Escritas

Lista de Poemas

Protocolo da rebelião

compra-se um futuro
em bom estado
e por moeda dá-se o punho
revolucionário

compra-se uma vida
em boa marcha
e por moeda dá-se a luta
em urgente prática

compra-se uma paz
por toda a praça
e por moeda dá-se a força
dessa massa
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Caminhada em brasileiros dramas

No meio da noite
como um líquido incontido
borbulha a aurora brasileira.

E no mais fundo das ruas
e nas declarações entre dentes
a liberdade veste-se de palavras
e na ação faz-se repente.

Cúmplices da história
caminham esses viventes
no alvoroço grávido da luta
concubinos da esperança.

E não importa que a fome é tanta
pois um breve riso ainda avança
na certeza geral de todos os seus sentidos.

E a boca que não come
sacia o discurso
enchendo a barriga de vida
alimentando o futuro.

No peito da noite
como um líquido incontido
borbulha a aurora brasileira.

Eram tantos
na singularidade de tão poucos
pois enfeixavam nas mãos
como uma certeza bruta
a solidez da história
a certeza da esperança.

E caíram na luta
como nos rios os meninos 
nos dias de felicidade:
e alinhavando a história
pelas ruas da cidade
eram todos combatentes
de uma intensa verdade.

👁️ 99

dos brasis da vida

A terra
de país apenasmente
trai um gesto de pátria
que a geografia lhe consente

e hoje a vida estanca
na nacional monotonia
que faz a manhã ser negra
embora cheia de dia

mas do ventre do país
construído assim a muque
começa um país mais vasto
até enquanto se lute
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Tecituras da felicidade em humana gestão

tecer a felicidade
é um mister que se aloja
e que se sonha e que se sabe
nalgum meandro da história

não tem a facilidade
dos misteres mais pacatos
que se alojam nos olhos
ou na curva de algum braço

antes possuem a desfaçatez
dos mistérios simplificados
que, quando não são, são urgentes
e quando existem são temporários

podem boiar no espaço
de algum átomo distraído
e podem conter-se nas léguas
de todo um infinito

e repousa latente
nas marcas do exercício
do coração dessa gente
que se presta a tal ofício
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Das Ligas Camponesas em memória

no comício
o discurso escorria
como uma cachoeira exata
nas encostas do dia

em chapéus e palhas
assim circunspectos
os camponeses bebiam
o grave manifesto

e, menino, no palanque
inadimplente de tudo
eu assistia a vida
trafegar meus olhos pelo futuro
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Poema em urgente lógica

eis o grau
de asfalto e povo
de olhos dentro do chão
e bocas dentro do bolso

joões do vazio
magros apêndices
de grávidas severinas
da paciência

do irrentável ofício
de calar o peito
do calado indício
do direito

do urgente alvitre
de guardar a fome
nas rugas da rua
nas ruas do homem

da chegada hora
de proibir o medo
e esmagar o pranto
pelo vão dos dedos
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Canto à Zona da Mata

as canas são fuzis
de verdes cabeleiras
são imensos gritos rurais
são cordilheiras
onde o homem habita
a fome e as incertezas
e se são meninas
na sua doce aparência
servem de chicote
à pela camponesa 

o canavial
em toda e cada cana
é a soma do suor
do sangue e da chama
que esse povo nutre
com as léguas de seus braços
e que se hoje é privado
amanhã será mais largo

e antes de canavial
essa vegetação é povo
trançado à força da vida
do verde que se faz o novo
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Poema ao guerrilheiro assassinado

agora
transitoriamente horizontal
nesta química inoperância
não trazes mais que o aval
daqueles que te fizeram substância

nesta geométrica mudança
em que de prumo fizeram-te horizonte
apenas humanizou a tua queda
uma pequena lágrima, uma gota de sangue

subtraíram a vida
como uma infinita soma
onde teu corpo engoliu os anos
e teu povo engoliu as sombras

mas mesmo assim
impreterivelmente indefinido
estarás vivo em qualquer praça
do povo que sonhaste livre

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Dos vietnãs da gente

em cada coração
borbulha impunemente
um Vietnã escondido
engavetado na gente

e se sobe à garganta
engasgado na palavra
esse Vietnã não mata
mas frequentemente arma

e em cada cidade
num inventário sem fim
vige uma rosa exata
como herança de Ho Chi Min
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Da palavra em síndrome diversa

as palavras são pombas
desarvoradas voadoras
que enchem a balsa dos ouvidos
e que se estraçalham
pelas fendas do grito
más navegantes
enroscam-se no juízo 
e bocejam na língua
um nó corrediço

e se às vezes fingem
no seu sopro canoro
outras vezes atrasam
o dispêndio das horas

e ainda vigem desatentas
nos atos falhos que explicitam
e murcham no céu da boca
as verdades escondidas 

Palavras são pombas
dos verbos todos da vida
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !