Lista de Poemas
NEGRAS MIGRANTES
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.
Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.
Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera
Fiena 1995
Nenhum como aqueles
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
Perspectiva à noite
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
Razão tem Ghirlandaio
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
OU APENAS
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.
Inquebrantada linhagem
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
Respiram à noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
Longa viagem em 1943
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
Pela janela aberta
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
Comentários (1)
Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa
Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti - 58° Feira do Livro de Porto Alegre
ÁGUA ACIMA, miniconto do livro Hora de alimentar serpentes, por Marina Colasanti
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