Lista de Poemas
Nunca acreditando
Naquele ano de mil novecentos e noventa e nove
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
previa-se o fim do mundo para agosto
dia onze quarta-feira.
Não se organiza um fim de mundo
de um dia para o outro
nem mesmo o fim
de um insignificante mundo
como o nosso.
É de se crer que há muito
houvesse sido posta em movimento
a engrenagem fatal que
dente a dente
nos traria o desfecho.
E no entanto
ainda no dia nove
estávamos reunidos em congresso
pérolas e gravatas no pescoço
corpos cobertos por escuros trajes
vivos já presumidamente mortos discutindo
atrás da mesa com devidas flores
projectos para o próximo milénio.
👁️ 875
EXPENSE ACCOUNT
Comendo spaghetti e frango
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
👁️ 943
PALAZZO D'ACCURSIO
De que cor era a porta
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
👁️ 653
Outras palavras
Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
👁️ 1 193
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
👁️ 1 105
Pitigrilli proibido
O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
👁️ 983
E LOGO PASSA
A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
👁️ 1 003
EM QUE TUDO
Cachorro preto contra
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado
👁️ 1 168
Sobre um bosque de bétulas
A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
👁️ 961
UM DOS ÚLTIMOS DA SUA ESPÉCIE
Chamava-se Giulio e era conde
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
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Comentários (1)
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maria2020
2020-11-04
Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa
Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti - 58° Feira do Livro de Porto Alegre
ÁGUA ACIMA, miniconto do livro Hora de alimentar serpentes, por Marina Colasanti
Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.
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