Escritas

discurso em andante compasso

AurelioAquino
haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes

em que ele esteja
 
haverá manhãs

em que me faltarei

e caminharei pelas noites
como um falido vagalume
 
haverá manhãs

em que as manhãs faltarão

e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo
 
haverá espaços

em que as noites faltarão

e a estrela da manhã
adormecerá encoberta

nas dobras do teu vestido de tule
 
haverá corações
engordurados

e a estranha sensação
de vãos pecados
 
haverá razões
desencontradas

e a urgente razão
dos astronautas
 
haverá senões

em cada face

e haverá um verbo
que me baste
 
haverá um caos

em cada esforço

e o exato ângulo do peito
em que me morro
 
haverá vontades

que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos
 
haverá soluções

de problemas não postos

e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso
 
haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse
 
haverá desusos
frequentemente

e a leve compreensão
do que se sente
 
haverá multidões

que se farão sozinhas

e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
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