Escritas

Gargantas Abertas

Ano
1998
Gargantas Abertas

Poemas nesta obra

A LARGURA DE UM HOMEM

A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.

A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.

Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.

A mão de quem

Se tua boca, Holoferne
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.

Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.

À NOITE NO ESCORIAL

Os sinos do Escorial
chamam à noite.
Bronze
redonda lâmina
na nuca do silêncio.
Pedra
montanha recomposta
em duras quinas
sem volteios de aves
e sem ventos.
No jardim dorme
a geometria das sebes
verde água
vela.
Na torre
no mais alto
do alto
uma janela acesa
branca lua.

El Escorial 1995

A ÚLTIMA ILHA

Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
 viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.

ACQUA MARCIA

Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.

AINDA ASSIM

Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.

Ainda te levarei

Ainda te levarei
amor
para comer nozes frescas
na montanha
e pendurar cerejas nas orelhas
como se fossem flores
ou rubis.

As nozes
meu amor
mancham os dedos
e são verdes e exatas
como ovos 
mas as cerejas
ah! as cerejas
são quando a cerejeira sua
seu manso sangue.

Ainda te levarei aquela casa
onde floriam lilases
e serpentes tão claras quanto água
deslizavam ao pé das macieiras.
Te mostrarei três lagos
no horizonte 
três queijos maturando 
numa adega
três lesmas
escondidas sob um vaso.
Estará tudo lá
à nossa espera
morangueiras quebradas
lagartixas.

Só não estará meu medo
de menina
aquele mais escuro que os ciprestes 
ecos no mato passos sobre a ponte 
garras na saia vento nos cabelos 
e o latejar das veias repetindo
estou sozinha
e ninguém me salva.

ALI, ONDE

Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.

Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.

AMISH COUNTRY

Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.

Illinois 96

AO REDOR

Ao redor, a pele.

Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.

Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.

Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas

Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.

A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?

Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.

Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.

É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga 
como o areal
abriga a concha?

A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?

Às seis da tarde

Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam de trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

ATRÁS DO TRONCO

Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.

BRUSIO

Mosconi sul rampicante rosa
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.

CARNAVAL EM FRIBURGO

Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.

CARNE DE LEITE E LUA

Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.

CASA EM MEIO AO CAMPO

A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.

Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca

Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.

A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.

Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.

Na cozinha
uma vaca 
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.

CERIMÔNIA ACADÊMICA

Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.

CINCO DA TARDE E SUDOESTE

Logo virá a tempestade
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.

CINCO MÁRTIRES E UM CALIFA

Duas cimitarras e cinco
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.

CIRCO DE SOL

Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.

Viena 1995

CLARA LUZ DE VERMEER

Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.

CLARO ESCURO

São as folhas da gardênia
mais escuras que outras folhas?
Ou mais escuras parecem
porque à escura folha escura
se sobrepõe como um grito
o branco
da branca flor?

COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL

Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.

Viena 1995

COM A DESTREZA DE QUEM

Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.

Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.

COM A DOÇURA DE BOTTICELLI

Um tronco ao lado
de outro tronco
negras colunas
floresta
e o cavalo branco
e a branca mulher
nua
correndo à frente
e o cavalo branco
e a clara carne
em desespero
e o cavalo branco
e o lago ao longe
além dos troncos
do cavalo branco
e no branco dorso montado
o cavaleiro de espada em riste
espada a afundar
no meio das costas
das costas pálidas
das delicadas costas
da mulher em fuga
cujos despojos
caberão aos cães.

COM FUNDO MUSICAL DE NINO ROTA

O caminhar da noite
já se ouve
vindo da escura
mansão do leste.
A névoa deitou-se
para o sono
sobre a linha do horizonte.
Na última claridade
o transatlântico avança
todo aceso em suas luzes.
Por um instante
- alada coroa -
parece pousar no topo
do edificio que entre o mar
e meus olhos
se interpôe.
Mas logo
sem âncora que o retenha
segue viagem.

