Escritas

De gentes e carimbos

AurelioAquino
o funcionário

lança o despacho

como quem subscreve

um desabraço

nada do que é vida

lhe constata

apenas uma grave inapetência
e algum cansaço
 
o funcionário

nas entrelinhas

desmede a vida e a desídia
como se o carimbo fosse o leito
de todas as notícias

e urge em trânsito

pelos meandros do papel

e nos verbos de um chefe

de militares decibéis
 
o funcionário

assina sua sentença
nada do que é a vida
lhe convém
 
o funcionário

ao indicar-se tácito

alinha os carimbos de sua vida
em todos os seus atos

como se pudesse inventar

o trânsito de todos os seus passos
é que nada lhe sobra como viés
do que não fosse inexato:
palavras não serão verdadeiras
quando impressas em sobressalto
 
o funcionário lida com o papel
com a mesma solicitude

com que desmancha os borrões
de suas atitudes
o leito da sua lida

é de tamanha completude

que chega a parecer uma saída
das portas todas em que urge
 
o funcionário
tem da ordem a compreensão
de que o mundo se ordena
em todos os nãos

nada do que seja seu sim
pode lhe estar à mão
 
o funcionário

tem da lei

a exata compostura

de um verbo que não transita
no meio de suas ruas

é que lhe falta a textura

das grandes avenidas

com que os chefes alinham

o fulgor de suas vidas
 
II
 
o carimbo leva o funcionário

com os freios todos da vida

como se verbos fossem cadeias
que apreendessem adjetivos

que indicassem o rumo das gentes
ou que desfizessem os indícios
de que a liberdade é o destino
de todos os exercícios
 
o carimbo trunca o funcionário
na sua veia mais latente

que lhe joga contra a sentença
de tudo que não se consente
como se a vontade do homem
fosse matéria incoerente
 
é que lhe ordena a ordem
assim estabelecida

que um carimbo vale mais
que qualquer de suas vitimas
pois subentende a partição
das coisas todas da vida
 
o carimbo assim aposto

é um latifúndio resumido

dos verbos todos que o chefe
traz como subentendidos

e que lhe cobram os dirigentes
em todos os seus sentidos
 
III
 
o ente público

não tem veias

o sangue que lhe promove
é a certeza
de que os lucros serão privados
em sua toda inteireza
 
o ente público

por dentro da lei

é dito como se fora

a social sensatez

que vige em cada humano
na sua feição mais lúdica
com ares de particular

na sua razão mais pública
 
o ente público

é tão desnaturado

que um carimbo, às vezes,
lhe trai a incerteza

de que nunca foi coletivo
apesar da natureza
 
IV
 
a assinatura

posta no carimbo
comprova a razão

de todos os destinos
nada do que seja verbo
é tão cristalino
 
e mesmo quando não aposto
em sua forma mais crua

o carimbo informatizado

tem a mesma compostura
pois quando se assina a razão
se assassina a textura
de um carimbo tão avançado
apesar da escravatura
 
cada verbo do carimbo

é a contradição

de quem inverte a vida

com a mesma satisfação
com que se contém a ordem
nas vias todas do não
 
V
 
e assim o funcionário

nessa lida incoerente
destrava cada carimbo

e se trava em cada ente

em mostrar que toda ordem
quando posta adredemente
desvincula a vida da vida
e rói o sonho da gente
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