Escritas

Lista de Poemas

À guisa de prólogo e admoestações acerca da gesta humana e sua cristalina história

dar-se-á como infanta
a vida que se leva
ao início de uma gesta
que a todos encerra
assim como um conto
que se esqueceu na memória
de todos os contrapontos
à contraluz da história
 
dar-se-á como querência
a mínima contrafação
de quem se isenta em medo
dos gostos da multidão
é que o amor é trejeito
de tudo que a vida faz
é assim como um respeito
àquilo que a gente traz
 
dar-se-á como enredo
que a nuvem nem dizia
é que sobrava do tempo
dos ventos que trazia
o alvoroço exato de cada dia
as horas nem se contavam
nos minutos que seguia
aos homens apenas restava
viver sua agonia
 
dar-se-á como bruta
a rosa infante da vida
que teima em ser desregrada
apesar de tão contida
pois que pulula no peito
como uma rosa amarga
que finge ser de sorrisos
o drama que arremata
 
e o tempero da vida
era um tricô complicado
o tempo fazia fila
com espaços desgarrados
como se fosse um futuro
a inventar um passado
 
é que jogada no tempo
no descampado do mundo
sua lógica é o enredo
de um teatro profundo
que joga a cena da vida
que se aninha nas calçadas
como se a alma do homem
fosse um pedaço do nada
 
é que caminho avulso
aparentemente à vontade
a vida teima em ficar
ancorada pelas tardes
em que os dias dos homens
apesar das verdades
espancam a eficácia
de quem vive a liberdade
 
e, assim, presa ao espaço
de um universo caduco
joga-se pelos peitos
como se fosse um discurso
em que as palavras são verbos
do mais estranho uso
servem apenas ao teatro
dos paradigmas do lucro.
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De onde se apresenta Nicodemus Hazalaia, feitor de si mesmo, e as raízes do seu sonho

Nicodemus Hazalaia
entrante aqui em romance
diga assim pelos gestos 
o que lhe fez tão avante
pra que tivesse num sonho
as razões desse instante
que espalhou sua razão
nos ombros do levante?
 
e assim falou Nicodemus
de Hazalaia sobrenome:
“com a força da natureza
e os pendores de homem
quis o sonho de repente
escrever-se em minha fronte
como uma resposta da vida
que tramita no horizonte
e eu descendo do sono
montei o sono apressado
e caminhei pelos tempos
como um incauto cavalo
que galopasse a vida
com a força dos seus saltos.”
 
mas que fazias no sono
assim desembestado
pra que pudesse a vida
ter tamanho sobressalto?
 
“é que dormia apressado
num tempo assim comprimido
que descontava a madrugada
dos tempos já vividos
e inventava uma noite
enviesada nos sentidos
que via, ria e chorava
nos tamanhos do infinito
 
e eu descendo as ladeiras
de ruas que nem sentia
eu vi os bairros de gente
que não cobram serventia
e vi  favores que o tempo
aos poucos subtraía
de suas carnes incautas
de suas mentes vazias
como se fora usina
de fabricar apatia
tudo que lhes mandavam
em ordens obedecidas
era contrapor o tempo
ao ombro magro da vida
 
e quando parei de repente
nas entrelinhas da estrada
meus passos todos quedaram
no vão esquerdo da mata
deram de me achar
em Matirão da Jandaia
 
e fui assim resumido
nos desvãos da consciência
que havia chegado em terras -
se num sonho a gente pensa –
que viviam escondidas
nos ombros da paciência
 
e quando me apresentei
no primeiro arruado
senti o corpo tremer
com o peso do passado
é que as horas tinham partido
e tinham me abandonado
enviesado num tempo
de quem sonha acordado.”
 
mas por que tanta surpresa
nesse chegar apressado
que vinco da natureza
você não tinha passado?
 
“os vincos da solidão
de quem pensa compassado
que a vida é só uma razão
de não se estar apressado
construindo um corrimão
que serve quase de passo
de quem sobe pela vida
esmagado em desabraços
 
os vincos da maldade
que socavam a natureza
inventando os passados
que o futuro não veja
e espalhando no tempo
umas horas de incerteza
como se a dúvida coubesse
naquilo que a enseja
e fosse assim como um rio
de escassa correnteza
 
o vinco da tristeza
que acomoda e valida
um tempo sem horas
ao redor dessa vida
como se fosse plural
o singular com que lida
 
o vinco da vaidade
que parece um desafio
de quem sendo espelho
reflete o desatino
de inventar uma vontade
que desdobrasse o destino
e o estendesse na vida
como toalha de linho
 
o vinco da ingratidão
da incompleta atitude
de replicar pela vida
um tempo de desajuda
embrulhado na rebelião
de todas as amarguras
como se gente fosse caminho
de uma estrada obtusa.”
 
 
e como lhe pareceu
a Matirão da Jandaia
essa terra que um dia o sonho
lhe jogou pela cara?
 
 
“primeiro vi-lhe as encostas
dos arredores mais frugais
chegando ia eu de repente
no meio dos matagais
quando me apareceu pela frente
numa curva mais audaz
a face dessa cidade
que ainda hoje me traz
 
e era um desperdício
eivado de concisão
era como se fosse um infinito
que coubesse na mão
e que se esparramasse lento
nas dobras do coração
eu vi assim a vontade
de conhecer mais de perto
aquilo que sendo cidade
parecia um desrespeito
a toda a arquitetura
que a gente traz pelo peito.”
 
mas o que tinha  a Jandaia
no teu sonho consumida
de construções e de casas
de vielas e avenidas?
 
ela as tinha nas gentes
que se enrugavam na lida
num tempo que se aninha
nos bolsos das camisas
como se fora caneta
de escrever nossas vidas
e essas ruas de gente
amolgadas pela tristeza
caminhavam seus passos
como se tivessem a certeza
de que o caminho caminha
no inverso da natureza
 
mais que as taipas das casas
fluía a imensidão
das taipas inscritas nas faces
do povo de Matirão
era como se homens coubessem
na mais profunda tristeza
chorando prantos aguados
pelos vãos da natureza.”
 
e por que em sonho vigente
não havia a satisfação
de inventar uma alegria
no meio da multidão?
 
é que o sonho se ressente
de toda e qualquer volição
se o sujeito que lhe sente
não a traz pela mãos
como se fosse carneiro
de  um ego amanhecido
construído nessas cidades
em que todos são amigos
 
era  difícil num sonho
obter minha permissão
de construir uma alegria
nas dobras do coração
é que mesmo adormecido
nos vincos da ilusão
sempre resta um pedaço
da vida na nossa mão
 
e assim adentrei Matirão
com o peito amolecido
sentindo no sonho o gosto
das parcimônias do infinito
como quem mede o espaço
com o tamanho dos gritos
e era fácil ver os metros
de todos os meus princípios
estendidos pela cama
como um lençol consentido
 
e como se dava esse fato
de, assim adormecido,
ainda ruminares
as nesgas dos teus princípios?
 
“é que princípios convivem
com qualquer rebelião
são assim como indícios
que sempre nos tem à mão
e ficam até quando mortos
ressuscitando a razão
desconstruindo as verdades
vividas na contramão
 
habitam o imo do peito
com tanta sofreguidão
que inventam nessas ruas
a grande rebelião
de quem atado à verdade
nas dobras da confusão
se deixa levar pela tarde
com a certeza na mão
 
é assim como um infinito
medido em cada homem
é como se fosse o sorriso
de quando se deixa a fome
e tanto mais se declare
e tanto menos consome
das alegrias que a gente
fabrica com nosso nome
 
é que princípios se ajeitam
nas franjas da liberdade
como se fossem sujeitos
de cada humanidade
que a gente carrega sem jeito
nas dobras da vontade
e que se firmam na luta
nas costa da vaidade.
 
mas diga assim Nicodemus
continue a sua lida
quem colocou Matirão
nos passos de sua vida?
 
um sonho arquitetado
creio eu, sem medida,
que me sonhou acordado
nos sonos em que me via
assim como uma tristeza
plantada numa alegria
que sai do peito da gente
com a força da ventania
e deixa pelo juízo
um cheiro de rebeldia
 
então eu vi os viventes
de Matirão da Jandaia
no meu sonho, de repente,
surgirem na sua lida
como se fossem bonecos
com cordas consentidas
jogando todo seu tempo
ao contrário de suas vidas
 
tinham nos olhos a faca
de cortar as alegrias
o peito fundo das mágoas
que se arrecada cada dia
como se fosse colheita
sem nenhuma serventia
servindo só pra marcar
as datas dessa agonia
 
e desses viventes todos
arrumados nessa agonia
eu pude ver as correntezas
de rios que nem havia
era como se a cidade inteira
nos palmos de suas mãos
caminhasse o sofrimento
em passos de procissão
e no sonho nem havia
o contorno de sua fome
o sono, às vezes, engana
aquilo que se consome
como se sonhar fosse resposta
às querenças do estômago
tramitando o homem pela noite
com a parcimônia no lombo.
 
e como foi a jornada
assim que tivestes prumo
de sair do sono pro sonho
pelas encostas do mundo?
 
“assim que caminhei
da cama para o espaço
dei-me à rebelião
de me achar compensado
em ver as dores do mundo
como se fossem enfado
que a gente cansa de ver
mas se sente conformado
 
mas de repente o sonho
começou a vigiar-me
como se fosse sentinela
daquilo que eu pensasse
e pos na minha cabeça
um quase exato vexame
de ver que em Matirão
a paciência desandam
 
e parti pelas ruas
indagando a cada homem
o que os fazia entender
os quilos todos da fome
por que não inventavam todos
uma vida mais robusta
que fosse esquina de tudo
das ruas todas da luta?
 
e a maioria dos viventes
cansados das disputas
afirmavam que a sua vida
era apenas uma desculpa
que o divino arranjava
pra botar nas suas culpas
como se fosse penitência
por toda e qualquer luta
 
falavam assim de manso
como incautas andaduras
elipsando as palavras
no meio de suas juras
é que o verbo empaca
no jeito exato dos fatos
é assim como uma fala
que saísse no retrato
 
diz que a vida assim
nas costas desses viventes
teimou em ser um sim
com todos os nãos reticentes
como se fosse uma festa
das tristezas da gente
 
é que nos ombros do tempo
as horas nem perceberam
que a vida tinha passado
como se não fosse tê-lo
perdida em descaminhos
nas curvas do desmazelo
 
fugiu assim num rompante
das amarguras do dia
e inventou pelas noites
uma estrita sinergia
com as conjunturas do homem
cujos desejos nem via
 
afogou-se intransigente
nas funduras de si mesmo
e nadou todos os mares
em que cabiam seus medos
assim como uma barcaça
que inventasse seus ventos
 
e houve por bem que fazia
como todo este destempero
as coisas que sua infância
não construíra por medo
de explodir as certezas
nas dúvidas que ia tendo
 
e mediu todos os sonhos
numa estranha dosimetria
com os metros da consciência
que seu desejo permitia
juntando todos os passos
nos descaminhos do dia
 
e veio tangendo a vida
na coleira da vontade
construindo cada veia
nas vias dessa verdade
como se a estrada coubesse
em todos os passos da cidade
 
e fez-se assim o indício
de que tudo a que se presta
depende de como engendra
a vida que se completa
quando o trabalho de todos
muito mais que uma gesta
é usufruto de um
e muitos et ceteras
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Das medidas da esperança e sua face material

guerrilheiro de mim
jogo-me na tática
de espantar o futuro
pelos ombros da prática

e nesse mister
de constranger a lógica
deixo-me janela
de todas minhas portas

é que a esperança no tempo
é um dos exercícios da vitória.
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das cavalgadas do poema em campos fictícios

A poesia
cavalga a palavra
com as esporas do olho
e as selas da alma 

montaria, a palavra cogita
não ser moderna
mais adredemente legítima
que se dê assim ao poema
como sombra da vida

as escaramuças do verbo
são apenas os modos de ser vista.

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De onde se conta da fruição do tempo na dosimetria da vida

trazia o tempo pendores
de ser assim tão decidido
que tramitasse a vida das pessoas
em quase todos os sentidos
é que de haver vivido em horas
não se contivesse em sujeitos
antes viesse atravessado
na franja incauta do peito
como uma bandeira desgarrada
nos mastros da fantasia
e a gente pensando que as noites
nunca pudessem ser dia
 
trazia o tempo madrugadas
enviesadas em cada travessia
como se os passos fossem degraus
de uma escada vazia
estendida assim sem horizontes
que não os da fala e os dos fatos
guardadas as proporções
de todos os fracassos
 
trazia o tempo agonias
na exata compleição dos atos
em que sangravam cidadãos
na canga incauta do trabalho
moídos assim pelas cidades
e em campos ultrajados
como se fossem peças
de todos os arados
 
trazia o tempo notícias
de minutos massacrados
como se a fome fosse razão
de exercícios e de enfados
espalhada assim pelo mundo
numa transversa paisagem
como se a vida nem fosse
uma intensa viagem
que corroesse os minutos
de quem a utilizasse
 
trazia o tempo espaços
jungidos à sua face
como se horas fossem iguarias
que se consome aos pedaços
construindo todos um sítio
em que todos morassem
nos espaços de um modo
que a vida se abraçasse
 
trazia o tempo indícios
de que jazia impunemente
em todas as dobras da luta
a que o homem se consente
como se fosse bandeira
hasteada adredemente
no coração de quem ama
sua vida e os viventes
 
trazia o tempo conteúdos
postos assim à vertente
de tudo por que se luta
 nas coisas do presente
como se passados fossem lupas
de um olhar diferente
inventando quase o futuro
nas esquinas da gente
 
trazia o tempo formas
singradas pela visão
como se fossem normas
que se prestassem à ação
de quem constrói essas dobras
que a vida dá na razão
naqueles que ainda lutam
mesmo postos no chão
 
trazia o tempo sonhos
marcados pela alegria
de quem dorme acordado
escanchado na agonia
da multidão de desejos
nos ombros de quem ardia
 
trazia o tempo reflexos
de um tempo mais passado
que subtraia os futuros
pela força dos arados
como quem planta um jeito
de mascarar os enfados
 
trazia o tempo demoras
nas correntezas da vida
como se fosse um rio
que parecesse avenida
por onde correm as águas
de cachoeiras  infindas
 
trazia o tempo saudades
de futuros impossíveis
construído de passados
e presentes presumidos
como se fora  um destempo
das sinergias dos gritos
 
trazia o tempo futuros
pelo vão de suas horas
como um presente farto
de insípidas demoras
e fluía quase urgente
nas costas da esperança
como se vive-lo fosse jeito
de tê-lo na lembrança.
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Das manhãs ideológicas e seus quadrantes

Toda manhã do mundo
bate nas portas
e despenca do sono
ideológica

é que basta acordar
e uma vontade aflora
de construir um futuro
nos ombros das horas 

as escaramuças do tempo
são apenas as janelas da demora.
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A Czeslawa Kwoka

as listras amarrotadas
da tua farda
riscam as manhãs
em que não estavas
 
teus olhos,
póstumos enclaves,
apontam os portos
da liberdade
 
ainda viges como lembrança
nos ombros largos da tarde.
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Da propriedade em largo vau

privada,
a propriedade esconde
nas entrelinhas
os suores dos homens
 
coletiva,
presta-se à lida
de tanger os homens
de encontro à vida
 
é que até ninguém é dono de si
sem  dividir-se com todos
na infalível lógica de, unânime,
apropriar-se nos outros
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Da lógica do verso em rasa feição

Decreto
a lógica
do meu verso:
tudo que lhe cabe
é o verbo

e uma certa ilusão
de que palavras
são ondas
dos mares que carrego
e que se inventam baldias
nas horas em que as meço.
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Conjunturas e espaços

estrategista,
deixo minhas táticas à deriva
é como cabê-las todas
pelos bolsos da camisa
penduricalhos momentâneos
dos contornos da vida

o rumo grande de mim
independe de medidas
todas as razões do mundo
são andarilhas
pulsam assim como coletivas
as conjunturas da vida.
no mais é deixar-se remar
nos mares das avenidas.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !