Escritas

Lista de Poemas

Das usanças do viver

quando o sol

embutido no mundo
desregrar sua luz

em cada ponto

e a mansidão dos homens
alardear a manhã

eu chamarei Sepé Tiaraju
para desbravar um tempo
em que estaremos juntos
na construção de todos.
 
Nenhuma pedra então
tomará seu curso

e a vida carregará a vida
apenas como uso.
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De olhos e tempos em trânsito

olhar o tempo

sempre tange

tudo que é de nós
e que está longe

é que cabe ao homem
olhar com olhos de hoje
o que fora ontem
e descontruir os futuros
de tudo que lhe constrange
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De lutas e dizeres

estava dito:

tudo que palavra

me exercita

deixa um gosto de luta
pela vida
 
estava dito:

tudo que luta

me instiga

a deixar o coração
pela avenida.
 
é que ao homem
sempre se dá

a possibilidade da vida.
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de verbos e informes

A informação

se ajusta

aos moldes de quem a usa
forja na mente

uma desculpa

de quem navega

todas as notícias

de uma culpa

e se desconforma
adredemente

o conteúdo

de quem se procura.
 
A informação

abusa

de vínculos

tudo que lhe diz respeito

é como estrada competente
que tanto mais se caminha tanto
menos passos consente
 
a informação

é noturna em suas fontes

a claridade ofusca os verbos
de quem pune

e não se trai enorme
como quem se retrai

em tudo que não pode
 
a informação

é transversa

o sentido que indica

tergiversa e pondera

como as coisas que os homens
amiúde lhe oneram
 
a informação

é transeunte

nenhum caminho lhe estanca
ou resume

a expansão é sempre a norma
do que lhe assume
 
a informação
mais que sinapse
é contradita

dos pensamentos

que se tem em vista

pois escorrega do cérebro
aos borbotões

como se fora notícia

e rebelião

que os verbos arrumam
em todos os seus vãos
 
a informação

rasga a realidade

em contrafação

e o que é dito se escreve
com tintas desconexas
criando o teatro enorme
de uma vida paralela
 
mas no fundo

a informação carrega

tudo que ao homem

assim onera

uma certeza de gestar o mundo
por cima de qualquer pedra.
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Das virtudes teologais em avessa lógica

nunca creio.

o fato é invólucro

de relativos efeitos

o que era hoje

pode ser um ontem desfeito
sempre creio.

o fato é notícia

de tempos incautos

que permitem o povo

nos seus saltos.

O desejo

é só uma dança

que o futuro diz

da esperança

é que trazê-la avulsa

pelas praças

é o sentido da luta

em que nos lançam

o amor

sempre é um comício

nada do que lhe tange
é indício

sua razão é peregrina

de fatos e notícias

como uma estrada estendida
 da largura exata da vida.
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De sonhos como sentido

futuros
,
engavetados na memória,
sonhos dizem apenas

o óbvio:
 sonhos
são apenas
 os tempos
do que eu posso.
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das temporalidades e outros raciocínios

nunca

é um tempo escasso

tudo que lhe mede

é o desabraço

a vida nunca é nunca
apesar de tudo que me faça
 
sempre

é um tempo restrito

tudo que lhe mede

é a certeza dos instintos

a vida sempre é larga

nas palavras do que eu sinta.
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De gentes e carimbos

o funcionário

lança o despacho

como quem subscreve

um desabraço

nada do que é vida

lhe constata

apenas uma grave inapetência
e algum cansaço
 
o funcionário

nas entrelinhas

desmede a vida e a desídia
como se o carimbo fosse o leito
de todas as notícias

e urge em trânsito

pelos meandros do papel

e nos verbos de um chefe

de militares decibéis
 
o funcionário

assina sua sentença
nada do que é a vida
lhe convém
 
o funcionário

ao indicar-se tácito

alinha os carimbos de sua vida
em todos os seus atos

como se pudesse inventar

o trânsito de todos os seus passos
é que nada lhe sobra como viés
do que não fosse inexato:
palavras não serão verdadeiras
quando impressas em sobressalto
 
o funcionário lida com o papel
com a mesma solicitude

com que desmancha os borrões
de suas atitudes
o leito da sua lida

é de tamanha completude

que chega a parecer uma saída
das portas todas em que urge
 
o funcionário
tem da ordem a compreensão
de que o mundo se ordena
em todos os nãos

nada do que seja seu sim
pode lhe estar à mão
 
o funcionário

tem da lei

a exata compostura

de um verbo que não transita
no meio de suas ruas

é que lhe falta a textura

das grandes avenidas

com que os chefes alinham

o fulgor de suas vidas
 
II
 
o carimbo leva o funcionário

com os freios todos da vida

como se verbos fossem cadeias
que apreendessem adjetivos

que indicassem o rumo das gentes
ou que desfizessem os indícios
de que a liberdade é o destino
de todos os exercícios
 
o carimbo trunca o funcionário
na sua veia mais latente

que lhe joga contra a sentença
de tudo que não se consente
como se a vontade do homem
fosse matéria incoerente
 
é que lhe ordena a ordem
assim estabelecida

que um carimbo vale mais
que qualquer de suas vitimas
pois subentende a partição
das coisas todas da vida
 
o carimbo assim aposto

é um latifúndio resumido

dos verbos todos que o chefe
traz como subentendidos

e que lhe cobram os dirigentes
em todos os seus sentidos
 
III
 
o ente público

não tem veias

o sangue que lhe promove
é a certeza
de que os lucros serão privados
em sua toda inteireza
 
o ente público

por dentro da lei

é dito como se fora

a social sensatez

que vige em cada humano
na sua feição mais lúdica
com ares de particular

na sua razão mais pública
 
o ente público

é tão desnaturado

que um carimbo, às vezes,
lhe trai a incerteza

de que nunca foi coletivo
apesar da natureza
 
IV
 
a assinatura

posta no carimbo
comprova a razão

de todos os destinos
nada do que seja verbo
é tão cristalino
 
e mesmo quando não aposto
em sua forma mais crua

o carimbo informatizado

tem a mesma compostura
pois quando se assina a razão
se assassina a textura
de um carimbo tão avançado
apesar da escravatura
 
cada verbo do carimbo

é a contradição

de quem inverte a vida

com a mesma satisfação
com que se contém a ordem
nas vias todas do não
 
V
 
e assim o funcionário

nessa lida incoerente
destrava cada carimbo

e se trava em cada ente

em mostrar que toda ordem
quando posta adredemente
desvincula a vida da vida
e rói o sonho da gente
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Desmedida II

não é de ser absoluta

a parte que se tenha infinita

antes é de tê-la provisória
coincidente ao modo de uma luta
travada sempre entre o um e o todo
e tudo que equilibra essa disputa
 
não é de ser também restrita

a parte que se tenha assim medida
antes é de tê-la infinita

avara, porque inconseqüente,

no rol de suas desmedidas.
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Das mesuras da vida em tamanhos

é que lhe falta o tamanho

de se dizer tão pouca

como se não lhe bastasse a razão
de se dizer avante

e contradissesse qualquer número
que lhe soubesse bastante
 
a vida, quase sempre,

é um contrato recorrente
nada que lhe constranja
entorna o tempo da gente

é que lhe sobra um certo quê
de parecer diferente.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !