Escritas

Lista de Poemas

Clandestinidade I

no meio desta sala
no espaço entre cada companheiro
o tempo enche-se do futuro
e abarca-se com a mão o mundo inteiro

no meio desta sala
embrulhado nas palavras
o futuro amanhece nas faces
de cada camarada

as léguas desta sala
resumidas a minúsculo vão
engolem a tarefa exata
de ser útero da revolução 

como é bom tanger o mundo
na palma de nossa mão
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Das rotinas da vida em memória

nos trilhos
como uma notícia
o trem era o jornal
das novidades da vida

a cidade
navegando a rotina
ansiava pelos gritos
da locomotiva

e os homens
embrulhavam a alegria
quando na madrugada
seus trilhos partiam

o trem era só um tempo
de fingir que o novo havia
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Sandino ayer! Sandino hoy! Sandino siempre!

és novamente jovem Nicarágua
do peito de Sandino, dos braços do teu povo
o sangue afogou as tuas rugas
e, em tuas ruas, tu és tu de novo
da magreza dessa aurora americana
embrulhada na escuridão da vida
tu saltastes com tua gente
nos ombros do dia sandinista

és novamente terra, Nicarágua
nos risos dos teus camponeses
trançada neste vão da América
pelo amor de teus guerrilheiros

és novamente vida, Nicarágua
desde Manágua até o infinito
pois dormes agora com a alegria exata
de quem sonhou com o seu próprio riso
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Cachoeiras em trânsito nos desmaios do mundo

a cachoeira
desmaia o rio
como uma cabeleira
de líquida textura
e franze a natureza
nesse desmaiar
seus saltos das alturas
é que é pouca sua calma
nas costas do mundo
seu rugido é só anúncio
da sua ânsia de tudo

a cachoeira nem sabe
que é um rio em decúbito
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Visões

dentro deste espelho
no mais vão desta ruga
a vida da-me um nó
desde a ponta dos cabelos
não que em minha face
habitasse alguma morte
antes que fosse uma dúvida
com ares de derrota

mas subindo na garganta
com a conjuntura de um grito
ousou parir-se um gemido
que antes de impertinente
mais parecesse infindo
e borrou minha cara
de arquitetura ainda gente
e num salto suicidou-se
e a luta fez-se repente
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Dos ébrios encômios do ócio

no copo
a cerveja é o invólucro
das espumas que trago
em meus ócios

é que tangê-los
entre os goles
é habitar os mundos
em rotaçōes enormes

e no fundo
do copo e das poses
giro como um marciano
à procura de luzes
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Carta XXIX

se, por acaso, a dor não cumpra
as razões que se saibam adversas
muitas vezes queira converte-la
no contrário que luta por vive-la

e na metamorfose agora do seu jeito
possam os homens convencê-la
de que a paz cabe nessa dor
na proporção exata de conte-la

e da construção da nova forma
engendrada no vão do exercício
possa o homem convencer-se
de que o amor é sobretudo um ofício
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Genocídio com crápulas e dores

tanger a morte
é o indício
da passeata maior
do genocídio

crápulas
em comício
matam a verdade
e assassinam os gritos

e a dor
como um ofício
ressoa nas ruas
como triste armistício
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Da vacina ideal em rumo de tantos

vacino a vida
com o vírus vivo
de tudo que me faz
plural e coletivo

e navegando em tantos
imunizo-me farto
das incoerências humanas
dos ditos e dos fatos

e deixo-me são
embora outro
gravado em mim
nas costas do povo
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Carta XV

pus-me relativo
diante da tarde
e o tempo roeu os meus cabelos
desfeita já em lua a mocidade
e satélite de mim
palmilhei o espaço
entre a razão que me pungia homem
e a facilidade infinda da vontade
sorvi o meu país
em grandes talagadas
não soubera eu que me bebia inteiro
na dessemelhança da idade
hoje
um pouco rarefeito pela tarde
construo andaimes em mim mesmo
para alcançar o grito da cidade
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !