Escritas

Lista de Poemas

Lapinha em lapso repente

a contramestra nem sabia
que o vermelho da vida
no seu vestido nascia
dos voos que a borboleta
em suas asas dizia

é que o sonho da borboleta
era de um azul declarado
que tingia o jeito da gente
como um farol encantado

e o povo todo cantava
os versos do seu enfado.
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Do coletivo gosto das caminhadas

panorâmicos,
nada nos convoca
a termo-nos pelas janelas
sem derrubarmos as portas

coletivos,
nada nos importa
senão o sonho conjunto
de construir livres normas

a vida é só a grande passeata
das liberdades que afloram.
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Baía da Traição

a baía
amanha a praia
com um gesto
de navalha
cospe a areia
já prestante à luta
como se fora garça paciência
da desculpa
e finge-se mar
de vasta cabeleira
renhidos os ombros das ondas
pela tarde inteira
 
a baía
bebe o chão
como um gole compassado
de rebelião
e mansa
arranha o vão
de todos os calculos
de sua insuspeita fração
 
a baía, assim urgente
é quase um leão
que tecesse na juba
as tranças da solidão.
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Das andanças da certeza com nesgas de sonho

a pátria
é só um jeito
de constranger os limites
do que devo

dos mares
todos que declara
navega em jangadas
os rios do nada

até que chegue o tempo
de construir-se aos poucos
pelos costados da terra
a pátria geral dos povos
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Balada aos estádios de minha patria

a multidão
espremida e bruta
engole os passos de boi
no caminho da disputa
 
não uma luta precisa
que se urdisse na classe
mas uma batalha nervosa
no vão da linha de passe
 
a fundam-se nas filas
como bovinos transeuntes
na parcimônia dos passos
na pouquidão dos seus rumos
 
e urge o grito no bolso
como um discurso escancarado
destemperando essa fome
que o povo leva aos estádios
 
e partem juntos os homens
no enganoso mister
de chutar a vida na bola
de esmagar a fome nos pés
 
e mais o verde da grama
pareça assim uma bandeira
tanto mais o povo é chama
de queimar a vida inteira
 
o campo parece um drama
verdemente disfarçado
e os gritos partem a tarde
numa alegria magoada
 
e de repente o povo estaca
engolindo a ilusão
de que o gol explode nas caras
igual à revolução
 
mas no firmar desse grito
também existe a certeza
de que a bola um dia escapa
das bordas da natureza
e explode um gol definitivo
nos limites que o povo queira
 
e  esse gol atravessado
nas traves do mundo inteiro
permitirá todos os passes
nos gramados que se queira.
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Balada civil de contemporânea forma

mesmo cidadão
ainda é pouco
rasgar a lei
do meu esforço
 
mesmo cidadão
ainda é tanto
subtrair a vontade
do espanto
 
mesmo cidadão
ainda é lógico
arcar com o nada
do meu ócio
 
mesmo cidadão
ainda é falsa
toda a exatidão
da matemática
 
mesmo cidadão
ainda é nua
a rebelião
que me construa
 
mesmo cidadão
ainda caibo
nos limites de tudo
em que me calo
 
mesmo cidadão
ainda falto
nas noites que me envolvem
como fardos
 
mesmo cidadão
ainda trago
nas esteiras das mãos
o meu arado.
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Canto a Camilo Torres

Camilo morto
é um acinte
nada do que é a paz
está em riste
apenas repousa na Colombia
uma manhã baldia,
ainda ensolarada e triste
 
no peito,
ainda incólume,
Camilo inventa colombias
paciência e revólveres
 
o combate
é uma hóstia diferente
distribuída pela América
que a gente traz entre dentes
que se assemelha a um grito
que se inventa na garganta
e que enche toda manhã
com nesgas de esperança
 
sacerdote do tempo
não lhe falta a serventia
de viver, mesmo morto,
no peito da ventania.
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das inflorescências e tais

minha luz
é só um recado
que a vida me dá
quando me invado

vivê-la é o exercício
de tangê-la pelo mundo
como fora bandeira
hasteada em tudo

adiar sua chama 
nas encruzilhadas
é afogar as fogueiras
que se tem na alma.
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Da fome do povo em ritmo corrente

o tamanho da dor
nunca mede a tristeza
das léguas de ausência
que a fome põe pela mesa
quando vê-se  consumida
nas costas desses viventes
que suam suas carcaças
como rios inadimplentes
e que nunca chegam aos mares
da vida própria de gente

é que a ansiedade declara
assim em cada semblante
uns hojes enviesados
pelas pendências de ontens
como se o tempo fosse comida
de apressar essas fomes 

e no meio dessa partida
jogada sobre a vontade
o homem sonha faminto
com um prato de liberdade.
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Balada patriótica e arruamentos gerais

I
 
a  patria
não explica
o jeito do amor
nem a notícia
 
a patria
apenas explicita
nas esquinas do tempo
os rigores da vida
 
a patria
é em tudo
a negação
do mundo
 
a patria nunca está
onde a quiseram fundar
antes se exercita
em transitar nos mapas indecisa
 
a patria, em verdade,
é um futuro jacente
que mais que geografia
traz o peito da gente
construído nos andaimes
de todos que se apresentem
 
 
II
 
 
A patria
é um riso invertido
tudo que sorri
é restrito e indiviso
 
só a patria
é muito pouco
para caber em si
as léguas todas do povo.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !