Lista de Poemas

“Não sei”

Por que a minha voz se recusa a crescer e passeia entre os campos dos ventos de longe e a impressão dos teus olhos
E alguma flor que comece a crescer antes do nascer do sol,
Por que desnudei-me no centro da praça, sem bens algum
Se a noção do tempo,
Numa pobreza revestida de luz opaca e mãos mais vazias do nada
Há mais de cem anos de solidão nos meus poemas,
E essa busca constante é o único bem que possuo
Semanas após semanas o que hei de ter, perguntou-me o homem ilhado
E eu respondi sem lhe olhar nos olhos 
“Não sei”

 Charles Burck 
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As mesmas faces

As mulheres pareciam ter os mesmos rostos,
Todas irmãs de um poema,
As mãos dispostas num aceno e o sentido de que tudo é comum,
Mas comum é a ausência medida sob a pele
A falta que faz um epilogo a adiar o término
Redemoinho sem vento, ilações que as emoções nasceram agora
Mas faz tempo que observo os rostos,
Os elementos do tempo dispostos em teus olhos
Como se tudo estivesse parado, à espera do choro

 Charles Burck 

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As borboletas


E se eu e ela tivéssemos vidas como as borboletas eu voaria com ela, por sobre os mares que cantamos em poemas,
e se eu pudesse escolher, abriria mão dos ventos, para viver eternidades pousado no peito dela
E borboleta não seria mais, porque as minhas asas atrofiariam,

e se pudesse escolher ainda mais onde morrer, abrira mão do mar, porque deitado sobre ela eu teria os mares todos,
e as vidas todas para ouvi-la marear os mares que deixei

E seria eu apenas felicidade a formar redemoinhos, mansos à volta dela

E se as borboletas soubessem de nós viriam também abrir mãos dos voos,
E pousariam sobre o peito dela
E saberiam todas como é, estando sobre o amor, amar

 

 CHARLES BURCK
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Um único mar

Apenas se atreva a sorrir de novo, a
Solução salina articulando o amor
Você me ouviu nascer, e eu a fiz dizível,
Um adoçado sal, um azul no campo
Um tanto de lápis de cores conjurando
Azul beirando azul
Um único mar

 Charles Burck
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O amor

O amor comeu o meu céu e a minha terra
Minha paz, a minha guerra e a minha alma.
Deu-me um dia de calma,
De noite, voltou

Charles Burck
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Bar paraíso

Tinha um bar no inferno, onde serviam absinto e enxofre, e o teu nome escrito no copo, faiscava
Então quando me chamas, por que o fazes?
Dói-me saber que escolhi ser livre no meio da tempestade
A liberdade não tem gravidade, gira solta assim, trança teias sem precisar das moscas,
Ri das minhas escolhas, ri de mim
É o feto ri do gênio, das loucuras do mar, do fio de seda, do homem que pintou a cara de palhaço
Eu perdi o senso de direção, os pingos de chuva me orientam pelo chão, temos fortes laços sim, ligaduras entre flores e raízes
Sou um bêbado afogado nas enxurradas, nos litros de sol, com um cordão no pescoço atado a ti,
As bandas do céu tocam Everybody's Coming To My House
Já bebi muito a tua falta, essa essência sofrida é uma armadilha de amor
Mas quem vai limpar o chão depois que tu passas?
As abstinências que chutam os baldes, os sopros de desafogos, as pétalas arrancadas ao peito, aos bocados
Todo dia rego os canteiros com esse novo sentido de alucinação
Estamos cheios um do outro, cheios, no bom ou no mau sentido
Prefiro hoje tocar à noite, a minha canção preferida, do que sentir a vida, à dor de arder a noite toda sem solução
O cheiro de anis é fatal, apenas o humor é uma ameaça à inteligência, eu sempre fui burro de fato, um animal comendo no teu quintal
Sinto o cheiro da dor no final da rua, entre as ervas daninhas
Sinto cheiro de ti,
Sinto muito

Charles Burck 
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As linhas da tua face

Colhemos sóis nas videiras carmins,
O sorriso ardendo e o dorso queimando
Beberei na tua boca o sabor dos vinhos das plantas,
E dialogarei com as pedras e as curvas mansas dos rios
Onde o espirito comece a florir antes de fazer amor
E as linhas da tua face se moverão em um sorriso
As madeixas incendiadas e o coração que pulsa
Açucares e branduras, mas a vida é dura
E me fará sentir o peso da tua vida sobre mim, e ainda assim os corpos se ajeitarão aos transtornos
E a carne elaborará os sons do amor,
A inspiração se distrairá num poema longo
E a cama transbordando, se perderá deste mundo

Charles Burck

 

 
 
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Amor e fermento

Minha avó dizia: Que para amar não precisa talento, só açúcar e fermento nas doses certas.

Charles Burck
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Logo Ali

Morrer é como ir dar um passeio, no outro lado do mundo
Um lugar desconhecido, de onde viemos antes

Charles Burck

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Perdidos Oceanos

Sento-me à mesa. Porque é de ti o alimento, a agua e o sal marinho
Os gestos da verdade, a erva e a estrela plantadas no mesmo caule
O que me vem em ondas
Onde tentei dormir na embriagues do coração faminto
O navegante de velas sonoras fazendo cantigas de mar e lamentos
Sem rotas de fugas, entregue as palavras corroendo a minha língua oceânica
Aumentando a capacidade de suportar o sol nas costas, e iludir os ventos
E diluir o tempo nas mais puras imagens
Eu que apelei à cegueira para ver com mais perfeição
Aceno com alguma recordação do tato, à ciência das perdidas coisas,
Ao que me entrego, a razão do meu espirito teima em insuflar o fogo com pólvora e resina
Sobre o peso lúdico hasteando bandeiras do amor no mar
Onde apenas na imensidão do nada se deixa ver,
Eu, um único barco a percorrer a linha do destino
Sem horizontes, sem timão, só e sem carta de navegar

Charles Burck

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