Lista de Poemas
Dois talhos de luz
Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
👁️ 1 019
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
👁️ 985
A medida do pai
O filho primogênito
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.
Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.
Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.
O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.
El Moro, Roma, 2001
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.
Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.
Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.
O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.
El Moro, Roma, 2001
👁️ 1 025
Nunca se perguntou
Porque vivia sozinha
em Nova York
toda semana ia
à mesma peixaria em Chinatown
comprar a tartaruga viva.
Depois
dura casca metida em saco plástico
ia atirá-la no Hudson.
Nunca se perguntou
o que acontecia à tartaruga
na água turva
mancha entre manchas
nunca se perguntou
se submersa se enredava em correntes
âncoras cabos
se era estraçalhada pelos hélices.
la toda semana deixar seu dinheiro
na pálida mão do peixeiro chinês
e caminhava até o rio
sentindo estremecer as nadadeiras
para entregá-la ao Hudson
e acreditá-la livre.
em Nova York
toda semana ia
à mesma peixaria em Chinatown
comprar a tartaruga viva.
Depois
dura casca metida em saco plástico
ia atirá-la no Hudson.
Nunca se perguntou
o que acontecia à tartaruga
na água turva
mancha entre manchas
nunca se perguntou
se submersa se enredava em correntes
âncoras cabos
se era estraçalhada pelos hélices.
la toda semana deixar seu dinheiro
na pálida mão do peixeiro chinês
e caminhava até o rio
sentindo estremecer as nadadeiras
para entregá-la ao Hudson
e acreditá-la livre.
👁️ 1 184
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
👁️ 1 012
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
👁️ 904
E TINHA O NARIZ EM PONTA
Para Michelle Bourjea
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.
👁️ 1 004
No corte das lâminas brancas
Além da persiana do quarto
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
👁️ 961
Tive um rosto
Tive um rosto
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
👁️ 1 366
De cinza a cinza
Há um momento no lago
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
👁️ 1 087
Comentários (1)
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maria2020
2020-11-04
Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa
Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti - 58° Feira do Livro de Porto Alegre
ÁGUA ACIMA, miniconto do livro Hora de alimentar serpentes, por Marina Colasanti
Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.
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