passos;

até meus próprios passos ultrapassando.

Não escolhi nascer;

e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;

ainda não sendo esta a vida que escolhi.

Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;

não deixaria de ser o ser que é do meu querer;

vivendo sem saber;

sabendo no fim,

que, enfim, serei sim, um defunto;

e, comigo, a vida levarei junto.

Então, eis a questão:

Ser ou não ser.

Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,

com o crânio da caveira na mão, pergunto:

_Ser e não ser,

mesmo um cadáver?

Cadáver até o fim,

pela vida inteira

De alguma forma,

isso nem seja ruim, .

para este, que parece que bem se conforma,

e, talvez, viva mesmo, melhor assim.

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Cabo de mim



Com as mãos, jogaste a semente;

assim fui crescendo normalmente.

Mas, como me plantaste,

depois, plantaste a minha destruição.

Cortando-me com o machado,

as mesmas mãos que têm me semeado;

cortando-me com o machado,

sem ter nenhuma escolha;

tirando todas minhas folhas,

todos os meus galhos;

foi tanto trabalho por nada.

Enfim, só não fui totalmente derrubada,

porque, sim, ficaram no solo minhas raízes.

O machado deixou em mim vários cortes:

sinais de cicatrizes.

Que como uma árvore morta

que suporta todos os desastres,

toda má fé e má sorte,

morri ainda de pé.

Sabendo que, da madeira,

farão machados e machados,

como esse mesmo que, ainda, me corta,

a ponto de fazer, também, eu cortar árvores inteiras.

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Tudo aquilo que calo



Vejo de maneira cega,

e tudo que vejo me cega dessa mesma maneira;

vendo, nos olhos, toda minha cegueira,

que não enxergo, por mais que eu mesmo veja;

ouvindo

o silêncio que vem vindo

de forma bem barulhenta;

que por mais absurdo que seja,

fico mais surdo,

pois cada vez mais o silêncio aumenta.

E, quando falo,

não deixo de estar calado;

deixando, também, falado,

que tudo que bem falo é tudo aquilo que calo;

ou, sobretudo,

digo, exatamente, tudo;

enfim, consigo responder,

mesmo ficando, totalmente, mudo.

Isso já é tudo que preciso para dizer.



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Acorda



Ando sem caminho, sou peregrino do destino.

Entre todos, estou mesmo sozinho;

no fundo encontro em todo mundo:

com todo mundo, defino.

Por mais que não pareça, sinto como um menino abandonado

que quer amor, carinho e mais cuidado,

até daqueles que me odeiam, sacaneiam, passando a mão pela minha cabeça.

Procurando, em todo lado, rumo certo na vida,

mas que acorda e vê somente rua sem saída;

fico parado para não pisar em campo minado.

Ando por essa estrada que parece não dar em nenhum lugar: chega a nada.

Como miragem, vem imagem de mar e de sereias,

e logo desaparece e começo a sentir nos pés, a areia.

Tento chegar ao morro, mas afundo.

Para onde corro? Pergunto.

No fundo, a areia é areia movediça;

começo a mover, mesmo com preguiça;

grito por socorro.

Queria que estivesse alguém comigo,

para morrermos juntos

e menor ser o perigo.

Desespero por ver que vou me unir a outros defuntos.

Por salvação espero.

Se fosse para estar morto,

bastava, antes, ser submetido ao aborto;

ou, invés de sexo, meu pai praticasse masturbação.

Perplexo, há confusão de pensamento.

Olho e, de repente, me aparece do nada, uma corda

na hora em que eu mais precisava de ajuda:

a mesma que Judas usou em seu enforcamento,

a mesma que tenta me arrancar do fundo do poço.

Penso que, depois de salvo,

possa ser, no mesmo momento, alvo:

já que estou com a corda no pescoço.





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Transfusão



Todo tempo que ocorre tem o tempo certo:

Tudo nasce tudo morre.

Como lá no deserto,

as areias tinham seu tempo determinado,

antes até de o relógio ser inventado,

para se tornarem ampulhetas.

Por favor, se tiver com tempo, leia;

desculpe se eu não chegar no final,

ainda tendo muito para escrever, afinal.

Não se zangue;

espero que possa entender:

Tempo de vida, também tem a caneta.

Mas poderia esperar um pouco mais,

que não seria demais.

Porque ser agora,

não em outra hora?

Mesmo se a velha tinta vermelha estiver fraca,

não importa;

irei pô-la na maca.

Encherei, por completo,

disso que já injeto

o tubo, também de sangue,

para não deixar que fique morta.
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Bananices



Eu não posso compreender a incompreensão do ser humano;

na verdade, a humanidade parece mais um engano.

Que grande parte gostaria de ser marciano;

mesmo não sabendo se existe vida em Marte.

Às vezes, prefiro crer que não estou acreditando;

em que não acredito nem mesmo vendo.

Que até tento achar que compreendo;

mas por tudo que venho conhecendo,

a realidade não passa de uma ilusão.

Assim, iludo com tudo; mesmo com a visão,

prefiro enxergar o mundo como cego.

Fico surdo por tanto que já escuto;

ou melhor falando, acharia que o mais certo seria que eu fosse mudo;

já que o que falo eu já calo;

e, mesmo que cante o galo, ainda nego.

Mesmo que ganhem o paraíso eterno,

mesmo sem ordem,

mordem o fruto,

e tornem o paraíso um inferno;

são os filhos, os frutos desse mesmo produto,

são substitutos,

a herdarem tanto o erro materno como, também, o erro paterno.

A viverem essa vida moderna,

que torna pior do que era

na era das cavernas.

E o homem e o macaco são vistos como farinha do mesmo saco

pela teoria da evolução;

por mais que a teoria pareça tolice,

e não queira, com o macaco, nenhuma comparação à raça humana;

por mais que, na prática, faça os homens, na vida, muita macaquice,

ou comam, também, bananas.

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Fases



Um dia, a Lua é cheia;

outro dia, é nova;

hoje, já é minguante;

amanhã, crescente.

Cada dia anda diferente;

antes fosse uma coisa somente.

Vive em fases,

não tem uma base.

Uma hora está gorda, ou magra;

outra hora dividida, ou inteira;

ou, então, bonita ou feia;

sempre está de uma maneira: de um jeito dorme; de outro, acorda.

E a gente a flagra,

toda vez, no céu, de uma forma.

Talvez, não se conforme;

não saiba o que quer.

Isso prova

mais até...

que não sabe direito quem na verdade é.

Assim, está a vida sua

como a da Lua,

mulher.
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Mesclado



Muitas vezes, o que falo não é escrito,

nem é escrito, tudo o que falo.

Muitas vezes, calo quando poderia ter dito,

mas por achar que deve ser dito, porém, calo.

Muitas vezes, sinto que minto

em tudo que sinto que acredito.

Já que não acredito que sinto,

mesmo sentindo que minto com toda sinceridade.

Muitas vezes, evito,

para evitar, como agora, todas as minhas necessidades,

que mesmo evitando, não evito nem por minha vontade

o que propriamente necessito.
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Daniela
Daniela
2023-03-03

Lindo