Lista de Poemas
Chá quente
Estou sentada na cozinha, enquanto o chá ferve.
Amo as coisas concretas e as arbitrárias
O açúcar mascavo me dói o dente
Descobri a tua presença em pequenos goles de arnica
E chá de cidreira
Os desconfortos dos nomes, proibi
Mas ainda me sentam ao colo, como filho ilegítimo
As bolsas de plástico, o rio azul, o vizinho ao lado dança bolero
Um assunto encerrado sem alongar as vistas já tão exaustas de esperas
Desperto do meu amor sob a chuva na calçada, os biquinis nas ruas amis profundas
Os supermercados apostam nos dias mais quentes
Vendem amores frescos em compotas,
um vinho amigo,
O meu amor é lânguido e necessário
Eu falei das coisas concretas, mas não minto, fiz uma estatueta cimentada com frisos dourados e carmim
Eu olho para ela, e ela olha para mim,
Por hoje é o que me basta para fugir às incertezas
Charles Burck
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Dialeto
Em qual dimensão se revela o homem?
coração é uma cantiga reinventada a cada momento
Um trepadeira que sobe ao céu
A luz que nos resgata o fundo do poço
Pertencimentos em seu quadro de aviso, o tempo revelando seus canteiros,
As sementeiras de flor que geradas sozinhas foram juntadas sobre os teus seios
Defino um código alternativo:
alheio às palavrassem adereços às palavras
Onde a língua do amor desbaste o desejo de dizer qualquer coisa
uma linguagem associada aos sentimentos
Com um sentido introdutório
Numa não condenação à memória,
Uma trincheira de flores aberta ao amigo, com cama, café e bolo
Um dialeto mudo de abraços infindos
uma fonte única de beijos concebida para dar eterno prazer
Cheia de fonemas de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso.
O portal quântico aberto ao que foi proibido
Uma prosa póetica de pagar as promessas que eu te fiz
Charles Burck
👁️ 100
O grande ventre
Amar é como se iluminar na escuridão,
Um decalque nos ossos com o nome de alguém
A tatear o bem-amado até um abraço cheio
até ao mais fundo da alma
Desenhando palavras no ar
Faz tempo que o tempo não me visita
Recuperando no tempo o que se perdeu
Mil vezes o espontâneo sorriso dizendo
oculto em cada eco que se soletra, um gesto de amor
Escrevendo mil vezes eu te amo, até esfolar os dedos
Tudo está fora e tudo está dentro, como o coração em um grande ventre
O homem parindo a mulher e a mulher dando vida ao homem
Charles Burck
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Velhas e novas primaveras
O amor é como a jovem que quer a virgindade eterna
mas que dorme nua
A eternidade exposta, entregue aos argumentos do tempo
Não existe pureza absoluta, nem pecado mortal
As floradas vingam como mato entre as pernas esquecidas das velhas senhoras
O diabo mora na estação ao lado
Precavenho-me e salto antes,
A Moça virgem salta uma estação depois
Deus é parceiro e o diabo aventureiro,
A moça geme a primavera recém-chegada
A canção lamentosa exposta na janela, por onde o amor passou
Das velhas senhoras que o cantam, agoniadas
Quanto poetas saltaram na estação errada
E são vistos a vaguearem pelos vales colhendo flores mortas
Fazendo poemas dizendo do que nunca praticaram
Charles Burck
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Ferida Limpa
Estar morto sem limpar a ferida seria, de fato, muito pior
O gato olha o pombo, olhos atravessados e estáticos
Há hábitos tão antigos quanto a vida
A religião e a heresia
A fidelidade e a bigamia,
O amor de um, os de dois, os de muitos
As crianças fazem fotos dos casais, as esposas atentas se desviam dos beijos
Em algum tempo os amantes haverão de voltar e se amarem mais vezes
Hoje os pombos comem arroz e os gatos passam fome,
A fome dos ingratos tingindo muros, quintais e igrejas,
As sonoridades de alguns nomes passeiam no parque em dia de sol
Alguns anjos deixam o pombal
Os amimais no cio zombam dos homens
Há muitas mulheres da minha infância nas minhas lembranças
As que cuidaram, as que tinham fome, gulas maiores que a pança,
Outras fomes maiores, as que desciam abaixo do nível dos olhos
Que por vezes gozaram outras sangraram
Sou arredio a deixar os poemas sem finais
Não há normalidades nos dias de finados
Falo coisas estranhas, mas nada eu estranho
Há dias em que tudo parece que finda,
Mas estes dias são dias comuns
Charles Burck
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Destino Certo
Os parasitas artificiais são mais densos do que se pensa
Coabitam a morte e se alimentam das sobras
Mas a cura se reveste de cores quentes,
Do que desenluta o coração
Veste o infinito e me cobre de asas longas do sempre
E se alguém contar essa história depois,
Lembra a esse alguém do que foi além
O destino certo do amor que se reza, é o coração
Charles Burck
👁️ 106
A escrita
A escrita é a morte interminável, a vida sugando o oxigênio, a atmosfera submersa, o lugar onde o corpo dança, jazz, os pés longe do chão
O gozo antecipando o sexo, os ingênuos mitos das línguas mortas,
A ponta tão perto da entrada, e o perfume das flores exalando a solidão que me chama
Estou diante da porta entre as cortinas dos dias e a fábula da pele
As mãos ocupadas tendo a ferver na gramatica de dentro
A escrita é o único corpo, medíocre é o amor que pensa tudo saber
O sangue adulto pulsa na gramática. Escrevo explicitamente e o sensualidade lê bem dentro dos olhos, de baixo para cima de fora para dentro
No meio da frase escrevo, o olho virado pró sol e os astros gemem tentando o usufruir da carne quente e dos contornos das intermináveis das linhas do amor
Charles Burck
👁️ 163
Marginal
Sou marginal a contar os dias
no mundo das palavras tenho abrigos,
Rosa posta ao colo a exalar distâncias
Escrevo no escuro infindável e quente a contornar a carne improvável
Só possuo um único rosto que a saudade cobra
Contornos buscados à face, universos dissolvidos na necrologia ameaçadora da contínua erosão.
Tenho a escrita e a escrita é o corpo que tenho
Preciso resumir a minha inutilidade no mundo, tecer a raiz do anonimato
Um lugar meu na pátria dos vivos,
Um poema não mais à deriva,
Não mais um delírio exposto à própria solidão.
Charles Burck
👁️ 123
Estranha e delicada
Uma saudade é quase uma coisa inteira, mas falta um pedaço
Um amor mais ou menos
Uma borboleta insegura que pode se desfazer nas mãos
Muitas vezes senti-me assim
Uma foto de flor onde nada acontece
Vejo-te todos os dias sem ver-te
Cumprimento as flores, e os jardins nunca respondem,
E as rosas florescem para desaparecerem antes
Discretas e solenes
Elas não morrem, mas eu as velo mesmo assim,
mas nunca consigo despir os seus corpos.
mas nunca consigo despir os seus corpos.
Sensatas criaturas, que não querem ser coisas limitadas,
como simples registros do nada, coisas delicadas que não podem ser tocadas, se não morrem
Perfumes em troca do ar, oxigênios de sonhos
absorvidos pelos que amam,
Talvez almas de um outro mundo
Um pedido de desculpas
Que se vão, mas não levam tudo
Charles Burck
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Duas noites seguidas
A saudade no silencio, o vermelho véu nos dias cinzas
São dias que voltam,
Duas noites seguidas,
Mas os beijos jamais se assemelham
Por isso desejamos, esperamos que as bocas digam
Beija, beija-me
Charles Burck
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