Como é Gentil

Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia

COMO SE FAZ

Como se faz um pão
se faz um prato.

Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.

Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.

DE NOME BOLENA

Quem havia de dizer
Ana
que os longos cabelos que envolveram teu rei
acabariam presos na touca de linho
cabeça sobre o cepo
não fosse um fio turvar
a linha do pescoço
ou enredar-se
na espada de Calais.
Tragam-me a espada!
gritou a voz do carrasco
e você olhou
você olhou
Ana
movendo o rosto como ele queria
na direção da morte
sem saber que a espada esperava na palha
serpente sibilante
pronta a beijar-te a nuca
e entregar-te à tua sorte.

DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE

Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.

DEPOIS, A ATERRISSAGEM

À noite
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.

DIA NÃO PASSA SEM

Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.

Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.

Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.

DO MAIS VIRGEM

No vaso quadrado de vidro verde
quase negro
vaso que eu quis vaso
porque antes garrafa de azeite
do mais verde e virgem azeite da Toscana
e que depois vaso porque
se não o azeite de denso perfume
só flores podia conter
 jasmim
mimosa
madressilva
no vaso de verde vidro negro, pois,
um ramo.
E a luz do abajur sobre os dois.
Arestas de mel contra o escuro
recorte de folhas no ar
pousada no nada
a asa
da flor.

DOMENICA A CERTALDO

Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.

Certaldo 1996

DUAS ALÇAS DE COURO

Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.

Frankfurt 1994

DÚVIDA POSTA À MESA

Li em algum lugar
que no Tour d'Argent
em Paris
a servir coxa de galinha
só à esquerda.
Com a direita a galinha esgravata
em busca de alimento
tornando-a musculosa
enquanto a esquerda
apoio inoperante
se conserva macia.
Desde então
toda vez que uma coxa de galinha
vem terminar sua vida
no meu prato
pergunto-me se
esquerda
se direita
ou se a galinha não seria canhota.

E LOGO PASSA

A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.

E TINHA O NARIZ EM PONTA

Para Michelle Bourjea

A alma daquela mulher
era como água de copo
em casa antiga.
Que estremece se alguém
desce as escadas
se um carro passa
ou quando um gato salta
de um armário.

EM QUE ESPELHO

Que rosto teria hoje minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que idéia tão alheia à imutabilidade desse rosto
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.

Que rosto teria eu eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?

Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.

EM QUE TUDO

Cachorro preto contra
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado

Escuros Tempos

As noites
nas cidades da guerra
eram mudas e escuras
como os campos
apagadas as ruas
as praças quedos lagos
falsa ausência
deitava-se nas sombras.
Uma ave nos céus
chamada morte
caçava guiada pela luz.
Cuidado crianças com a lâmpada acesa
mulheres não esqueçam o pano negro
diante das janelas
basta uma fresta
para apagar a vida.

Quando a guerra acabou
na minha terra
janelas continuaram pintadas de preto
esquecimento ou luto
os vidros
como as almas
precisaram de um tempo 
para deixar passar a claridade,

ESOPO

No alto do galho
o corvo canta
Cai o queijo.
Que a raposa abriga
na garganta.

EXPENSE ACCOUNT

Comendo spaghetti e frango
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.

Roma 1996

FAZENDA Á BEIRA SAL

Vacas soltas no pasto
à beira-mar
fulvas como leões ao sol poente.
Cabeça baixa
e entrando pelas ventas
um perfume de sal e mato quente.
Sob a canga do vento
inclinam-se as ramagens e os arbustos
o mar é uma planície que se encrespa.
Só as vacas não se dobram.
Sólidas
sobre delgadas patas
mastigam ervas
e ruminam ondas.

FICOU-ME O DESEJO

As mulheres etiopes
usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.

Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia,

Gardênias e um espelho

As cinco e vinte e cinco
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.

Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.

Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.

HORA DO EMBARQUE

Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.

IA NO RUMO DE SEVILHA

Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.

Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados

INSTRUMENTO SEM SOM

Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva 
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.

JANTAR FAMILIAR

Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.

JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR

Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.

JASMIM E JARRO CHINÊS

Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.

LESUNG

Nessas janelas sem cortinas
reflexos nos duplicam
e ao cristal dos pingentes.
Um trem passa no escuro
janelas janelas janelas
cortam nosso sorriso
varam o reservado espaço
entre olho e nariz.
Lá fora alguém viaja
em nossa pele.
Usurpador ignaro
que nem sequer nos vê
por instantes nos leva noite afora
num quadrado de luz
que logo se desfaz
como miragem.

Seburg 1995

MADRUGADA EM CARDEIROS

Para Stella Marinho

Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.

Lutam as escamas pintadas
para defender
seu vermelho na escuridão.

Quando a manhã chegar
- bocas abertas -
depositarão ovos de seda
nas nascentes do Sudoeste.

MESSA AL DOM

L'antico gesto
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.

Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dagli affreschi

E mozze
ci raccontano chi siamo.

Salzburg 1995

MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO

Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?

MULHERES SUICIDAS

Mulheres suicidas
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.

NA CORTE DE HAAKON

Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.

Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.

Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.

Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?

NAS ASAS DA PANAIR

Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.

NEGRAS MIGRANTES

No hotel Schönbrunn em Viena
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.

Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.

Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera

Fiena 1995

Nem Tão Nuas

Ah! Cranach, como eu gosto
dessas mulheres nuas que você pinta
com seus pequenos seios
suas barrigas
e ao alto os chapelões cheios de plumas.
E as Salomés, que graça
segurando cabeças de Batista
com a mesma elegante displicência
com que outras, no colo, 
afagam cães de raça. 
Mas has nessas mulheres 
escondido
atrás da boca fina 
ou do olhar oblíquo
um luzir de punhal
um gelo ambíguo que
embora estando nuas
lhes põe vestido.

NO APARTAMENTO EM COLÔNIA

Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.

E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.

Colona 1952

NO MÊS DE MARÇO

Barcos estão parados junto às ilhas
é tempo de lulas,
me diz um pescador.
Com artimanhas
não com anzol
pescam-se as lulas.
Baixa-se ao fim da linha
uma engenhoca em pontas
guarda-chuva ao contrário
sem o pano
- creio que colorida -
e puxa-se de leve
bem de leve
para que dance a ponta.
Até que a lula
curiosa e brincalhona
venha enredar-se nos arames
e seja içada a bordo.
Quando o mar está calmo
e o mês é março
cai o preço da lula no mercado.
E elas certamente não se dizem
que o predador chegou.


NO PARQUE DA FERTILIDADE

As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos. 
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.

Beijing 1992

NO PARQUE HELLBRUNN AO ANOITECER

Para Gigi Reisner

Altos altos pinheiros
verdes falésias
e ao fundo
este caminho que escorre como água.
Um cisne ajeita penas sobre o gelo do lago
única mancha clara na neblina que vem
trazendo a noite.
Trancados na rija silhueta dos capotes
escuros troncos de perdidas folhas
apressamos o passo em busca de um portão
que já se fecha.
Ninguém passa por nós.
Longe
no teatro de pedra em meio ao bosque
uma coruja chama
sem resposta.

Salzburg 1995

NO SILÊNCIO

Pousado nas folhas
do pessegueiro
o raio de lua
canta.

NOTURNO DE HOPPER

Ninguém na rua
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas. 
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.

NUM MESMO CÉU

Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar

Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento

Frankfurt 1994

ORÁCULO E PRIMAVERA

Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?

Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.

Delfos 1988

OU APENAS

Às vezes
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.

PALAZZO D'ACCURSIO

De que cor era a porta
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.

Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.

Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.

Bolonha 1994

PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO

O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.

