Lista de Poemas
Quadro da vida
Aquela imagem do poeta dentro do retrato
parece que fala, mesmo estando calado;
bem, também, me olha; mexe com eles parados.
Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede;
senta no sofá, deita na rede;
diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede.
Em seguida, me pede um café, e logo de pé,
tira do bolso um cigarro e um isqueiro;
no mesmo instante, o acende e começa a fumar.
Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça;
com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro,
coloca a mão num papel que estava sobre a mesa.
E, assim, do nada, como mágica,
faz aparecer, entre os dedos, uma caneta.
Escreve um poema que é uma beleza,
e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração;
faz alguns riscos e rabiscos,
e algumas caretas que não trazem nenhum medo.
Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante,
sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde,
fica, quem diria, dando risada.
Desconsolado, dá uma olhada para o lado;
de um jeito torto, com toda prática e aprendizado,
tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto.
Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro
sua imagem,
dando margem que nasceu de novo.
Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração,
para ter de volta a fama, caiu na graça do povo,
e o povo, como ama, o pôs na crucificação.
Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito,
mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito.
Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida,
mesmo pregado, agia em forma de poesia;
como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego,
que continua vivenciado.
Enfim, vós vedes
que até assim és um poeta imortal,
e, de repente, somente, voltastes, afinal,
ao quadro da parede.
👁️ 448
Polícia
Parece que passou, apenas, um segundo;
pois, lembro
das nossas primeiras férias de dezembro.
No fundo, éramos tão crianças;
mas guardo na lembrança,
aquela vez...
Misturando coragem com timidez,
arrependo só de uma coisa que a gente não fez;
que, de repente, foi a única, talvez,
de cada roubar do outro um beijo.
Mesmo com o desejo, tivemos medo;
porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.
Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,
estávamos, assim, do nada,
de mãos dadas.
E logo me veio à pergunta:
O que fazer estando nossas mãos juntas?
E continuando juntas nossas mãos,
como resposta, me levou para a varanda.
Assim, rodou-me feito pião;
e, ali, já depois, estávamos nós dois,
brincando de ciranda.
Por isso digo a importância
da infância;
porque vejo que, naquela época,
não tínhamos nenhuma malícia.
Pensava (não com essa mesma ignorância):
Se eu lhe roubasse apenas um beijo,
poderia você chamar a polícia?
👁️ 671
Music Match
Anjos não tocam banjos, mas sim harpas douradas.
No céu, tão modesto, está Deus com a batuta,
comandando com muita luta
a orquestra, para ficar bem afinada.
Com o diabo, em disputa com o Criador,
fazendo um barulho infernal.
Assim, o céu todo em festa,
como evento musical,
promove um festival.
Deus inova com um coral,
uma música que, além de calma,
dá para sentir na alma.
Todos ouvem como se fosse uma seresta,
aquele canto de louvor.
Lúcifer, com integrantes da banda
que traziam: guitarra elétrica, contrabaixo, teclado e bateria,
apresenta-se no vocal.
Enfim, como cantor,
sem que impressione a maioria,
testa o microfone
e começa, após a melodia,
ao som de um Rock& Roll totalmente radical.
A platéia acostumada a dançar ciranda,
como torcida, na hora do gol,
festejou muito naquela ocasião;
fez uma confusão;
mais parecia carnaval.
Talvez, pela mudança,
pelo escarcéu em geral,
até o Pai Celestial entrou na dança.
Mas depois que a música chegou ao fim,
tudo voltou ao normal.
Entre o som da trombeta,
anunciou o querubim, que o vencedor
não era ninguém mais do que o próprio capeta.
Humildemente, o Altíssimo entregou-lhe o troféu
e, por favor, pediu discretamente,
que não mais volte a cantar no céu.
👁️ 412
Vice- Versa
Não há mundo todo sem todo mundo.
Não há, na verdade, mentira sem a mentira na verdade.
Não há felicidade eterna sem a eterna felicidade.
Não há, no fundo, ninguém sem ninguém no fundo.
👁️ 555
Pintura
Vejo água saindo de dentro da pintura em que havia uma cachoeira;
e aí, para desligá-la, tive que, rápido, desenhar uma torneira.
E a bananeira com cachos de bananas verdes;
por não verdes que, com o tempo, já estavam maduras; acabou quando pintei um macaco.
Uma criança com os braços levantados
que, depois, já era um homem até com cabelos no sovaco.
Com muita coisa no quadro que eu havia pintado,
abri a janela para entrar na casa o vento;
no momento,
o fogo que existia na moldura, estava apagado.
Até o Cristo crucificado
já tinha ressuscitado,
e sumia até a cruz.
As estrelas viraram estrelas cadentes.
O bebê já criava dente.
A noite vinha para o Sol perder a luz.
O pintinho cantava de galo.
A Lua cheia estava minguante.
E o cavaquinho virava violão.
A água da cachoeira descia pelo ralo;
e a chuva enchia, de novo, a cachoeira num instante.
Mudava de cor o camaleão.
Não tinha nem mais perfume no frasco,
e o gambá voltava a cheirar mal.
A tartaruga escondia dentro do casco.
E o menino que antes lia, estava com o livro fechado,
porque leu até o final.
O pássaro tinha fugido, levando junto à gaiola;
Os meninos que brincavam de bolinha de gude,
já estavam jogando bola.
Com bastante sede, a baleia fazia o mar virar açude.
Era azul o canário que eu havia pintado de amarelo.
Como eu não tinha pregos e nem martelo,
desenhei, atrás da parede, um pouco de cola;
para que, ali, pelo menos, o quadro grude.
👁️ 579
Acorda
Ando sem caminho, sou peregrino do destino.
Entre todos, estou mesmo sozinho;
no fundo encontro em todo mundo:
com todo mundo, defino.
Por mais que não pareça, sinto como um menino abandonado
que quer amor, carinho e mais cuidado,
até daqueles que me odeiam, sacaneiam, passando a mão pela minha cabeça.
Procurando, em todo lado, rumo certo na vida,
mas que acorda e vê somente rua sem saída;
fico parado para não pisar em campo minado.
Ando por essa estrada que parece não dar em nenhum lugar: chega a nada.
Como miragem, vem imagem de mar e de sereias,
e logo desaparece e começo a sentir nos pés, a areia.
Tento chegar ao morro, mas afundo.
Para onde corro? Pergunto.
No fundo, a areia é areia movediça;
começo a mover, mesmo com preguiça;
grito por socorro.
Queria que estivesse alguém comigo,
para morrermos juntos
e menor ser o perigo.
Desespero por ver que vou me unir a outros defuntos.
Por salvação espero.
Se fosse para estar morto,
bastava, antes, ser submetido ao aborto;
ou, invés de sexo, meu pai praticasse masturbação.
Perplexo, há confusão de pensamento.
Olho e, de repente, me aparece do nada, uma corda
na hora em que eu mais precisava de ajuda:
a mesma que Judas usou em seu enforcamento,
a mesma que tenta me arrancar do fundo do poço.
Penso que, depois de salvo,
possa ser, no mesmo momento, alvo:
já que estou com a corda no pescoço.
👁️ 453
Fases
Um dia, a Lua é cheia;
outro dia, é nova;
hoje, já é minguante;
amanhã, crescente.
Cada dia anda diferente;
antes fosse uma coisa somente.
Vive em fases,
não tem uma base.
Uma hora está gorda, ou magra;
outra hora dividida, ou inteira;
ou, então, bonita ou feia;
sempre está de uma maneira: de um jeito dorme; de outro, acorda.
E a gente a flagra,
toda vez, no céu, de uma forma.
Talvez, não se conforme;
não saiba o que quer.
Isso prova
mais até...
que não sabe direito quem na verdade é.
Assim, está a vida sua
como a da Lua,
mulher.
👁️ 445
Persona
Por achar que existe uma multidão em nós,
fico comigo a sós,
e essa multidão invade minha solidão.
Para não me sentir, totalmente, solitário,
encontro vários de mim,
e comigo estou eu: que sou meu maior adversário. Vejo vários assim,
com o mesmo perfil,
que são frutos mil,
que são meus próprios frutos.
Quando, simplesmente, me despacho,
num outro me acho.
Procuro um substituto
que fará parte de mim no futuro.
Mas, de todos que sou,
vejo que junto,
também, estou fazendo parte desse mesmo produto.
De todos, no fundo,
sou eu, somente, todo assunto,
sou eu, somente, todo mundo;
ou, mesmo, um indigente
no meio de tanta gente; enfim, absoluto.
Mesmo eu sendo um,
num todo, existe, ainda, algum.
Sem todos, sinto um Deus que se torna ateu;
de todos, dá nenhum,
pois de todos, sou mais eu.
👁️ 477
Mesclado
Muitas vezes, o que falo não é escrito,
nem é escrito, tudo o que falo.
Muitas vezes, calo quando poderia ter dito,
mas por achar que deve ser dito, porém, calo.
Muitas vezes, sinto que minto
em tudo que sinto que acredito.
Já que não acredito que sinto,
mesmo sentindo que minto com toda sinceridade.
Muitas vezes, evito,
para evitar, como agora, todas as minhas necessidades,
que mesmo evitando, não evito nem por minha vontade
o que propriamente necessito.
👁️ 439
Van Filosofia
Prefiro que me prenda no calabouço,
arranque minha cabeça
e deixe intacto o meu pescoço. Mesmo que alguém aconselhe, ou não queira que, nele, eu me espelhe;
ou ainda que, em nós, nada se pareça,
pela dúvida, quem sabe, o improvável aconteça,
de forma inimaginável obedeça
em fazer nossa vida 'correr parelha'.
Assim como "Van Gogh", por mais incabível, eu pense em cortar minha orelha minuto a minuto,
ou algo que, talvez, se assemelhe,
por tanto absurdo que ouço,
pois, era preferível estar surdo.
De tudo, um pouco; tenho um pouco de tudo.
Louco, não por falta de estudo,
já que estudo feito louco.
Prefiro ser mudo para melhor ser compreendido;
e, quando não sou compreendido, ai é que mudo.
Iludo, por sentir também, muitas vezes, tão desiludido;
atrevo a escrever, não porque escrevo e nem por ser atrevido.
Escrevo não só pelo dever, mas porque devo deixar escrito;
não posso isso evitar, nem pelo que já evito.
Mas isso parece ser um compromisso irrecusável;
até quando recuso, uso e abuso de maneira inevitável.
Mesmo se tolero, eu não espero tolerar, pelo tanto que já espero.
Mesmo se tolero, não espero tolerar de modo tão tolerável.
Então, prefiro evitar, também, o preferível
e fazer o impossível ser possível,
por mais que eu veja que isso impossível seja;
vendo que é possível, pois acredito até no inacreditável.
Sonho mesmo acordado; acordo como tenho sonhado,
de olhos fechados, imagino-me de olhos abertos.
Certo estou que estou errado, decerto, com o erro acerto;
fazendo o certo, mesmo nas vezes em que, raramente, tenho acertado;
pois até estando errado deixo acertado
que, mesmo fazendo o certo, não acerto, decerto.
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