Lista de Poemas

Longe e Sozinha

Tu és assim, uma coisa estranha, uma ausência
um tempo de espera
Uma hora dentro dos minutos
 Tantas coisas que me faltam, tantas que eu não tenho.
O pássaro não quer cantar sozinho
A minha alma não é só minha,
a minha casa é uma rua
Hoje eu dei a mão a alguém dentro de mim,
Alguém que estava longe e sozinha
 
Charles Burck
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Revelação

Vem sentar-se comigo onde os mares desaguam
Como pequenos pirilampos ajeitamos um na parca luz do outro,
Aquieta-te nas minhas insônias, nos cansaços das tardes mornas,
Não desassossegue o tempo, nem o meu coração alquebrado
Nem cante tão alto que o sangue ferva,
Beba os sabores das quietudes da alma que se alonga em meus braços,
É da natureza dos pássaros os voos, mas as penas dos amantes constroem asas em leitos de flores,
Estrelas duplas de vidas secreta a burilar os sentimentos,
A criarem outros leitos de mares entre os nós dos dedos,
Nas ondas que levam a morte para terras distantes,
Os consanguíneos beijos descrevem o que temos, mas não revelam o que somos,
E tu és o meu divino apelo de poemas,
 Palavras nunca ditas pelas bocas dos deuses, apenas a minha te reconhece,
Revelados segredos ditos apenas aos teus ouvidos
 
 
Charles Burck
 
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À noite

Todos querem certezas, mas nem das estrelas se pode esperar o dia seguinte,
Às primeiras necessidades te chamo, quando eu não via as árvores, folhas pelo chão, nem as calçadas,
Os residentes são fachadas, só era possível ver as metades das faces
Os olhos deram um apagão total, a vida se assusta com a vida quando a vida se torna irreconhecível,
 A geografia do quotidiano desaparece
 Guiamo-nos tateando as placas sem nomes, as ruas sem nomes, as pessoas sem nomes
Os cruzamentos não são referências visíveis e para além de nós, para além destas paragens as estrelas se escondem, os céus consomem os néons, os sóbrios consomem os bares,
As cidades são perigosas no escuro, os samaritanos soturnos perdem a claridade,
Todos são suspeitos nas sombras
       Regresso à noite, e por entre as esquinas perambulam todas as indefinições e incertezas, antecipadas angustias nas
terras dos mil arrependimentos, dos homens sitiados no purgatório recente,
Quando as luzes se acendem há mariposas em fugas, e eu ainda procuro por ti entre as estrelas...
 
 
 
Charles Burck
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O velho sol

Pôs fogo na noite e foi dormir na cama gelada, 
Olha para mim: estou nua. 
Finjo inquietudes para controlar o sorriso 
Deixo descobertos os cabelos 
como se pudesse salvá-los da chuva 
Pare de repetir palavras, sem elas
Crescemos à beira do caminho
sementes sem donos, sem compromissos 
ervas lacônicas
a dona dos corações imagina por que os sonhos murcham de forma tão fácil
Sento-me na cadeira vermelha incendiada, 
O velho sol já não responde 
Tudo ocupado, todos condenados
Tudo dentro e tão fora de lugar

Charles Burck
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Estou nua

Sangro leite morno na pele cálida,
A crisalida não voa entre as pétalas, mas as flores crescem entre as borboletas nos olhos divinatórios dela
Da inquieta inocência transpassada,
a languidez da cabeleira, a tênue variação da tensão nas pontas dos pés, a dança excitada
Nem toda magreza amarga
De açúcar e corantes a carne pálida se entranha nas lisuras das garras.
O vermelho não sangra e a alma tece uma teia de azul em tons de rendas
A agulha não salva a veia,
Mas coração bombeia o puro sangue para fora da casa
Estou nua e sangro sempre, estou nua e amo sempre,
O peito em contato direto haverá de estar de frente ao teu
As ancas redondas e os joelhos quadrados,
Se articulam para proverem o leito,
Estou nua, deitada na banheira branca, está amanhecendo e eu virando manhã
Se quiseres amar de novo, deitarei as costas sobre a terra
Até que me cuides como semente e frutos,
Estou nua, como luz e elementos,
galhos e raízes, nua de tudo, toda tua
como a flor ao vento
 
Charles Burck
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A virgem não sangra

Faz tempo que os teus cabelos mudaram de cor
E os silêncios deixaram de habitar a casa tua
Caímos dos despenhadeiros da falta de sintonia
e não há sorriso que nos salve.
dos nossos humanos sobressaltos
A virgem do retrato em preto e branco, sorri
Não condiz como o ardor da dor
O jorro não se detém, mas o sangue nem sangra em vermelho
Nada se converte à madruga, o sol chegou antes
o Mundo não merece o fim do mundo
E o dia nem acabou
 
 
 
Charles Burck
 

 

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As papoulas incendiarias

Tínhamos a mesma ocupação
E a opção ao riso, mas tomamos as armas
Com os sonhos que libertávamos as noites para que as sementes florescessem,

Os clarões vermelhos espocavam primaveras,
Viver era agir, sonhar, seria o depois

Era a irremediável crença que se pode destruir apenas o que nos incomoda por fora
Mas a verdade dita, é que, o que nos incomoda vive em nós, dentro

Mas a liberdade está em ser livre,
Sendo absoluto o poder de sonhar

E nós esperávamos a grande primavera florir
E sonhávamos com as papoulas vermelhas,
O campo vasto de colheitas boas,
Mas o vermelho é o que banha o rio
E carrega mais sangue do que flores
A primavera suicida,
As papoulas incendiarias
Mataram os sonhos
 

 
Charles Burck
👁️ 24

Abandono

A poesia continua viva, sempre presente: 
 Às vezes apenas palavras vazias
 O verso comprimido no peito, estranha
e ultimamente cada vez mais no silêncio
mas eu não deixo diante dele os meus constrangimentos
As vozes nunca se calam, e
abertamente oferecem-me todos os tipos de desafios,
o corpo desassociado do todos, a alma sentidamente repousada no telhado,
os vícios, a paixão como hábito,
e tantos outros obstáculos
o abandono, a fraqueza de não te ver mais uma vez
 
Charles Burck
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Flor

O anjo de pênis ereto limpa o campo
Em terras improprias
E onde havia só ervas mortas,
Nasceu uma vulva.

Charles Burck
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Um porto no caos

Eu sou o porto do caos, em meio a mares revoltos
As milícias se calam ao ouvir os ventos
Serão os argumentos de Deus, neste momento?
Quem é que me fala pelas lembranças?
Que seja santo o teu nome, mas eu não te amo tano a ponto de entregar a minha alma
Há um inferno dos vivos e um inferno dos mortos, apenas um muro os separa, caído de branco
Onde alguma coisa pode existir
Planto uma semente de abobora,
No pé do muro caído de branco
é arriscado e nos impõe atenção redobrada, é compreender o inferno dentro de nós
mas nas primeiras floradas os mortos agradecem
 

Charles Burck
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