Escritas

Cadáver

diego ivan de souza adib


Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.

Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.

Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;

inverto as coisas de modo certo.

Fumo o cigarro apagado;

fumo o cigarro como se não tivesse fumado.

Vivo o futuro, pensando no passado;

durmo com a insônia na cabeça.

Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;

mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;

pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.

Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;

penso conforme esqueço.

Sou assim: a vida vai passando

e eu cultivando somente aquilo que colhi;

no mesmo compasso vou mudando os passos;

até meus próprios passos ultrapassando.

Não escolhi nascer;

e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;

ainda não sendo esta a vida que escolhi.

Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;

não deixaria de ser o ser que é do meu querer;

vivendo sem saber;

sabendo no fim,

que, enfim, serei sim, um defunto;

e, comigo, a vida levarei junto.

Então, eis a questão:

Ser ou não ser.

Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,

com o crânio da caveira na mão, pergunto:

_Ser e não ser,

mesmo um cadáver?

Cadáver até o fim,

pela vida inteira

De alguma forma,

isso nem seja ruim, .

para este, que parece que bem se conforma,

e, talvez, viva mesmo, melhor assim.

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Comentários (1)

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Joana Darc
Joana Darc
2020-01-10

Amo todos os poemas dele!