De onde se conta da fruição do tempo na dosimetria da vida
AurelioAquino
trazia o tempo pendores
de ser assim tão decidido
que tramitasse a vida das pessoas
em quase todos os sentidos
é que de haver vivido em horas
não se contivesse em sujeitos
antes viesse atravessado
na franja incauta do peito
como uma bandeira desgarrada
nos mastros da fantasia
e a gente pensando que as noites
nunca pudessem ser dia
trazia o tempo madrugadas
enviesadas em cada travessia
como se os passos fossem degraus
de uma escada vazia
estendida assim sem horizontes
que não os da fala e os dos fatos
guardadas as proporções
de todos os fracassos
trazia o tempo agonias
na exata compleição dos atos
em que sangravam cidadãos
na canga incauta do trabalho
moídos assim pelas cidades
e em campos ultrajados
como se fossem peças
de todos os arados
trazia o tempo notícias
de minutos massacrados
como se a fome fosse razão
de exercícios e de enfados
espalhada assim pelo mundo
numa transversa paisagem
como se a vida nem fosse
uma intensa viagem
que corroesse os minutos
de quem a utilizasse
trazia o tempo espaços
jungidos à sua face
como se horas fossem iguarias
que se consome aos pedaços
construindo todos um sítio
em que todos morassem
nos espaços de um modo
que a vida se abraçasse
trazia o tempo indícios
de que jazia impunemente
em todas as dobras da luta
a que o homem se consente
como se fosse bandeira
hasteada adredemente
no coração de quem ama
sua vida e os viventes
trazia o tempo conteúdos
postos assim à vertente
de tudo por que se luta
nas coisas do presente
como se passados fossem lupas
de um olhar diferente
inventando quase o futuro
nas esquinas da gente
trazia o tempo formas
singradas pela visão
como se fossem normas
que se prestassem à ação
de quem constrói essas dobras
que a vida dá na razão
naqueles que ainda lutam
mesmo postos no chão
trazia o tempo sonhos
marcados pela alegria
de quem dorme acordado
escanchado na agonia
da multidão de desejos
nos ombros de quem ardia
trazia o tempo reflexos
de um tempo mais passado
que subtraia os futuros
pela força dos arados
como quem planta um jeito
de mascarar os enfados
trazia o tempo demoras
nas correntezas da vida
como se fosse um rio
que parecesse avenida
por onde correm as águas
de cachoeiras infindas
trazia o tempo saudades
de futuros impossíveis
construído de passados
e presentes presumidos
como se fora um destempo
das sinergias dos gritos
trazia o tempo futuros
pelo vão de suas horas
como um presente farto
de insípidas demoras
e fluía quase urgente
nas costas da esperança
como se vive-lo fosse jeito
de tê-lo na lembrança.
de ser assim tão decidido
que tramitasse a vida das pessoas
em quase todos os sentidos
é que de haver vivido em horas
não se contivesse em sujeitos
antes viesse atravessado
na franja incauta do peito
como uma bandeira desgarrada
nos mastros da fantasia
e a gente pensando que as noites
nunca pudessem ser dia
trazia o tempo madrugadas
enviesadas em cada travessia
como se os passos fossem degraus
de uma escada vazia
estendida assim sem horizontes
que não os da fala e os dos fatos
guardadas as proporções
de todos os fracassos
trazia o tempo agonias
na exata compleição dos atos
em que sangravam cidadãos
na canga incauta do trabalho
moídos assim pelas cidades
e em campos ultrajados
como se fossem peças
de todos os arados
trazia o tempo notícias
de minutos massacrados
como se a fome fosse razão
de exercícios e de enfados
espalhada assim pelo mundo
numa transversa paisagem
como se a vida nem fosse
uma intensa viagem
que corroesse os minutos
de quem a utilizasse
trazia o tempo espaços
jungidos à sua face
como se horas fossem iguarias
que se consome aos pedaços
construindo todos um sítio
em que todos morassem
nos espaços de um modo
que a vida se abraçasse
trazia o tempo indícios
de que jazia impunemente
em todas as dobras da luta
a que o homem se consente
como se fosse bandeira
hasteada adredemente
no coração de quem ama
sua vida e os viventes
trazia o tempo conteúdos
postos assim à vertente
de tudo por que se luta
nas coisas do presente
como se passados fossem lupas
de um olhar diferente
inventando quase o futuro
nas esquinas da gente
trazia o tempo formas
singradas pela visão
como se fossem normas
que se prestassem à ação
de quem constrói essas dobras
que a vida dá na razão
naqueles que ainda lutam
mesmo postos no chão
trazia o tempo sonhos
marcados pela alegria
de quem dorme acordado
escanchado na agonia
da multidão de desejos
nos ombros de quem ardia
trazia o tempo reflexos
de um tempo mais passado
que subtraia os futuros
pela força dos arados
como quem planta um jeito
de mascarar os enfados
trazia o tempo demoras
nas correntezas da vida
como se fosse um rio
que parecesse avenida
por onde correm as águas
de cachoeiras infindas
trazia o tempo saudades
de futuros impossíveis
construído de passados
e presentes presumidos
como se fora um destempo
das sinergias dos gritos
trazia o tempo futuros
pelo vão de suas horas
como um presente farto
de insípidas demoras
e fluía quase urgente
nas costas da esperança
como se vive-lo fosse jeito
de tê-lo na lembrança.
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