PARA SEMPRE ATADOS

Há cento e vinte anos
no tapete da sala
o arco retesado ameaça
a gazela
o cavaleiro persa galopa
entre pavões
e as folhas de roseira se entrelaçam.

Há cento e vinte anos
uma pluma se dobra
no turbante
um chorão se debruça
sobre a água
e o leopardo entre lirios arma o salto.

Cento e vinte mil fios
feitos laçada
atam o dorso e o olhar
enfeixam verdes talos
retêm a flecha no arco
a garra no alto
a pluma no vento.

Entre trama e urdidura
as algemas dos nós
jamais afrouxam.
Imóveis estão para sempre
o medo
a fuga
a morte
proibidos de alcançar
o seu destino.

Nesse tempo suspenso
apoio os pés.

PASSADO E COLHER DE PAU

Ameixas fervem no açúcar.
geléia cor de sangue
que borbulha
deitando um cheiro rubro pela casa.
Eu remexo a panela
sobre o fogo
mas no redemoinho que se abre
não é o ponto que busco.
É o sabor primeiro da palavra
ameixa
aquele que me beijava a lingua
e me dizia:
o verão chegou.

Pietá

Foi com os dedos
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo. 
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.

Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.

PISANELLO, AL LOUVRE

La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.

POR UMA LUZ

O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.

PRECISO, PARA

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal 
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz életrônica
e pensa no mar.

PROTESI

Tante invasioni
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
ci saró abituata
e scorderó
che con quell' oro
in bocca
non sono nata.

Quarto de Pensão

Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
escrevo meu trabalho
e ela farfalha, embora já sem folhas,
só da lembrança de ter sido tronco.
Tenho uma pia no canto,
que goteja.
e é meu lago, meu rio, meu
fundo mar.
Tenho um rijo cabide
à cabeceira
para dependurar a pele
a cada noite.
Me dão café com pão, e às vezes
algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.

Há uma fome indistinta que me habita
enquanto o medo
com felpudos passos
percorre o labirinto das entranhas.
Mas agradeço essas quatro paredes
e que me tenham dado uma janela
Pois sei que a qualquer hora
sem possibilidade de recurso
e talvez mesmo sem aviso prévio
serei intimada
a devolver o quarto.

QUASE UM ÂMBAR

O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram 
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas 
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.

Razão tem Ghirlandaio

Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.

Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.

Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.

Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.

Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.

RED POPPY

Na testa do meu amado
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.

Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.

Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.

RÉDEAS NAS MÃOS

Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas

Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.

SALEIRO NA SERRA

Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.

SALOMÉ DO EDIFÍCIO PÚBLICO

A saia comprida até o meio da perna
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.

SIM, PODE-SE

Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.

Sistema solar

No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar

SOBRE A ESTRADA

Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.

SOBRE FUNDO AZUL

O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.

TARDE E CASA VAZIA

O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.

TARDE FRIA

Frio
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.

Tua mão em mim

Você me acorda no meio da noite
e eu que navegava tão distante
cravada a proa em espumas
desfraldados os sonhos
afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis
a boca ainda salgada mas já amarga
molhada a crina
encharcados os pêlos
na maresia que do meu corpo escorre.
Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.
A correnteza arrasta.
Só quando o primeiro sopro escapar
entre os lábios da manhã
levantarei âncora.
Mas será tarde demais.
O sol nascente terá trancado o porto
e estarei prisioneira da vigilia.

UCCELLO, EM VÔO

Paolo, chamado Uccello
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.

Cavalos de terracota
e gesso 
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.

Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.

UM DOS ÚLTIMOS DA SUA ESPÉCIE

Chamava-se Giulio e era conde
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.


UMA CAMÉLIA

Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.

Ao alto
a flor.

Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.

Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.

VERÃO DE CHUVA EM SAITAMA

Grand-mother me chamou
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.

Satums 2988

VERDE, PORÉM

Por que será que
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?