Escritas

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti Ano: 20439
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
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Comentários (22)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-27

Mama - mia .... que texto poético espetacular.... pois nos acostumamos com tudo que acontece.... até a gente mesmo desaparecer.

Marcia marques Bezerra
Marcia marques Bezerra
2025-08-11

Letícia isso é maravilhoso, pois a cada dia temos uma página em branco. Isso é extraordinário. Tenha paciência, seja bondosa com vc mesma. O mais importante dói esse despertar p a vida.Chore, depois respire fundo, lave o rosto...e ore a Deus para que a ajude a viver a plenitude que Ele colocou aà sua disposição. Após mudar de carreira, eu amava o que fazia e, hj estou descobrindo novas formas de ser feliz, fazendo o que é bom, o que é direito, o que é louvável. Estou amando cada passo dessa jornada. Agora sou psicanalista e psicoterapeuta A vida é boa.

Eduarda
Eduarda
2025-03-28

Actualissimo. Na simplicidade é forte e nunca a porta se fecha...ou abre

Wânia
Wânia
2025-02-03

Li esse texto quando tinha 16-17 anos e nunca o esqueci. É atemporal. Mesmo que algumas coisas tenham mudado, com o advento da era virtual; ainda assim Marina Colasanti descreve as nuances do ontem, do hoje e do amanhã na existência humana.

Sandro
Sandro
2022-08-02

A gente se acostumou a se acostumar com os costumes alheios para evitar conflito de costumes. Texto bem cotidiano da Marina, como sempre uma pessoa de brilho na alma e com escrita apurada.