Escritas

Lista de Poemas

Dos oníricos assaltos

Dou-me
ao assalto
de furtar meus sonhos
do meio dos fatos
é que por trazê-los
assim rendidos
sobra-me o tempo
de tê-los pelos sentidos
como argamassa construtiva
de todos meus infinitos.
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Da materialidade e contracaminhos tais

Por ser material
caiba-lhe sempre a feição
de permitir-se à unidade
em toda relacão
pois não tenha a idéia,
antecedencia ou trato
de permitir-se uma razão
antes de qualquer fato
 
e cada caminho bruto
de verdades condizentes
constrói uma razão adrede
no peito desses viventes
como se fora vazão
dos fatos todos da gente
 
fora de nós, constantemente,
há uma vida inteira
que não depende de mais
para ser brasileira
ou material coisa que tanta
de unidade escorreita
 
a unidade da vida
é manifesta e precisa
os fatos que lhe conferem
essa feição objetiva
dizem das coisas dos homens
da natureza e da lida
que liga tudo a tudo
e por tudo se explica
 
e desse tanto monismo
que subverte a natureza
há um só movimento
que lhe declara a presteza
dessa unidade profunda
entre o homem e a certeza
pois por ser material,
um e tão multitudinário
tenha-se permitido à razão
de parecer-se contrário
 
uno, permita-se vário
em transeunte mudança
como se muda a tristeza
numa nesga de esperança
quando a emoção se afasta
pelas vias da lembrança
 
e esse pensar adrede
que vem dos laboratórios
e que se espraia nos homens
em escassos circunlóquios
revela o retrato do mundo
e todos os seus transitórios
 
e pensa o homem o fato
a partir de um fato suposto
mas que sempre tem na base
a material e seu contorno
ou a sua qualidade
de parecer-se avulsa
criando no pensamento
uma pretensa repulsa
como se não fora da matéria
a razão por que a usa
 
a matéria,  enfim, é categoria
de filosófica urdidura
que diz tudo que ao homem
lhe denota a compostura
de ser um vivente sujeito
objeto da transformação
de saber que é material
o palmo de sua mão
 
e que até o sorriso
que o futuro lhe demonstra
é uma matéria urdida
com a fluidez das demandas
e a desfaçatez quase lúdica
da construção das lembranças.
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A vida em descampados

E no meio do descampado
como se fora um repente
a vida parece um sonho
atravessando a gente.
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Passeata

e no meio da luta
que o povo leva nos braços
caminha adrede o futuro
alinhavando nossos passos.
👁️ 62

Poema zoológico

o urso polar
é quase um grito
arquivado no vão
de todo riso
 
assim em nado
é pássara attitude
e traição adrede
ao que tem de paquiderme
 
mais que urso é uso
de retinas provisórias
que chegam a cobrir a mágoa
que drapeja na memoria.
👁️ 184

De critérios e formas

dê-se ao tempo
a contradição
de parecer-se um sim, mesmo não
 
dê-se à vida
a compreensão
de parecer avante, mesmo em vão
 
dê-se ao homem
a condição
de inventar-se humano na razão
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Das razões coletivas e instrumental vigente

Privada, a propriedade
parasita as ruas da cidade
urbano acinte e açoite
a quem trabalhe
 
privado, o latifúndio
parasita a natureza
montado no mundo
 
e o trabalho do povo
é o fórceps de tudo.
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Dos assassinatos noturnos e dos fardos

Assassinado
por fuzis fardados
o homem explicita
a farda dos fardos
nada do sistema
eletrocutado
desencapa os fios
da elétrica cidade
todo o futuro
é um alarde
da construção que a revolta
em cada peito cabe
na morte daqueles
que trazem apenas como culpa
a noite no corpo e na face.
👁️ 147

Ao povo

o povo
não contém a lua
mas há vários sóis
no meio da rua
 
o povo
não se individua
apenas se divide
entre o que está posto
e o que não atua
 
o povo
diz-se em cordas
nós que desatam
todas as horas
 
não lhe cabe a desculpa
de ser apenas um
no meio da luta
pois agregado
numa compleição infinda
nada lhe resta da culpa
indivídua e restrita
 
o povo
não se conjuga
verbo subversivo
não lhe cabe o modo
antes se explicita
como se fora uma verdade
que precisa ser dita
 
não trai no seu gesto
qualquer melodrama
 o povo é um amor
que nem se ama
pois para cabe-lo
numa proporção restrita
era preciso desfazê-lo
de sua força infinita
e trança-lo em peitos avulsos
por sobre os descaminhos
e encontrar todos os passos
do seu desalinho
 
o povo nunca cogita
do que não disse
apenas todas as palavras
estão em riste
e por contê-las tantas
no vão da vida
sobra-lhe o infinito
como medida
 
o povo deve ser apenas
a régua da vida.
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Do Rio Sanhauá em rápida trama

Deitado no colo da terra
o Sanhauá é bandeira desfraldada
dos sonhos que a gente inventa
nas costas da madrugada.
 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !