De onde se apresenta Nicodemus Hazalaia, feitor de si mesmo, e as raízes do seu sonho
AurelioAquino
Nicodemus Hazalaia
entrante aqui em romance
diga assim pelos gestos
o que lhe fez tão avante
pra que tivesse num sonho
as razões desse instante
que espalhou sua razão
nos ombros do levante?
e assim falou Nicodemus
de Hazalaia sobrenome:
“com a força da natureza
e os pendores de homem
quis o sonho de repente
escrever-se em minha fronte
como uma resposta da vida
que tramita no horizonte
e eu descendo do sono
montei o sono apressado
e caminhei pelos tempos
como um incauto cavalo
que galopasse a vida
com a força dos seus saltos.”
mas que fazias no sono
assim desembestado
pra que pudesse a vida
ter tamanho sobressalto?
“é que dormia apressado
num tempo assim comprimido
que descontava a madrugada
dos tempos já vividos
e inventava uma noite
enviesada nos sentidos
que via, ria e chorava
nos tamanhos do infinito
e eu descendo as ladeiras
de ruas que nem sentia
eu vi os bairros de gente
que não cobram serventia
e vi favores que o tempo
aos poucos subtraía
de suas carnes incautas
de suas mentes vazias
como se fora usina
de fabricar apatia
tudo que lhes mandavam
em ordens obedecidas
era contrapor o tempo
ao ombro magro da vida
e quando parei de repente
nas entrelinhas da estrada
meus passos todos quedaram
no vão esquerdo da mata
deram de me achar
em Matirão da Jandaia
e fui assim resumido
nos desvãos da consciência
que havia chegado em terras -
se num sonho a gente pensa –
que viviam escondidas
nos ombros da paciência
e quando me apresentei
no primeiro arruado
senti o corpo tremer
com o peso do passado
é que as horas tinham partido
e tinham me abandonado
enviesado num tempo
de quem sonha acordado.”
mas por que tanta surpresa
nesse chegar apressado
que vinco da natureza
você não tinha passado?
“os vincos da solidão
de quem pensa compassado
que a vida é só uma razão
de não se estar apressado
construindo um corrimão
que serve quase de passo
de quem sobe pela vida
esmagado em desabraços
os vincos da maldade
que socavam a natureza
inventando os passados
que o futuro não veja
e espalhando no tempo
umas horas de incerteza
como se a dúvida coubesse
naquilo que a enseja
e fosse assim como um rio
de escassa correnteza
o vinco da tristeza
que acomoda e valida
um tempo sem horas
ao redor dessa vida
como se fosse plural
o singular com que lida
o vinco da vaidade
que parece um desafio
de quem sendo espelho
reflete o desatino
de inventar uma vontade
que desdobrasse o destino
e o estendesse na vida
como toalha de linho
o vinco da ingratidão
da incompleta atitude
de replicar pela vida
um tempo de desajuda
embrulhado na rebelião
de todas as amarguras
como se gente fosse caminho
de uma estrada obtusa.”
e como lhe pareceu
a Matirão da Jandaia
essa terra que um dia o sonho
lhe jogou pela cara?
“primeiro vi-lhe as encostas
dos arredores mais frugais
chegando ia eu de repente
no meio dos matagais
quando me apareceu pela frente
numa curva mais audaz
a face dessa cidade
que ainda hoje me traz
e era um desperdício
eivado de concisão
era como se fosse um infinito
que coubesse na mão
e que se esparramasse lento
nas dobras do coração
eu vi assim a vontade
de conhecer mais de perto
aquilo que sendo cidade
parecia um desrespeito
a toda a arquitetura
que a gente traz pelo peito.”
mas o que tinha a Jandaia
no teu sonho consumida
de construções e de casas
de vielas e avenidas?
ela as tinha nas gentes
que se enrugavam na lida
num tempo que se aninha
nos bolsos das camisas
como se fora caneta
de escrever nossas vidas
e essas ruas de gente
amolgadas pela tristeza
caminhavam seus passos
como se tivessem a certeza
de que o caminho caminha
no inverso da natureza
mais que as taipas das casas
fluía a imensidão
das taipas inscritas nas faces
do povo de Matirão
era como se homens coubessem
na mais profunda tristeza
chorando prantos aguados
pelos vãos da natureza.”
e por que em sonho vigente
não havia a satisfação
de inventar uma alegria
no meio da multidão?
é que o sonho se ressente
de toda e qualquer volição
se o sujeito que lhe sente
não a traz pela mãos
como se fosse carneiro
de um ego amanhecido
construído nessas cidades
em que todos são amigos
era difícil num sonho
obter minha permissão
de construir uma alegria
nas dobras do coração
é que mesmo adormecido
nos vincos da ilusão
sempre resta um pedaço
da vida na nossa mão
e assim adentrei Matirão
com o peito amolecido
sentindo no sonho o gosto
das parcimônias do infinito
como quem mede o espaço
com o tamanho dos gritos
e era fácil ver os metros
de todos os meus princípios
estendidos pela cama
como um lençol consentido
e como se dava esse fato
de, assim adormecido,
ainda ruminares
as nesgas dos teus princípios?
“é que princípios convivem
com qualquer rebelião
são assim como indícios
que sempre nos tem à mão
e ficam até quando mortos
ressuscitando a razão
desconstruindo as verdades
vividas na contramão
habitam o imo do peito
com tanta sofreguidão
que inventam nessas ruas
a grande rebelião
de quem atado à verdade
nas dobras da confusão
se deixa levar pela tarde
com a certeza na mão
é assim como um infinito
medido em cada homem
é como se fosse o sorriso
de quando se deixa a fome
e tanto mais se declare
e tanto menos consome
das alegrias que a gente
fabrica com nosso nome
é que princípios se ajeitam
nas franjas da liberdade
como se fossem sujeitos
de cada humanidade
que a gente carrega sem jeito
nas dobras da vontade
e que se firmam na luta
nas costa da vaidade.
mas diga assim Nicodemus
continue a sua lida
quem colocou Matirão
nos passos de sua vida?
um sonho arquitetado
creio eu, sem medida,
que me sonhou acordado
nos sonos em que me via
assim como uma tristeza
plantada numa alegria
que sai do peito da gente
com a força da ventania
e deixa pelo juízo
um cheiro de rebeldia
então eu vi os viventes
de Matirão da Jandaia
no meu sonho, de repente,
surgirem na sua lida
como se fossem bonecos
com cordas consentidas
jogando todo seu tempo
ao contrário de suas vidas
tinham nos olhos a faca
de cortar as alegrias
o peito fundo das mágoas
que se arrecada cada dia
como se fosse colheita
sem nenhuma serventia
servindo só pra marcar
as datas dessa agonia
e desses viventes todos
arrumados nessa agonia
eu pude ver as correntezas
de rios que nem havia
era como se a cidade inteira
nos palmos de suas mãos
caminhasse o sofrimento
em passos de procissão
e no sonho nem havia
o contorno de sua fome
o sono, às vezes, engana
aquilo que se consome
como se sonhar fosse resposta
às querenças do estômago
tramitando o homem pela noite
com a parcimônia no lombo.
e como foi a jornada
assim que tivestes prumo
de sair do sono pro sonho
pelas encostas do mundo?
“assim que caminhei
da cama para o espaço
dei-me à rebelião
de me achar compensado
em ver as dores do mundo
como se fossem enfado
que a gente cansa de ver
mas se sente conformado
mas de repente o sonho
começou a vigiar-me
como se fosse sentinela
daquilo que eu pensasse
e pos na minha cabeça
um quase exato vexame
de ver que em Matirão
a paciência desandam
e parti pelas ruas
indagando a cada homem
o que os fazia entender
os quilos todos da fome
por que não inventavam todos
uma vida mais robusta
que fosse esquina de tudo
das ruas todas da luta?
e a maioria dos viventes
cansados das disputas
afirmavam que a sua vida
era apenas uma desculpa
que o divino arranjava
pra botar nas suas culpas
como se fosse penitência
por toda e qualquer luta
falavam assim de manso
como incautas andaduras
elipsando as palavras
no meio de suas juras
é que o verbo empaca
no jeito exato dos fatos
é assim como uma fala
que saísse no retrato
diz que a vida assim
nas costas desses viventes
teimou em ser um sim
com todos os nãos reticentes
como se fosse uma festa
das tristezas da gente
é que nos ombros do tempo
as horas nem perceberam
que a vida tinha passado
como se não fosse tê-lo
perdida em descaminhos
nas curvas do desmazelo
fugiu assim num rompante
das amarguras do dia
e inventou pelas noites
uma estrita sinergia
com as conjunturas do homem
cujos desejos nem via
afogou-se intransigente
nas funduras de si mesmo
e nadou todos os mares
em que cabiam seus medos
assim como uma barcaça
que inventasse seus ventos
e houve por bem que fazia
como todo este destempero
as coisas que sua infância
não construíra por medo
de explodir as certezas
nas dúvidas que ia tendo
e mediu todos os sonhos
numa estranha dosimetria
com os metros da consciência
que seu desejo permitia
juntando todos os passos
nos descaminhos do dia
e veio tangendo a vida
na coleira da vontade
construindo cada veia
nas vias dessa verdade
como se a estrada coubesse
em todos os passos da cidade
e fez-se assim o indício
de que tudo a que se presta
depende de como engendra
a vida que se completa
quando o trabalho de todos
muito mais que uma gesta
é usufruto de um
e muitos et ceteras
entrante aqui em romance
diga assim pelos gestos
o que lhe fez tão avante
pra que tivesse num sonho
as razões desse instante
que espalhou sua razão
nos ombros do levante?
e assim falou Nicodemus
de Hazalaia sobrenome:
“com a força da natureza
e os pendores de homem
quis o sonho de repente
escrever-se em minha fronte
como uma resposta da vida
que tramita no horizonte
e eu descendo do sono
montei o sono apressado
e caminhei pelos tempos
como um incauto cavalo
que galopasse a vida
com a força dos seus saltos.”
mas que fazias no sono
assim desembestado
pra que pudesse a vida
ter tamanho sobressalto?
“é que dormia apressado
num tempo assim comprimido
que descontava a madrugada
dos tempos já vividos
e inventava uma noite
enviesada nos sentidos
que via, ria e chorava
nos tamanhos do infinito
e eu descendo as ladeiras
de ruas que nem sentia
eu vi os bairros de gente
que não cobram serventia
e vi favores que o tempo
aos poucos subtraía
de suas carnes incautas
de suas mentes vazias
como se fora usina
de fabricar apatia
tudo que lhes mandavam
em ordens obedecidas
era contrapor o tempo
ao ombro magro da vida
e quando parei de repente
nas entrelinhas da estrada
meus passos todos quedaram
no vão esquerdo da mata
deram de me achar
em Matirão da Jandaia
e fui assim resumido
nos desvãos da consciência
que havia chegado em terras -
se num sonho a gente pensa –
que viviam escondidas
nos ombros da paciência
e quando me apresentei
no primeiro arruado
senti o corpo tremer
com o peso do passado
é que as horas tinham partido
e tinham me abandonado
enviesado num tempo
de quem sonha acordado.”
mas por que tanta surpresa
nesse chegar apressado
que vinco da natureza
você não tinha passado?
“os vincos da solidão
de quem pensa compassado
que a vida é só uma razão
de não se estar apressado
construindo um corrimão
que serve quase de passo
de quem sobe pela vida
esmagado em desabraços
os vincos da maldade
que socavam a natureza
inventando os passados
que o futuro não veja
e espalhando no tempo
umas horas de incerteza
como se a dúvida coubesse
naquilo que a enseja
e fosse assim como um rio
de escassa correnteza
o vinco da tristeza
que acomoda e valida
um tempo sem horas
ao redor dessa vida
como se fosse plural
o singular com que lida
o vinco da vaidade
que parece um desafio
de quem sendo espelho
reflete o desatino
de inventar uma vontade
que desdobrasse o destino
e o estendesse na vida
como toalha de linho
o vinco da ingratidão
da incompleta atitude
de replicar pela vida
um tempo de desajuda
embrulhado na rebelião
de todas as amarguras
como se gente fosse caminho
de uma estrada obtusa.”
e como lhe pareceu
a Matirão da Jandaia
essa terra que um dia o sonho
lhe jogou pela cara?
“primeiro vi-lhe as encostas
dos arredores mais frugais
chegando ia eu de repente
no meio dos matagais
quando me apareceu pela frente
numa curva mais audaz
a face dessa cidade
que ainda hoje me traz
e era um desperdício
eivado de concisão
era como se fosse um infinito
que coubesse na mão
e que se esparramasse lento
nas dobras do coração
eu vi assim a vontade
de conhecer mais de perto
aquilo que sendo cidade
parecia um desrespeito
a toda a arquitetura
que a gente traz pelo peito.”
mas o que tinha a Jandaia
no teu sonho consumida
de construções e de casas
de vielas e avenidas?
ela as tinha nas gentes
que se enrugavam na lida
num tempo que se aninha
nos bolsos das camisas
como se fora caneta
de escrever nossas vidas
e essas ruas de gente
amolgadas pela tristeza
caminhavam seus passos
como se tivessem a certeza
de que o caminho caminha
no inverso da natureza
mais que as taipas das casas
fluía a imensidão
das taipas inscritas nas faces
do povo de Matirão
era como se homens coubessem
na mais profunda tristeza
chorando prantos aguados
pelos vãos da natureza.”
e por que em sonho vigente
não havia a satisfação
de inventar uma alegria
no meio da multidão?
é que o sonho se ressente
de toda e qualquer volição
se o sujeito que lhe sente
não a traz pela mãos
como se fosse carneiro
de um ego amanhecido
construído nessas cidades
em que todos são amigos
era difícil num sonho
obter minha permissão
de construir uma alegria
nas dobras do coração
é que mesmo adormecido
nos vincos da ilusão
sempre resta um pedaço
da vida na nossa mão
e assim adentrei Matirão
com o peito amolecido
sentindo no sonho o gosto
das parcimônias do infinito
como quem mede o espaço
com o tamanho dos gritos
e era fácil ver os metros
de todos os meus princípios
estendidos pela cama
como um lençol consentido
e como se dava esse fato
de, assim adormecido,
ainda ruminares
as nesgas dos teus princípios?
“é que princípios convivem
com qualquer rebelião
são assim como indícios
que sempre nos tem à mão
e ficam até quando mortos
ressuscitando a razão
desconstruindo as verdades
vividas na contramão
habitam o imo do peito
com tanta sofreguidão
que inventam nessas ruas
a grande rebelião
de quem atado à verdade
nas dobras da confusão
se deixa levar pela tarde
com a certeza na mão
é assim como um infinito
medido em cada homem
é como se fosse o sorriso
de quando se deixa a fome
e tanto mais se declare
e tanto menos consome
das alegrias que a gente
fabrica com nosso nome
é que princípios se ajeitam
nas franjas da liberdade
como se fossem sujeitos
de cada humanidade
que a gente carrega sem jeito
nas dobras da vontade
e que se firmam na luta
nas costa da vaidade.
mas diga assim Nicodemus
continue a sua lida
quem colocou Matirão
nos passos de sua vida?
um sonho arquitetado
creio eu, sem medida,
que me sonhou acordado
nos sonos em que me via
assim como uma tristeza
plantada numa alegria
que sai do peito da gente
com a força da ventania
e deixa pelo juízo
um cheiro de rebeldia
então eu vi os viventes
de Matirão da Jandaia
no meu sonho, de repente,
surgirem na sua lida
como se fossem bonecos
com cordas consentidas
jogando todo seu tempo
ao contrário de suas vidas
tinham nos olhos a faca
de cortar as alegrias
o peito fundo das mágoas
que se arrecada cada dia
como se fosse colheita
sem nenhuma serventia
servindo só pra marcar
as datas dessa agonia
e desses viventes todos
arrumados nessa agonia
eu pude ver as correntezas
de rios que nem havia
era como se a cidade inteira
nos palmos de suas mãos
caminhasse o sofrimento
em passos de procissão
e no sonho nem havia
o contorno de sua fome
o sono, às vezes, engana
aquilo que se consome
como se sonhar fosse resposta
às querenças do estômago
tramitando o homem pela noite
com a parcimônia no lombo.
e como foi a jornada
assim que tivestes prumo
de sair do sono pro sonho
pelas encostas do mundo?
“assim que caminhei
da cama para o espaço
dei-me à rebelião
de me achar compensado
em ver as dores do mundo
como se fossem enfado
que a gente cansa de ver
mas se sente conformado
mas de repente o sonho
começou a vigiar-me
como se fosse sentinela
daquilo que eu pensasse
e pos na minha cabeça
um quase exato vexame
de ver que em Matirão
a paciência desandam
e parti pelas ruas
indagando a cada homem
o que os fazia entender
os quilos todos da fome
por que não inventavam todos
uma vida mais robusta
que fosse esquina de tudo
das ruas todas da luta?
e a maioria dos viventes
cansados das disputas
afirmavam que a sua vida
era apenas uma desculpa
que o divino arranjava
pra botar nas suas culpas
como se fosse penitência
por toda e qualquer luta
falavam assim de manso
como incautas andaduras
elipsando as palavras
no meio de suas juras
é que o verbo empaca
no jeito exato dos fatos
é assim como uma fala
que saísse no retrato
diz que a vida assim
nas costas desses viventes
teimou em ser um sim
com todos os nãos reticentes
como se fosse uma festa
das tristezas da gente
é que nos ombros do tempo
as horas nem perceberam
que a vida tinha passado
como se não fosse tê-lo
perdida em descaminhos
nas curvas do desmazelo
fugiu assim num rompante
das amarguras do dia
e inventou pelas noites
uma estrita sinergia
com as conjunturas do homem
cujos desejos nem via
afogou-se intransigente
nas funduras de si mesmo
e nadou todos os mares
em que cabiam seus medos
assim como uma barcaça
que inventasse seus ventos
e houve por bem que fazia
como todo este destempero
as coisas que sua infância
não construíra por medo
de explodir as certezas
nas dúvidas que ia tendo
e mediu todos os sonhos
numa estranha dosimetria
com os metros da consciência
que seu desejo permitia
juntando todos os passos
nos descaminhos do dia
e veio tangendo a vida
na coleira da vontade
construindo cada veia
nas vias dessa verdade
como se a estrada coubesse
em todos os passos da cidade
e fez-se assim o indício
de que tudo a que se presta
depende de como engendra
a vida que se completa
quando o trabalho de todos
muito mais que uma gesta
é usufruto de um
e muitos et ceteras
Português
English
Español